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Chamar Maria de Rainha não é um enfeite piedoso nem licença poética. É consequência direta do dogma da maternidade divina: se Jesus Cristo é Rei por direito — verdadeiro Deus e verdadeiro homem —, sua Mãe participa de sua dignidade de modo singular e derivado. Essa é a linha mestra de Pio XII na encíclica Ad Caeli Reginam (1954), que sistematiza uma tradição viva desde os primeiros séculos: a realeza de Maria brota do seu papel único no mistério da Encarnação e da Redenção. Não falamos de uma segunda soberana paralela, mas da Mãe associada intimamente ao Filho-Rei (cf. Ad Caeli Reginam, 34–39).
A Escritura não usa o termo “rainha” para Maria porque o Novo Testamento não é um glossário; oferece, porém, a chave interpretativa. No reino davídico, a figura feminina de maior autoridade cortesã não era a esposa do rei, mas a gebirah — a rainha-mãe. Quando Betsabé entra à presença de Salomão, o rei se levanta, inclina-se, manda colocar um trono para ela e a senta à sua direita. Essa tipologia estrutura a esperança messiânica: se o Messias é o novo Filho de Davi, então sua Mãe é, por analogia, a rainha-mãe do Reino. Acrescente-se o Salmo 45 (44),9 — “à vossa direita se encontra a rainha, ornada de ouro de Ofir” — lido na tradição cristã à luz de Maria, e a visão do Apocalipse: a Mulher vestida de sol, coroada de doze estrelas (Ap 12,1), símbolo da Igreja e, eminentemente, de Maria enquanto seu membro mais excelso. O gesto de Isabel — “Mãe do meu Senhor” (Lc 1,43) — também aponta para a dignidade régia daquele que ela traz no seio e, por reflexo, para a dignidade de sua Mãe.
O “alegra-te” do Anjo ecoa os oráculos de Sião, cidade-esposa e mãe do Rei (Sf 3,14; Zc 9,9). Maria é a Filha de Sião em pessoa, na qual o Rei messiânico vem habitar. Os Padres rapidamente perceberam: se Cristo reina do madeiro, Maria permanece de pé junto à cruz (Jo 19,25), exercendo a firmeza real dos que servem na dor. Não é por acaso que a Igreja reza por séculos com títulos régios: Salve Regina, Ave Regina Caelorum, Regina Caeli. A linguagem litúrgica não brota do nada; decanta o depósito da fé.
A coroação de Maria é o quinto mistério glorioso do Rosário não por capricho devocional, mas como contemplação da consumação de sua missão: assumida ao céu (Assunção), ela participa da glória do Filho e é venerada como Rainha dos anjos e dos santos. Em 1954, Pio XII instituiu a festa de Maria Rainha (inicialmente em 31 de maio) justamente para fixar na liturgia aquilo que o povo de Deus sempre cantou; a reforma do calendário posterior a Vaticano II a colocou em 22 de agosto, no oitavo dia da Assunção, sublinhando o vínculo intrínseco entre exaltação e coroação (Marialis Cultus, 6; Calendário Romano Geral). Esse arranjo litúrgico é teologia em cores: a realeza de Maria é o desdobramento lógico da sua glorificação.
O Concílio Vaticano II foi direto: “A Imaculada Virgem, preservada imune de toda mancha de culpa original, terminado o curso de sua vida terrena, foi levada em corpo e alma à glória celeste e exaltada pelo Senhor como Rainha do universo” (Lumen Gentium, 59). No mesmo capítulo, o Concílio articula sua função maternal “na ordem da graça” (LG 61–62): Maria coopera “subordinadamente” ao único Mediador, Cristo, e por isso sua intercessão é eficaz. São João Paulo II retoma e aprofunda a temática em Redemptoris Mater (1987), mostrando que a “dimensão mariana” da Igreja é inseparável da realeza servidora de Maria, que aponta sempre para Cristo. E se alguém objetar que só a Cristo compete reinar, vale lembrar Quas Primas (1925): a realeza de Cristo é fundamento do cosmos e da história; a de Maria é participação — extensiva, real, porém derivada. Não há concorrência; há consonância.
Rainha, sim; imperiosa, não. O cetro de Maria é a caridade perfeita. No Evangelho, a “autoridade” de Jesus se manifesta servindo (Mc 10,45). Maria reina como quem intercede, obtém graças, protege os fracos, consola os aflitos. A tradição não hesita em chamá-la de Advogada, Auxiliadora, Socorro dos cristãos — títulos que a Ladainha Lauretana consagra. Lumen Gentium 62 fala dela como “Mediadora” em sentido analógico: toda graça vem de Cristo; Maria a pede, oferece e distribui maternalmente, sem nada acrescentar à obra redentora do Filho, mas aplicando-a às almas. Eis por que o povo cristão confia: quem tem por Mãe a Rainha não está desamparado.
