USD | R$5,0198 |
|---|
Crédito: Reprodução da Internet
Não se trata apenas de um fato histórico ou de um episódio dramático, mas da plenitude do amor de Deus derramado sobre a humanidade. A cruz é o altar do Cordeiro imolado, onde o céu e a terra se encontram, onde o pecado do mundo é lavado com sangue inocente, onde a vida é entregue para que a morte fosse vencida.
“Tudo está consumado” (Jo 19,30)
Na Sexta-feira Santa, a Igreja silencia. As campainhas cessam, os altares estão desnudos, e o mundo parece suspenso no tempo. É o dia da morte do Filho de Deus, o dia em que o Inocente morre pelos culpados, o Justo entrega-se pelos injustos, o Criador se deixa morrer pelas suas criaturas. Cada gesto de Cristo rumo ao Calvário, cada palavra dita com esforço, cada gota de sangue derramada tem um significado eterno.
Quando Cristo, pregado na cruz, exclama: “Tudo está consumado”, Ele não fala apenas do fim de um sofrimento físico, mas da consumação de toda a promessa de salvação feita desde o Gênesis. É a aliança definitiva, selada no sangue, onde o amor de Deus se mostra em sua forma mais radical: amor que se entrega, amor que perdoa, amor que não desiste do homem, mesmo quando este o rejeita.
Jesus é crucificado às 9h da manhã (Mc 15,25) – Nesse horário, no Templo de Jerusalém, o cordeiro pascal era levado ao altar para ser imolado. Jesus, o Cordeiro de Deus, toma o lugar da antiga aliança e inaugura a nova, oferecendo-se como vítima perfeita e definitiva.
A inscrição “Jesus Nazareno, Rei dos Judeus” (INRI) – Embora posta em tom de escárnio por Pilatos, a inscrição proclama a verdade: Jesus é o Rei, mas seu trono é a cruz, sua coroa é de espinhos, seu cetro é um madeiro ensanguentado.
As três horas de agonia (12h às 15h) – O céu escurece, a terra treme. É como se toda a criação chorasse a morte de seu Autor. Jesus permanece pendente entre o céu e a terra, intercedendo por todos.
As sete palavras da cruz – Cada uma delas é uma janela aberta sobre o coração de Deus. Desde o perdão aos inimigos (“Pai, perdoa-lhes”) até o clamor da dor (“Meu Deus, por que me abandonaste?”), até o abandono total (“Pai, em tuas mãos entrego meu espírito”), cada palavra revela a profundidade do amor do Crucificado.
O rasgar do véu do Templo – Quando Jesus morre, o véu do Templo, que separava o Santo dos Santos, se rasga de alto a baixo. O acesso ao Pai, antes vedado, agora está aberto. A separação entre Deus e o homem é vencida. O próprio corpo de Cristo se torna o novo Templo.
A lança no lado de Jesus (Jo 19,34) – Do lado aberto do Redentor jorra sangue e água: sinais da Eucaristia e do Batismo, sinais da Igreja que nasce do coração trespassado do Salvador. É o novo Adão, do qual nasce a nova Eva, a Igreja.
A morte de Cristo não é derrota, é triunfo. Como afirma o Catecismo da Igreja Católica (§ 617), “a Redenção de Cristo consiste principalmente em que Ele veio ‘dar a sua vida como resgate por muitos’ (Mt 20,28), isto é, ‘amar os seus até o fim’ (Jo 13,1), para que sejamos ‘libertados da vã maneira de viver herdada de nossos pais’ (1 Pd 1,18)”.
A cruz, portanto, deixa de ser apenas um instrumento de tortura e se transforma em símbolo de esperança, perdão e salvação. Por isso a veneramos com amor, beijamos com reverência na liturgia da Sexta-feira Santa, pois ali está a árvore da vida nova.
A Igreja, no silêncio e na dor, realiza a única liturgia sem celebração eucarística: é o único dia do ano em que não há consagração, pois o Cordeiro está morto. A celebração se compõe de três partes:
Na piedade popular, a morte de Cristo é vivida com intensidade comovente. As procissões do Senhor Morto, os sermões da Paixão, o silêncio das igrejas, os altares desnudados, tudo convida à contemplação e à interiorização desse mistério.
As expressões artísticas, como as imagens do Senhor dos Passos, do Cristo crucificado e do Descendimento, não são simples representações: são expressões visíveis da fé que sangra com o Redentor.
E ali está Ela, a Mãe, firme ao pé da cruz. Maria não grita, não se desespera. Ela sofre com o Filho, oferece o Filho, acolhe os filhos. Ali, no auge da dor, torna-se Mãe da Igreja. Com os olhos fixos no Crucificado, Maria ensina a suportar o sofrimento com dignidade e fé, unida ao mistério redentor de Deus.
A morte de Cristo é o ponto mais profundo da revelação do amor divino. É a resposta de Deus ao pecado do mundo: não o abandono, mas a misericórdia. A cruz, ensanguentada e silenciosa, é o grito mais alto do amor que se fez carne e se entregou até o fim.
Na Semana Santa, diante do Crucificado, somos convidados a não sermos espectadores da dor de Cristo, mas a entrar com Ele no mistério da cruz. Como diz São Paulo: “Quanto a mim, não pretendo gloriar-me em coisa alguma, a não ser na cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo” (Gl 6,14). Que possamos, à luz da cruz, morrer com Ele para o pecado, e viver com Ele na Ressurreição.