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Crédito: Reprodução/Instagram @miladeliciasdechocolate
O Brasil já havia assistido a modas culinárias ganharem notoriedade nas redes sociais — do “pão de nuvem” ao “biscoito de polvilho na air fryer”. Mas em julho de 2025, foi a vez de um doce aparentemente simples capturar o coração (e o paladar) de milhões de brasileiros: o “morango do amor”. Em poucos dias, a receita composta por um morango fresco envolto em brigadeiro de leite Ninho e banhado por uma crosta de açúcar vermelha se tornou um fenômeno nacional. Influenciadores, donas de casa, doceiras e até padarias gourmet passaram a exibir suas versões do doce com entusiasmo quase religioso. E como toda febre viral, o impacto foi muito além das curtidas: os preços do morango dispararam, e a cadeia produtiva sentiu o efeito imediato.
A receita surgiu de forma tímida em vídeos de confeiteiras independentes no TikTok e Instagram. Bastaram algumas imagens bem feitas, mostrando o contraste entre a crocância do caramelo e a suculência do morango, para o “morango do amor” ultrapassar os 10 milhões de visualizações em menos de uma semana. Rapidamente, tornou-se um dos termos mais buscados no Google Brasil e uma das sobremesas mais vendidas por delivery em grandes capitais como São Paulo, Recife, Belo Horizonte e Goiânia.
O apelo visual do doce é inegável: cores vibrantes, brilho intenso, estética artesanal e sensação de exclusividade. Com a legenda certa e uma mordida estratégica capturada no momento exato, qualquer vídeo sobre o doce tornava-se viral. Essa estética gourmet caseira, aliada ao poder dos algoritmos, foi o catalisador perfeito para transformar o morango em estrela nacional.
O sucesso repentino trouxe uma consequência inevitável: o aumento do preço do morango. Em Fortaleza, por exemplo, o quilo da fruta no atacado saltou de R$ 34 para R$ 50 entre junho e julho, um aumento de 44,6% segundo levantamento do Diário do Nordeste junto à Ceasa. A demanda cresceu tanto que os estoques da fruta chegaram a ser zerados em algumas regiões do Nordeste, onde o transporte do Sul e Sudeste, principais centros produtores, depende de logística custosa.
Segundo o IPCA-15 do IBGE, o preço do morango teve uma alta acumulada de 46,02% em 2025 até o mês de julho. Em supermercados e feiras, a realidade não foi diferente: bandejas com 300g passaram de R$ 7,99 para R$ 14,99 em média, com variações ainda mais altas em regiões periféricas e interioranas. Em algumas capitais, o consumidor pagava até R$ 25 por uma única unidade do “morango do amor” — e aceitava, sem piscar.
Além do apelo visual, a estrutura do doce responde a uma lógica sensorial quase infalível: o contraste entre o ácido e o doce, o quente e o frio, o cremoso e o crocante. O morango do amor desperta não só a gula, mas também uma experiência tátil e auditiva — o som da casquinha quebrando sob os dentes virou um “ASMR” de confeitaria.
Esse prazer instantâneo e multisensorial foi crucial para o sucesso digital. A sobremesa oferece a recompensa emocional de algo “feito em casa”, com um toque artesanal, mas com acabamento digno de vitrine francesa. Em tempos de redes sociais movidas por experiências rápidas e impactantes, o morango do amor é um produto perfeito: bonito, indulgente e compartilhável.
A febre também movimentou o mercado da confeitaria como um todo. Docerias artesanais relataram aumento de até 80% no faturamento em julho, comparado ao mesmo período de 2024. Algumas passaram a produzir mais de 800 unidades por dia, adaptando processos e contratando temporários para dar conta da demanda. Em São Paulo, um quiosque na região da Paulista chegou a ter fila de espera de uma hora para vender morangos por R$ 20 cada.
No interior do país, a receita viral virou oportunidade de negócio para mulheres empreendedoras. Em grupos de WhatsApp, comunidades do Facebook e marketplaces locais, centenas de anúncios surgiram oferecendo o doce por encomenda, com variações que incluíam recheios trufados, chocolate belga ou versões “fit”. O morango do amor deixou de ser só sobremesa: tornou-se fonte de renda e símbolo de empreendedorismo instantâneo.
Enquanto as doceiras comemoravam, os produtores rurais enfrentavam o dilema do abastecimento. O morango não é uma fruta de ciclo rápido. Seu cultivo depende de clima ameno, solo bem drenado e cuidados constantes com pragas e irrigação. Estados como São Paulo, Minas Gerais (região de Estiva) e o Sul do país lideram a produção nacional. Porém, a repentina explosão da demanda desestabilizou o mercado.
Em entrevista ao portal Hora Campinas, um produtor local afirmou que “nem na Páscoa ou Dia das Mães se viu algo parecido”. Como consequência, houve aumento do preço do insumo básico — o morango in natura —, que por sua vez impactou toda a cadeia logística, desde o produtor até o pequeno confeiteiro.
O açúcar da tendência e o amargo da especulação
Como toda moda, o morango do amor também atraiu exageros. Versões superfaturadas surgiram em grandes centros urbanos, com valores que chegavam a R$ 50 por unidade sob a justificativa de “ingredientes nobres” e “toque gourmet”. No paralelo, surgiram denúncias de produtos mal conservados ou vendidos por ambulantes sem refrigeração, colocando em risco a segurança alimentar — especialmente numa sobremesa que mistura frutas frescas e cremes lácteos.
Além disso, especialistas alertaram para o risco de inflação artificial. Ao concentrar a atenção em um único produto e provocar escassez súbita, o fenômeno pode desestabilizar outros setores da horticultura, além de afetar negativamente consumidores que dependem do morango para fins nutricionais e não para fins estéticos.
O “morango do amor” é, em essência, um espelho da nossa era. É uma sobremesa que representa o encontro entre o artesanal e o digital, o sabor e o espetáculo, a tradição caseira e o consumo instantâneo. Seu sucesso não se explica apenas pelo gosto ou pela estética, mas por um contexto cultural em que desejos, algoritmos e oportunidades econômicas se cruzam em velocidade vertiginosa.
Não se trata apenas de um doce. Trata-se de um fenômeno social e econômico. Uma fruta que, ao ser mergulhada em brigadeiro e açúcar, revelou o poder do imaginário coletivo de uma nação que, mesmo em tempos difíceis, ainda encontra um certo consolo em um pequeno prazer visual e gustativo — de preferência, que dê likes.
Se a febre do morango do amor vai durar, não se sabe. Mas que deixou uma marca no paladar e no mercado, disso ninguém duvida. Afinal, poucas frutas conseguiram tanto em tão pouco tempo.