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Crédito: Reprodução da Internet
Pouco se fala hoje sobre magnanimidade, e isso é uma perda enorme para a vida cristã. Na tradição da Igreja, trata-se de uma virtude essencial para formar santos, líderes e homens de fé que não se contentam com pouco. Mas na catequese atual quase não ouvimos essa palavra. Será que caímos na tentação de achar que humildade significa pensar pequeno? Recuperar a magnanimidade é urgente, porque ela ensina os fiéis a viver com audácia, sem perder a simplicidade, mirando em grandes obras para a glória de Deus.
A palavra vem do latim magnanimitas, ou seja, grandeza de alma. Não é vaidade, não é ambição mundana, mas a disposição de buscar e realizar coisas grandes em conformidade com a vontade de Deus. Santo Tomás de Aquino ensina que a magnanimidade é a virtude que regula o desejo de grandes honras e obras, preservando-o do excesso (presunção) e da falta (pusilanimidade). Ela se apoia na fortaleza e na esperança, porque exige coragem diante das dificuldades e confiança no auxílio divino (Suma Teológica, II-II, q. 129).
Assim, ser magnânimo não significa querer ser famoso ou aparecer, mas colocar-se à altura daquilo que Deus espera de nós. É a grandeza que nasce da consciência da graça recebida.
A catequese atual fala — com razão — sobre caridade, solidariedade, partilha e serviço. Mas raramente convida os fiéis a pensar grande, a empreender obras duradouras, a sonhar com santidade heroica. O risco é formar cristãos bons, mas resignados, sem coragem de assumir tarefas exigentes. O Papa Francisco alertou, em diversas homilias, contra a mediocridade espiritual que se instala quando a fé perde ousadia. A Igreja não pode contentar-se com um “mínimo sindical de santidade”.
O Catecismo (n. 1804) lembra que as virtudes humanas são hábitos estáveis que ordenam as paixões e conduzem ao bem. A magnanimidade, ainda que não seja citada nominalmente, é uma dessas forças que nos impulsionam a viver a plenitude do bem. Sem ela, a vida cristã corre o risco de encolher, tornando-se acomodada e sem horizonte.
Muitos se confundem: será que buscar grandes obras não contradiz a humildade cristã? De jeito nenhum. O verdadeiro humilde não pensa menos de si, mas reconhece que tudo o que é e tem vem de Deus. Nesse sentido, a magnanimidade é filha da humildade: porque reconheço que recebi dons do Senhor, quero colocá-los a serviço do Reino, e não enterrá-los como o servo medroso da parábola dos talentos (Mt 25,14-30).
Santa Teresa de Ávila dizia: “A humildade é a verdade”. Ora, a verdade é que Deus nos chamou para coisas grandes: a santidade, a evangelização, a transformação da sociedade segundo o Evangelho. Negar isso em nome de uma falsa modéstia é pecado de omissão.
A história da Igreja é marcada por homens e mulheres magnânimos. São Francisco de Assis ousou reconstruir a Igreja em ruínas, começando com nada além da pobreza radical. Santa Teresa de Calcutá iniciou sua missão com uma única escola improvisada, e dali gerou uma obra que alcançou o mundo inteiro. São João Paulo II, com sua coragem, ajudou a derrubar regimes totalitários. Nenhum deles buscava glória própria; todos se lançaram em tarefas grandes porque confiavam em Deus.
O Magnificat de Nossa Senhora é, em si, um hino de magnanimidade humilde: “O Senhor fez em mim maravilhas” (Lc 1,49). Maria reconhece sua pequenez, mas não esconde a grandeza da obra de Deus em sua vida. Esse é o espírito autêntico da magnanimidade cristã.
A virtude sempre caminha entre dois extremos perigosos. O magnânimo não é presunçoso, não acha que pode tudo sozinho, nem busca honras passageiras. Também não é vaidoso, que realiza boas obras só para ser visto. O risco oposto é a pusilanimidade: uma alma pequena que, por medo ou preguiça, evita responsabilidades maiores. Santo Tomás é incisivo: a pusilanimidade é um vício contra a virtude, porque rebaixa a alma e a impede de agir segundo sua dignidade de filho de Deus.
O cristão precisa vigiar para que o desejo de coisas grandes não se torne mundano. A magnanimidade deve estar unida à prudência e à caridade, para que as grandes obras sejam realmente ordenadas ao bem e não ao ego.
A magnanimidade não nasce pronta. Ela se educa com atitudes concretas:
Essas práticas ajudam a moldar um coração disposto a realizar obras duradouras, mas sempre de joelhos diante de Deus.
A Igreja é chamada a ser magnânima. O Concílio Vaticano II, na Gaudium et Spes, fala da grandeza da vocação humana e da missão de transformar o mundo à luz do Evangelho. Uma Igreja tímida, sem magnanimidade, se retrai e perde vigor missionário. Já uma Igreja magnânima assume riscos, fala a verdade sem medo, investe em educação, evangelização e caridade com projetos de longo alcance.
Como dizia São João Bosco: “O mundo não precisa de jovens ricos, mas de jovens grandes”. Essa lição vale também para a Igreja: não basta ser numerosa, precisa ser grande de alma, fiel e audaz.
Resgatar a magnanimidade na catequese é recuperar a coragem de formar cristãos inteiros, capazes de sonhar com a santidade e de assumir missões ousadas para Deus. O mundo atual, marcado por mediocridade e relativismo, precisa de homens e mulheres que pensem grande sem se envaidecer, que façam grandes obras sem buscar aplausos.
A magnanimidade é o tempero que falta: é ela que impede a fé de se tornar morna, que desperta iniciativas de santidade, que move a Igreja a não se encolher. Em outras palavras: sem magnanimidade, corremos o risco de ser bons, mas inúteis. Com ela, tornamo-nos instrumentos de Deus para transformar o mundo.