USD | R$5,0222 |
|---|
Crédito: Reprodução da Internet
Falar de Maria como “Co-Redentora” parece, para muitos, uma ousadia intolerável. Aos ouvidos impregnados do igualitarismo moderno, essa expressão soa como um ultraje à centralidade de Cristo. No entanto, para os ouvidos sintonizados com a Tradição da Igreja, essa verdade mariana ecoa como um sussurro sagrado vindo dos séculos, reverberando desde os Padres da Igreja até os doutores mais ilustres, os santos mais elevados e os papas mais autênticos. A doutrina da corredentora não é uma invenção devocional do século XIX, mas um desdobramento legítimo da fé católica na singular participação de Maria na obra da salvação.
Desde o Fiat em Nazaré até o Stabat Mater no Calvário, Maria nunca esteve à margem do plano redentor de Deus. Pelo contrário, foi por meio dela que Cristo veio ao mundo: “Ao entrar no mundo, Cristo diz: ‘Eis-me aqui, ó Deus, para fazer a tua vontade’” (Hb 10,7), e essa entrada foi mediada por Maria. São Luís Maria Grignion de Montfort afirma: “Deus Filho quis formar-se e, de certo modo, encarnar-se todos os dias por intermédio de Maria” (Tratado da Verdadeira Devoção, n. 16).
A participação de Maria na redenção se dá de forma subordinada e dependente da obra única de Cristo, mas real e eficaz. Ela é Mãe de Deus, Theotókos, não apenas porque gerou a carne de Cristo, mas porque cooperou com a missão d’Ele de modo voluntário e consciente. O Concílio Vaticano II, em Lumen Gentium 61, afirma que Maria “cooperou, de modo absolutamente singular, com a obra do Salvador, pela obediência, fé, esperança e ardente caridade”. O termo “cooperou”, aqui, tem um peso teológico enorme: não é mera assistência, mas uma cooperação ativa e redentora, evidentemente subordinada.
A Igreja vê o Calvário como o momento supremo da corredentora. João Paulo II afirmou com clareza que, “na cruz, Maria une-se ao sacrifício do Filho e oferece-O ao Pai. Ao mesmo tempo, entrega-se a si mesma ao Pai” (Redemptoris Mater, 38). Maria não apenas presenciou a Paixão de Cristo; ela sofreu com Ele, sofreu por Ele e sofreu n’Ele. São Boaventura fala de “duas pessoas oferecendo um só sacrifício: o Filho no corpo, a Mãe no coração”.
No Calvário, Maria ofereceu ao Pai o Filho que ela mesma dera à luz. Não houve outra criatura na história da humanidade cuja vontade estivesse tão unida à de Cristo. Como ensina São João Paulo II na audiência de 8 de setembro de 1982: “A participação de Maria no sacrifício redentor de Cristo atinge o seu ponto culminante no Calvário”.
A expressão “Co-Redentora” já era usada com segurança por santos e papas muito antes de qualquer polêmica moderna. São Bernardino de Sena (séc. XV) dizia que Maria “cooperou com Cristo na redenção do gênero humano com tanta excelência que se pode dizer que com Ele redimiu o mundo”. Santo Afonso de Ligório ensina que Maria “foi associada à redenção dos homens como cooperadora da salvação” (Glórias de Maria, Parte II, Discurso 5).
O Papa Bento XV, em sua carta apostólica Inter Sodalicia (1918), afirmou com clareza que Maria “sofreu e quase morreu com o Filho sofredor e agonizante; por amor, renunciou aos direitos maternos sobre o Filho e ofereceu-O ao Pai eterno como vítima por todos os pecados da humanidade… Por esta razão, é legitimamente dita ter redimido o gênero humano com Cristo”. Pio XI repetiu mais de uma vez em alocuções públicas que Maria é “a Corredentora”. João Paulo II usou o título pelo menos seis vezes em seus discursos.
Não se trata de colocar Maria no mesmo nível de Cristo. A Igreja sempre deixou claro que Maria participa de modo subordinado, derivado, dependente e instrumental na obra da redenção. Cristo é o único Redentor – Maria é a cooperadora, como Eva cooperou na ruína.
A questão da definição dogmática da corredentora não é uma dúvida sobre sua veracidade, mas sobre a prudência pastoral de sua proclamação. A comissão teológica do Concílio Vaticano II optou por não usar o termo “Co-Redentora” em Lumen Gentium, embora tenha mantido todas as ideias associadas a ele. Não por rejeitar a doutrina, mas por julgar que o termo, naquele contexto ecumênico, poderia ser mal interpretado. Bento XVI, por sua vez, demonstrou cautela com o uso da expressão, não por negá-la, mas por preferir uma teologia mais reservada em tempos de confusão doutrinária.
Contudo, o fato de ainda não haver definição dogmática não impede que se creia firmemente na doutrina da corredentora. Muitos teólogos consideram esta verdade como próxima da fé (“sententia proxima fidei”), ou seja, verdade que, embora ainda não definida infalivelmente, já pertence ao patrimônio da fé católica, por ter sido sustentada universalmente pelo Magistério ordinário.
Cristo nos salvou com o corpo, mas também com o coração. E nesse coração, a Mãe teve um lugar singularíssimo. Foi por vontade d’Ele que ela estivesse ao pé da cruz. E foi por vontade d’Ele que ela fosse associada à obra redentora. Maria não é corredentora por “merecimento” autônomo, mas por escolha divina. Deus quis que a mulher estivesse no centro da redenção, assim como esteve na queda.
Se houve uma Eva ao lado de Adão na ruína, era justo que houvesse uma Nova Eva ao lado do Novo Adão na redenção. E mais: se o pecado original atingiu toda a humanidade, era necessário que o remédio fosse aplicado por meio de instrumentos humanos, unidos a Cristo. Maria é este vaso escolhido, este canal privilegiado, esta serva cuja cooperação livre e amorosa Deus elevou à dignidade de corredentora.
Aqueles que reviram os olhos diante da ideia de Maria como Co-Redentora geralmente são os mesmos que tratam a teologia mariana como uma espécie de apêndice devocional. Esquecem que toda doutrina cristológica tem uma dimensão mariológica inevitável. Tocar na Mãe é tocar no mistério da Encarnação. E minimizar Maria é minimizar, mesmo que indiretamente, o próprio Cristo, que a quis como colaboradora inseparável.
Proclamar Maria como Co-Redentora não é uma exaltação humana, mas um reconhecimento da grandeza de Deus que se dignou envolver uma mulher em Sua obra mais excelsa. É o canto de louvor que ecoa desde o Magnificat até o Calvário, onde, como ensina São João Paulo II, Maria foi “associada a Cristo no sacrifício redentor” (Redemptoris Mater, 38).
O título de Co-Redentora não é uma moda nem um capricho teológico. Ele expressa com precisão a participação única de Maria na obra redentora de Cristo. Já vive na fé dos fiéis, na liturgia, nos escritos dos santos, nas declarações do Magistério. Resta, talvez, o selo formal de um dogma – que, se vier, não criará uma nova verdade, mas apenas proclamará solenemente o que a Igreja sempre soube: que Maria, por graça e escolha divina, esteve unida ao Redentor na obra de nossa salvação. E, por isso, a chamamos com amor e fé: Co-Redentora da humanidade.