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Crédito: Reprodução da Internet
Na pequena aldeia de Betânia, a poucos quilômetros de Jerusalém, estava uma das casas mais amadas por Nosso Senhor: a casa de Marta, Maria e Lázaro. Ao longo dos séculos, a Igreja reconheceu nesse lar algo muito maior do que um simples cenário evangélico. Ali não se tratava apenas de hospitalidade ou amizade, mas de uma verdadeira escola de intimidade com Cristo — um microcosmo da vida cristã vivida em suas diversas expressões: o serviço de Marta, a contemplação de Maria e a ressurreição de Lázaro.
Com grande sabedoria pastoral, o Papa Francisco, em 2021, aprovou a inscrição da “Memória dos santos Marta, Maria e Lázaro” no Calendário Romano Geral no dia 29 de julho, que antes era dedicado apenas a Santa Marta. O novo título reconhece oficialmente o papel inseparável dos três irmãos, que “acolheram o Senhor Jesus em sua casa, o escutaram com atenção, acreditaram nele firmemente e com Ele partilharam a esperança da ressurreição” (Decreto da Congregação para o Culto Divino, 26 de janeiro de 2021).
Marta é geralmente lembrada pelo episódio narrado em Lucas 10,38-42, no qual ela se ocupa com muitos afazeres para acolher Jesus, enquanto sua irmã Maria se senta aos pés do Mestre. A resposta de Cristo — “Marta, Marta, andas inquieta e te preocupas com muitas coisas…” — não é uma repreensão ao trabalho em si, mas uma correção amorosa sobre a inquietação interior que pode contaminar até mesmo o serviço mais generoso.
Contudo, seria injusto reduzir Marta a um símbolo de ativismo. No Evangelho de João (11,21-27), vemos uma mulher de fé profunda: “Senhor, se estivesses aqui, meu irmão não teria morrido. Mas sei que, mesmo agora, tudo quanto pedires a Deus, Deus te concederá.” A profissão de fé de Marta em Jesus como “o Cristo, o Filho de Deus” é uma das mais claras e solenes de todo o Novo Testamento, comparável apenas à de São Pedro.
Santo Agostinho vê em Marta a imagem da vida ativa que, purificada pela fé, caminha para a contemplação. Sua vida aponta para a importância de servir com generosidade, mas também de saber descansar em Cristo, pois todo apostolado que não nasce da oração e da escuta se torna estéril.
Maria, por sua vez, aparece nos Evangelhos como uma alma contemplativa, sedenta da Palavra e disposta a tudo por amor a Cristo. Em Lucas 10, é ela quem se senta aos pés de Jesus “para ouvir sua palavra”. Mais tarde, em João 12, ela unge os pés do Salvador com um nardo preciosíssimo e os enxuga com os cabelos — um gesto de adoração que comove o próprio Cristo e é considerado profético, antecipando sua morte.
Enquanto Marta representa a prontidão do serviço, Maria encarna a sabedoria que sabe parar. Ela reconhece o momento da visita divina, vive a teologia do “kairós” — o tempo favorável da graça — e se entrega à presença do Senhor com a totalidade do seu ser.
Os Padres da Igreja, sobretudo Orígenes e São Gregório Magno, identificaram em Marta e Maria as duas dimensões complementares da vida cristã: a ativa e a contemplativa. Maria, figura da alma orante, nos recorda que, diante de Deus, o mais importante não é fazer, mas estar. Ela é, como disse o Papa Bento XVI, “ícone da contemplação que leva ao verdadeiro amor”.
Lázaro é, em certo sentido, o mais misterioso dos três. Ele não diz uma só palavra nos Evangelhos, mas seu testemunho é tão eloquente que os chefes dos judeus desejavam matá-lo (Jo 12,10), pois “por causa dele muitos deixavam os judeus e criam em Jesus”. Ressuscitado após quatro dias no sepulcro, Lázaro é a prova viva de que Cristo tem poder sobre a morte — um sinal messiânico que prepara o povo para a própria Ressurreição do Senhor.
A liturgia bizantina chama Lázaro de “o amigo de Deus”, e os antigos hinos orientais celebram sua ressurreição como uma antecipação da glória pascal. Já os Padres Latinos, como Santo Ambrósio e São Leão Magno, viam em Lázaro a figura do pecador arrependido que sai do túmulo do pecado e retorna à vida pela palavra de Cristo.
A Igreja reconhece em Lázaro um modelo de esperança: ele experimenta o poder da palavra de Jesus que chama do sepulcro, e nos ensina a escutar, mesmo nas trevas da morte, a voz que diz: “Lázaro, vem para fora!” (Jo 11,43). Seu silêncio após o milagre é, paradoxalmente, uma pregação profunda sobre o mistério da graça.
A santidade de Marta, Maria e Lázaro não se manifesta em grandes feitos ou martírios, mas na fidelidade cotidiana, no acolhimento do Verbo, no amor perseverante e silencioso. Sua casa tornou-se um santuário doméstico onde Jesus era acolhido não como hóspede, mas como parte da família.
O Papa Bento XVI, em uma catequese sobre esses santos, recordou que “em Betânia Jesus experimentava a alegria de uma amizade profundamente humana e também espiritualmente rica”. A casa dos três irmãos se torna, assim, figura da própria Igreja: lugar onde Cristo é recebido, servido, adorado e onde Sua Palavra ressuscita os mortos.
Liturgicamente, a nova memória comum reforça a compreensão da santidade não como uma exceção heroica, mas como vocação de todos. Os três irmãos de Betânia nos ensinam que há muitas maneiras de amar a Deus com todo o coração: lavando os pés dos hóspedes, ouvindo a Palavra com atenção ou respondendo à voz que nos chama da morte para a vida.
Em tempos de distração e superficialidade, Marta nos chama à generosidade no serviço; Maria nos ensina a parar, escutar e adorar; Lázaro nos lembra que nenhuma morte é definitiva quando se tem fé em Cristo. Em um mundo que frequentemente marginaliza o lar e a amizade, Betânia nos convida a redescobrir a santidade das relações humanas enraizadas em Deus.
Como ensina o Catecismo da Igreja Católica: “Jesus tinha predileção por a quem confiava o seu amor. Marta, Maria e Lázaro ocupavam um lugar privilegiado no seu Coração humano” (cf. CIC, §609). Imitar esses santos não exige dons extraordinários, mas uma fé ardente, um coração acolhedor e uma vida entregue a Cristo.
Neste 29 de julho, a Igreja não celebra apenas três santos — celebra um estilo de vida cristão. Uma casa, três almas e um único Amor que os unia: o próprio Deus feito homem, que ali repousava, ensinava, era servido e acolhido. Que nossas casas se tornem também um dia verdadeiras Betânias.