“Isso não é bíblico.” É bíblico no sentido católico: Escritura lida na Tradição, com tipologias que o próprio Novo Testamento ensina a usar (1Cor 10,11; Hb 9–10). A figura da rainha-mãe ilumina o lugar de Maria no Reino do Filho de Davi. “Mas Apocalipse 12 é a Igreja.” Sim — e Maria é seu tipo e ápice; a exegese católica reconhece a dupla referência, sem reduzir uma à outra. “Só Jesus é Rei.” Exato. A realeza de Maria é participada. Negá-la por medo de rivalidade empobrece o próprio Cristo, como se sua grandeza não pudesse elevar ninguém. “Coroar imagens não é culto idolátrico?” Coroar uma imagem é gesto litúrgico que honra a pessoa representada e confessa verdades de fé (a realeza de Maria em Cristo). O culto devido a Deus é latria; a Maria cabe hiperdulia. O Magistério distingue, a liturgia educa, o fiel aprende a ordem do amor. “Isso diminui a centralidade da cruz.” Ao contrário: só porque do lado aberto de Cristo nasce a Igreja é que Maria, de pé ao pé da cruz, torna-se Mãe na ordem da graça (Jo 19,26–27). É a cruz que explica a coroa.
Se Maria é Rainha, qual é o “programa de vida” concreto? Primeiro, a imitação: humildade que acolhe, fé que persevera, esperança que não recua. Segundo, a consagração — no sentido clássico de São Luís Maria Grignion de Montfort: entregar-se totalmente a Maria para pertencer mais perfeitamente a Jesus (Tratado da Verdadeira Devoção, caps. 1–3; 120–123). Não se trata de atalho mágico, mas de disciplina de amor: colocar os próprios bens, corpo e alma à disposição de Maria para que ela disponha segundo a vontade do Rei. São João Paulo II traduziu isso no seu Totus Tuus: pertenço a Ti, Maria, para ser todo de Cristo. Terceiro, a missão: a Rainha convoca para o serviço — família, trabalho, vida pública. A realeza de Cristo deve informar cultura, leis, artes e comunicação; Maria, Rainha dos apóstolos, ensina-nos a levar Cristo ao mundo com coragem e delicadeza.
Celebrar a Memória de Maria Rainha em 22 de agosto, no respiro da Assunção, é deixar que a liturgia catequize o olhar. O Prefácio próprio recorda a cooperação de Maria na obra do Filho e sua assunção à glória; as leituras frequentemente evocam Ap 12, o Salmo 45 e perícopes marianas de Lucas, compondo um mosaico bíblico-teológico em que a coroa não é joia, mas símbolo do triunfo da graça. Na prática pastoral, vale recuperar a beleza das coroações de imagens (com critério e sob orientação litúrgica), a recitação do Salve Regina no fim do dia e a catequese sobre os títulos marianos — “Rainha dos anjos”, “Rainha dos patriarcas”, “Rainha dos mártires”… Cada invocação é uma pequena aula de teologia.
Num tempo que despreza hierarquias e, ao mesmo tempo, cria ídolos passageiros, a realeza de Maria corrige os dois desvios. De um lado, lembra que a verdadeira autoridade é serviço e maternidade; de outro, vacina contra idolatrias modernas, porque toda grandeza mariana é referida a Cristo. Pastoralmente, falar de Maria Rainha é alfabetizar o coração para o Reino: a vida cristã não é caos, tem ordem; não é ego, tem vínculos; não é regra fria, é caridade ardente. Em jornalismo, cultura e política, isso se traduz numa presença pública dos católicos que não teme afirmar princípios e, ao mesmo tempo, age com o estilo de Maria — firme, sereno, magnânimo.
Para estudo sério e seguro, o caminho é claro. Leia Ad Caeli Reginam (Pio XII, 1954), que fundamenta a realeza mariana e institui a festa. Consulte Lumen Gentium 52–69, sobretudo os números 59–62, sobre a Assunção e a mediação maternal. Reze com a liturgia: as antífonas marianas e a memória de 22 de agosto. Acrescente Marialis Cultus (Paulo VI, 1974), que orienta o culto mariano no pós-Concílio, e Redemptoris Mater (São João Paulo II, 1987), síntese rica da doutrina. Como pano de fundo cristológico, Quas Primas (Pio XI, 1925) sobre Cristo Rei ajuda a entender de onde procede toda coroa legítima na Igreja.
No fim, é simples e exigente: Maria é Rainha porque é Mãe do Rei e Cooperadora singular da Redenção. Sua coroa não compete, indica; não obscurece, ilumina; não encerra, abre para Cristo. Quem a toma por Rainha aprende a governar a si mesmo com as virtudes do Evangelho e a servir os outros com a ternura que só o amor materno sabe oferecer. Sob o manto real de Maria, a Igreja não foge do mundo: entra nele com a coragem de quem sabe a quem pertence. E pertence a Cristo, Rei do Universo — e ao lado dele, como o Salmo canta, está a Rainha, toda formosa, que nos conduz ao Reino.