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Crédito: Divulgação/Finep
Cientistas em diversos países estão correndo para lançar no mercado uma tecnologia que pode revolucionar desde a internet que usamos até o preço dos celulares que carregamos no bolso. São os chips fotônicos, que usam luz em vez de eletricidade para processar dados — e que podem tornar serviços digitais mais rápidos, baratos e menos gastadores de energia já nos próximos anos.
A novidade ganhou força nas últimas semanas após pesquisadores na China anunciarem a criação de um chip capaz de realizar cem operações simultâneas, cada uma usando um feixe de luz com comprimento de onda diferente. É como se, em vez de carros presos num congestionamento, cada feixe fosse uma pista exclusiva numa autoestrada de dados — tudo ao mesmo tempo.
“É um avanço enorme, porque podemos transmitir e processar mais informação gastando menos energia e gerando menos calor”, explica o físico Paulo Nascimento, do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Fotônica Aplicada (INCTFoton), no Brasil. “Isso vai impactar direto o custo dos serviços digitais.”
Na prática, chips ópticos podem ajudar a resolver um dos maiores gargalos do mundo digital: o consumo gigantesco de energia dos data centers, onde rodam redes sociais, streaming, inteligência artificial e tudo o que usamos online.
Hoje, grandes empresas gastam bilhões de dólares só para resfriar servidores aquecidos pelo tráfego intenso de dados. Como a luz gera muito menos calor que a eletricidade, os chips fotônicos prometem reduzir essas contas — o que pode se refletir nos preços dos serviços para o consumidor final.
“É caro manter servidores refrigerados. Se as empresas gastarem menos para operar, isso pode baratear planos de internet, nuvem e até o uso de inteligência artificial em celulares”, explica Nascimento.
Além disso, a velocidade de transmissão cresce de forma absurda. Enquanto chips eletrônicos atuais trabalham em gigahertz (bilhões de ciclos por segundo), a luz opera em terahertz — ou seja, pode ser até mil vezes mais rápida.
Outro impacto direto está nos celulares, especialmente aqueles que usam inteligência artificial para traduzir conversas em tempo real, editar vídeos ou gerar imagens com comandos de texto. Esses recursos exigem muito processamento, e chips fotônicos podem diminuir o gasto de bateria e o custo dos aparelhos.
Atualmente, a maioria dos celulares depende da nuvem para rodar tarefas mais pesadas. No futuro, com chips mais eficientes, essas funções poderão acontecer dentro do próprio aparelho, sem precisar enviar dados para fora. Isso significa mais privacidade, segurança e menos consumo de internet móvel.
Apesar das demonstrações em laboratório, os chips fotônicos ainda não estão prontos para produção em massa. O principal desafio é fabricar esses componentes em larga escala, com custos viáveis para a indústria de eletrônicos.
Fabricantes como Intel, IBM, Nvidia e startups chinesas e americanas estão investindo pesado para resolver problemas como integração entre circuitos ópticos e eletrônicos, miniaturização e redução de custos.
“Nosso palpite mais realista é que veremos produtos com chips fotônicos entre 2026 e 2028”, diz Nascimento. “Primeiro em data centers, depois chegando aos dispositivos pessoais.”
O Brasil não está completamente distante da corrida. Há grupos de pesquisa trabalhando com fotônica no país, como o INCTFoton e universidades como Unicamp e USP. Mas ainda não há fábricas capazes de produzir esses chips em escala comercial por aqui.
Isso significa que, ao menos no início, o Brasil será consumidor, não produtor da tecnologia. Mesmo assim, os especialistas são otimistas:
“Mesmo que não fabriquemos esses chips, vamos nos beneficiar, porque os custos de infraestrutura digital podem cair. E isso pode se refletir na conta do consumidor, seja na internet, no celular ou em serviços de nuvem”, afirma o físico.
Se tudo der certo, a tecnologia pode tornar a internet mais rápida e estável, derrubar custos de serviços digitais, reduzir o preço de celulares com inteligência artificial e até ajudar o planeta, já que diminui o gasto de energia dos data centers.
Em resumo, chips fotônicos podem ser a chave para trazer tecnologias de ponta ao bolso de mais brasileiros, num cenário em que cada vez mais serviços — do Pix ao streaming — dependem de internet veloz e barata.
A revolução da luz está só começando — e pode estar a poucos anos de chegar ao seu smartphone.