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Crédito: Reprodução da Internet
O Evangelho segundo São Lucas, no capítulo 10, versículos 38 a 42, nos apresenta um dos episódios mais ricos de simbolismo e espiritualidade na vida pública de Cristo: a visita de Jesus à casa de Marta e Maria. Em poucas linhas, a Palavra de Deus nos revela uma tensão constante que atravessa os séculos: o aparente conflito entre ação e contemplação, entre serviço e oração, entre o fazer e o estar com o Senhor. Longe de ser uma simples comparação entre dois temperamentos, o texto é uma catequese profunda sobre as prioridades do coração cristão e a ordem sobrenatural da caridade.
“Jesus entrou numa aldeia, e certa mulher, chamada Marta, recebeu-o em sua casa” (Lc 10,38). O detalhe inicial já é precioso. Jesus entra numa casa. Não num palácio, não numa sinagoga, mas numa casa. Isso manifesta o desejo do Verbo de Deus de se fazer íntimo, de habitar os espaços comuns da vida humana. Betânia se torna, para o Senhor, um lugar de repouso, de amizade e de partilha. O lar de Marta, Maria e Lázaro será mencionado outras vezes nos Evangelhos como refúgio de Cristo, e sua presença ali não é acidental, mas reveladora: Jesus busca corações que o acolham, mais do que paredes que o abriguem.
A Igreja, ao longo dos séculos, sempre viu nessa casa um ícone da alma fiel. Cristo quer fazer morada em nós (cf. Jo 14,23), e essa habitação interior requer disposição concreta – como a de Marta –, mas também silêncio adorador – como o de Maria. Ambas são necessárias, mas em ordem hierárquica: primeiro o estar com Deus, depois o agir por Ele.
“Marta, porém, andava atarefada com muitos serviços” (Lc 10,40). A atitude de Marta não é censurável em si. Pelo contrário, o serviço é virtude cristã. O Catecismo da Igreja Católica ensina que “a caridade exige o bem do próximo e comporta o serviço efetivo” (CIC, 2447). Mas o problema não é o serviço em si: é o coração ocupado com muitas coisas ao ponto de se distrair do essencial. Marta se perde no fazer, agita-se, inquieta-se e, no fim, reclama: “Senhor, não te importas que minha irmã me deixe sozinha a servir? Diz-lhe que me ajude!” (Lc 10,40).
A frase revela um coração atribulado e, de certo modo, autorreferencial. O zelo sem contemplação corre o risco de se tornar crítica, comparação, amargura. Em vez de servir com alegria, Marta se vê sobrecarregada. Ela representa os cristãos que, embora generosos, esquecem que o serviço nasce da união com Deus e que, sem oração, até mesmo a caridade pode se tornar cansativa ou vaidosa.
“Maria, sentada aos pés do Senhor, ouvia a sua palavra” (Lc 10,39). Eis a imagem da alma contemplativa, da Virgem fiel que escuta e guarda tudo no coração (Lc 2,19). Maria de Betânia, nessa cena, antecipa o que será a espiritualidade monástica, o espírito dos grandes místicos e santos doutores da Igreja. Sentar-se aos pés de Jesus é reconhecer sua autoridade, é colocá-lo no centro, é dizer com a postura: “Só Tu tens palavras de vida eterna” (Jo 6,68).
Cristo elogia essa postura com clareza: “Maria escolheu a melhor parte, e esta não lhe será tirada” (Lc 10,42). A “melhor parte” não é uma preferência pessoal, mas uma escolha objetiva: ouvir o Senhor é superior a qualquer outro bem. Isso não nega o valor do serviço, mas o subordina à contemplação. Na hierarquia dos bens espirituais, o primado pertence a Deus e à escuta da Sua Palavra. Santo Tomás de Aquino dirá que a vida contemplativa é mais perfeita que a ativa porque se ocupa diretamente de Deus (Suma Teológica, II-II, q.182, a.1).
Seria um erro grosseiro opor Marta a Maria como se fossem duas vocações absolutamente incompatíveis. A tradição da Igreja jamais leu esse trecho como uma condenação do apostolado. Pelo contrário: o que Cristo corrige é a desordem interior de Marta, não sua dedicação. A vida ativa é necessária – e muitos santos foram grandes missionários, pregadores, servidores dos pobres –, mas toda ação, para ser frutuosa, deve brotar da contemplação.
Santa Teresa de Jesus, que reformou o Carmelo, dizia: “Marta e Maria devem caminhar juntas para hospedar o Senhor e tê-Lo sempre consigo” (Caminho de Perfeição, cap. 31). Também São João Paulo II ensinou que “a contemplação de Cristo deve encontrar expressão concreta na caridade” (Novo Millennio Ineunte, 20). Não se trata, portanto, de suprimir uma ou outra dimensão, mas de integrá-las, com primazia do amor contemplativo.
A Igreja, ao instituir a memória litúrgica de Santa Marta, Santa Maria e São Lázaro no dia 29 de julho, unifica essa família como modelo de hospitalidade, amizade com Cristo e fé. No rito romano tradicional, Marta tem festa própria, e Maria é associada à unção de Betânia, identificada tradicionalmente com Maria Madalena. A Igreja valoriza o papel das mulheres que, de formas diferentes, se aproximaram do Coração de Jesus, seja pela escuta, seja pelo serviço, seja pela adoração.
Bento XVI, ao comentar esse Evangelho, disse: “A atividade que distrai, que afasta de Deus, é uma atividade estéril, mesmo que seja aparentemente religiosa. Tudo deve começar e terminar em Cristo” (Audiência Geral, 26/04/2006). Ou seja: não basta fazer por Cristo; é preciso estar com Ele. O perigo moderno de um cristianismo ativista, sem alma, é justamente esquecer-se de Maria, sentada aos pés do Senhor.
Vivemos numa época marcada pela pressa, pela hiperatividade, pela cultura da produtividade. Até mesmo na vida da Igreja há risco de se cair num ativismo frenético, que gera cansaço espiritual e perda do sentido sobrenatural. Nesse contexto, o Evangelho de Marta e Maria brilha como farol: lembra-nos que o essencial é invisível aos olhos, como diria o Pequeno Príncipe, mas visível ao coração que escuta. A oração, o silêncio, a adoração e a meditação da Palavra devem ser o centro da vida cristã.
O Papa Leão XIII, em sua encíclica Rerum Novarum, mesmo ao tratar das questões sociais, coloca Deus como fundamento da verdadeira ordem. Toda ação política, social ou pastoral que ignore a contemplação perde seu norte. O verdadeiro apóstolo nasce no recolhimento: primeiro ajoelha-se, depois levanta-se para agir. Não o contrário.
A lição de Betânia não é apenas uma correção a Marta, mas uma pedagogia para todos nós. Cristo não despreza o serviço, mas o redimensiona. Convida-nos a escolher “a melhor parte” todos os dias: a escuta de Sua Palavra, a permanência em Sua presença, a oração silenciosa. A verdadeira fecundidade da vida cristã nasce da união com Deus. E aí, sim, o serviço ganha sentido, leveza e santidade.
Portanto, sejamos Marta purificada por Maria. Sejamos ativos, sim, mas com a alma contemplativa. Como dizia São Bernardo de Claraval: “Os que são sábios brilham como o firmamento, mas os que instruem a muitos na justiça resplandecerão como as estrelas por toda a eternidade” (Dn 12,3). Mas só poderá instruir na justiça quem primeiro a contemplou nos olhos de Cristo. E para isso, é preciso sentar-se. Simples assim.