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Crédito: Reprodução da Internet (Via: https://arquidiocesedearacaju.org/)
Quando morre o Romano Pontífice, sucessor de São Pedro e Vigário de Cristo na terra, toda a Igreja entra em luto e oração. Um dos ritos mais significativos desse momento é o chamado Novendiali, uma série de nove dias consecutivos de celebrações litúrgicas e ritos fúnebres que expressam o pesar da Esposa de Cristo pela partida do seu Pastor, e ao mesmo tempo a sua confiança na ressurreição e na promessa da vida eterna.
Este rito, profundamente enraizado na Tradição da Igreja, tem origem nos antigos costumes cristãos e romanos, e está regulado pelo Ordo Exsequiarum Romani Pontificis, o conjunto de normas e ritos que regem as exéquias papais. Embora envolva uma rica simbologia e protocolo, o Novendiali é antes de tudo uma expressão do amor, da esperança e da comunhão da Igreja com o seu pastor defunto, que deixa o timão da Barca de Pedro nas mãos de Deus.
A palavra Novendiali deriva do latim novem dies, que significa “nove dias”. Desde a Antiguidade, tanto no mundo romano quanto na tradição cristã, o número nove tem significado litúrgico e espiritual. Os romanos já celebravam nove dias de luto após a morte de uma pessoa ilustre. No cristianismo, o número nove se associa à expectativa da plenitude – como os nove dias entre a Ascensão do Senhor e Pentecostes, quando os Apóstolos perseveraram em oração com Maria Santíssima, à espera do Espírito Santo.
Nos ritos fúnebres da Igreja, o Novendiali tornou-se, assim, uma novena solene pela alma do Papa defunto, marcada por liturgias específicas e altamente simbólicas, realizadas na Basílica de São Pedro e em outras igrejas de Roma.
O rito do Novendiali é descrito e disciplinado no documento Ordo Exsequiarum Romani Pontificis, promulgado após o Concílio Vaticano II e atualizado pelo Papa João Paulo II na Constituição Apostólica Universi Dominici Gregis (1996), que regula a Sé Vacante e a eleição do novo Papa.
Segundo este documento:
Durante esses dias, ocorrem os funerais solenes e, após o sepultamento, inicia-se o Novendiali, que consiste em nove Missas solenes celebradas consecutivamente, com o objetivo de:
Cada um dos nove dias do Novendiali possui sua própria liturgia, presidida por um cardeal diferente, geralmente de uma das ordens cardinalícias: bispos, presbíteros ou diáconos. As Missas são celebradas ad orientem, com profunda sobriedade e solenidade. A seguir, o significado simbólico de cada dia:
É a Missa de funeral propriamente dita, com o corpo presente, geralmente celebrada 4 a 6 dias após o falecimento, para permitir o luto público. É presidida pelo Decano do Colégio Cardinalício (ou seu substituto, se necessário). A homilia recorda a vida e missão do Pontífice falecido. Ao fim, ocorre o rito de última recomendação e despedida, com as ladainhas dos santos e incensação do caixão, antes do sepultamento.
Cada uma dessas Missas é oferecida por sufrágio da alma do Papa. São celebradas pelos cardeais, que se revezam na presidência, com ampla participação do clero romano, religiosos, diplomatas e fiéis.
Em cada uma delas, há:
Todos os bispos do mundo celebram Missas em sufrágio do Papa. O luto é vivido em comunhão eclesial, como expressão da unidade da Igreja.
O Novendiali não é apenas uma série de ritos fúnebres, mas uma profunda expressão da fé católica na ressurreição da carne e na vida eterna. A Igreja ora por aquele que foi seu Pastor Supremo, confiando-o à misericórdia de Deus. Como ensina o Catecismo da Igreja Católica:
“A morte é o fim da peregrinação terrestre do homem, do tempo da graça e da misericórdia que Deus lhe oferece para realizar a sua vida segundo o desígnio divino” (CIC 1013).
O Papa, como qualquer fiel, é sujeito ao juízo de Deus. Daí o intenso clamor da Igreja pelos sufrágios de sua alma. Ao mesmo tempo, celebra-se a esperança da eternidade:
“Para os teus fiéis, Senhor, a vida não é tirada, mas transformada” (Prefácio dos Fiéis Defuntos I).
Os Novendiali encerram-se com a nona Missa, mas a alma do Papa segue envolta nas orações da Igreja. O luto abre espaço à espera, e a Sé Vacante prepara o coração dos fiéis para o futuro. O colégio cardinalício, imerso no clima de oração dos Novendiali, se dirige ao conclave com o coração purificado e iluminado pela graça do Espírito Santo.
Na tradição católica, não há ruptura: há continuidade. A morte de um Papa não marca o fim, mas uma nova etapa da peregrinação eclesial rumo ao Reino definitivo.
Como disse São João Paulo II:
“A Igreja, sustentada pelo Espírito Santo, caminha entre as perseguições do mundo e as consolações de Deus. Nem a morte de um Papa, nem as tempestades externas, podem abalar aquele que fundou sua casa sobre a rocha” (Homilia, 22 de outubro de 1978).