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Crédito: Reprodução da Internet (Via: https://lojaanimaoficial.com.br/)
Quando falamos da Lectio Divina, não estamos tratando de um mero “método de leitura espiritual”. Estamos diante de uma prática viva, tradicional, que moldou santos, formou doutores da Igreja e alimentou monges e fiéis ao longo de séculos. Não é exagero dizer que a Lectio Divina é uma das joias mais preciosas da espiritualidade católica, recomendada não apenas por monges beneditinos, mas também pelo magistério da Igreja, especialmente desde o Concílio Vaticano II.
Bento XVI dizia, na Exortação Apostólica Verbum Domini:
“A prática da Lectio Divina, se promovida eficazmente, há de trazer à Igreja — estou convencido disso — uma nova primavera espiritual.” (Verbum Domini, 87)
A Lectio Divina tem raízes bíblicas e patrísticas profundas. Já no Antigo Testamento, vemos a importância de “ruminar” a Palavra de Deus. Josué recebeu esta ordem:
“Não se afaste da tua boca o livro desta Lei; medita nele dia e noite, para que tenhas o cuidado de fazer tudo o que nele está escrito” (Js 1,8)
Os Padres da Igreja, sobretudo Orígenes, falavam dessa leitura orante que vai além do literal para buscar o sentido espiritual. São Jerônimo, tradutor da Vulgata, escrevia: “Ignorar as Escrituras é ignorar Cristo.” É uma leitura feita não apenas com os olhos, mas com o coração, na presença do Espírito Santo.
São Gregório Magno (séc. VI), outro gigante da Tradição, dizia:
“As Escrituras crescem com o leitor” (Moralia in Job, Prefácio).
Ou seja, a Palavra não é letra morta: ela é viva, eficaz e, na Lectio Divina, atua como espada de dois gumes (cf. Hb 4,12).
Clássica e tradicionalmente, a Lectio Divina é apresentada em quatro etapas, tal como estruturada pelo monge cartuxo Guido II, o Cartuxo, no século XII, em seu célebre texto Scala Claustralium. Ele compara esses passos a uma escada que liga a terra ao Céu:
“A leitura (lectio) busca, a meditação (meditatio) encontra, a oração (oratio) pede e a contemplação (contemplatio) saboreia.”
Vamos ver cada degrau:
Aqui, não se trata de ler rápido. Lê-se devagar, em voz baixa ou mentalmente, mas com atenção. A pergunta fundamental é: O que o texto está dizendo?
No magistério, Bento XVI lembra:
“É preciso que a leitura do texto suscite a interrogação: o que diz o texto em si mesmo?” (Verbum Domini, 87)
A meditação é o momento de dialogar interiormente com a Palavra. Pergunte-se: O que Deus está me dizendo hoje?
A Verbum Domini nos exorta:
“Perguntar-se qual a mensagem que o Senhor dirige à nossa vida.” (n. 87)
Naturalmente, meditar leva à oração. Agora é você que fala a Deus. Pergunte-se: O que eu quero dizer a Deus em resposta?
A Lectio Divina não é só conhecimento, mas encontro. A oração brota quase sem perceber.
É o cume da Lectio Divina. A alma repousa em Deus, num silêncio adorante. Pergunte-se: O que Deus me faz saborear neste silêncio?
São João da Cruz diria que, nesse estágio, “Deus comunica-se à alma sem meios”. É o momento de união íntima, mesmo se envolto em aridez.
Alguns documentos modernos, como a Verbum Domini, acrescentam um quinto passo: actio.
“Não podemos guardar para nós a Palavra recebida na escuta. Ela impele-nos a partilhar com os irmãos o que ouvimos, como anúncio e testemunho.” (Verbum Domini, 91)
Ou seja, a Palavra meditada transforma nossa vida e deve se traduzir em gestos concretos de caridade, evangelização, mudança de vida. Não se trata de ativismo, mas de coerência. A Palavra se faz carne na nossa história.
A Lectio Divina não é coisa só de monges. O magistério da Igreja insiste que todo fiel pode e deve encontrar na Palavra um alimento espiritual. O Concílio Vaticano II, na Dei Verbum, proclamou:
“É necessário que todos os clérigos e, na medida das suas possibilidades, todos os cristãos, se apliquem à leitura assídua da Sagrada Escritura.” (Dei Verbum, 25)
Bento XVI reforça:
“Toda a comunidade cristã deveria tornar-se cada vez mais familiarizada com a Sagrada Escritura.” (Verbum Domini, 73)
Portanto, seja você leigo, padre, consagrado, jovem ou idoso, a Lectio Divina é para você.
No fim, a Lectio Divina não tem outro objetivo senão este: fazer-nos amigos íntimos de Jesus Cristo. Conhecê-lo, amá-lo e imitá-lo. Como dizia São Gregório Magno:
“A Escritura cresce com quem a lê, porque ela é como uma árvore cujos frutos amadurecem no coração que a contempla.”
Não há caminho espiritual mais seguro do que beber cada dia da fonte pura da Palavra de Deus. A Lectio Divina nos recorda que a fé católica não é apenas doutrina escrita, mas relacionamento vivo com o Verbo eterno que se fez carne.