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Crédito: Reprodução/CFFB
Em outubro de 1978, o mundo católico vivia um momento de grande expectativa. Após a morte repentina de João Paulo I, apenas 33 dias após sua eleição, os cardeais voltavam a se reunir na Capela Sistina para eleger um novo pontífice. Naquele momento histórico, o nome de um brasileiro simples, humilde e profundamente espiritualizado circulava com força entre os cardeais: Dom Aloísio Lorscheider.
Poucos hoje se lembram que, entre as paredes silenciosas do conclave que resultaria na eleição de Karol Wojtyła — o futuro São João Paulo II —, Dom Aloísio foi um dos cardeais mais votados nas primeiras rodadas de votação. De acordo com relatos confiáveis de bastidores, seu nome apareceu entre os favoritos para suceder Pedro. Mas o que poucos sabem — e menos ainda compreendem — é que Lorscheider, diante da possibilidade concreta de ser eleito Papa, recusou a honra.
Dom Aloísio Lorscheider era então o arcebispo de Fortaleza e presidente do Conselho Episcopal Latino-Americano (CELAM). Religioso da Ordem dos Frades Menores (OFM), ele havia participado ativamente do Concílio Vaticano II, como perito e depois como bispo, e era uma das vozes mais respeitadas da Igreja na América Latina. Seu trabalho na Conferência de Medellín e, mais tarde, em Puebla, fez dele uma figura central no diálogo entre fé e justiça social.
Embora identificado por alguns como “progressista”, Dom Aloísio jamais rompeu com a ortodoxia católica. Ao contrário: sua espiritualidade franciscana, sua fidelidade à Eucaristia e sua devoção à Virgem Maria o tornavam um homem profundamente eclesial, equilibrado e fiel à Tradição da Igreja.
Após a morte do Papa João Paulo I, os cardeais se reuniram novamente para escolher um sucessor. Entre os papabili — os mais cotados para a eleição — figuravam nomes como Giuseppe Siri, Giovanni Benelli e o jovem cardeal polonês Karol Wojtyła. No entanto, nas primeiras cédulas, o nome de Dom Aloísio apareceu com força. Vários cardeais europeus, impressionados com sua liderança no CELAM e sua postura serena e sábia, viam nele um pastor capaz de conduzir a Igreja com espírito evangélico e abertura ao mundo moderno, sem comprometer a fé.
O vaticanista italiano Andrea Tornielli relata que Albino Luciani (João Paulo I), antes de sua breve eleição, já considerava Dom Aloísio uma figura inspiradora. E segundo Marco Roncalli, sobrinho de João XXIII, Luciani teria votado em Lorscheider em 1978.
Dom Paulo Evaristo Arns, outro gigante da Igreja no Brasil, confirmaria mais tarde:
“O nome do Aloísio corria nos corredores como o mais natural. Ele tinha o respeito dos europeus, dos africanos e dos latino-americanos. Mas o próprio Aloísio não queria. Ele me disse, com lágrimas nos olhos: ‘não tenho saúde para carregar a cruz de Pedro’.”
Ao perceber que os votos estavam se inclinando para seu nome, Dom Aloísio teria feito discretos gestos de recusa. Dentro do conclave, os cardeais podem expressar relutância sem palavras: um olhar, uma lágrima, uma súplica silenciosa. Fontes eclesiásticas indicam que ele implorou para não ser escolhido, alegando fragilidade de saúde e falta de condições físicas e emocionais para assumir tão grande missão. Seu gesto de humildade impactou os demais eleitores e, ao perceberem sua indisposição, os cardeais mudaram de rumo.
A escolha acabou recaindo sobre o cardeal Karol Wojtyła, que se tornaria São João Paulo II — um pontífice que transformaria o século XX e deixaria marcas profundas na história da Igreja e do mundo. Paradoxalmente, ao recusar o trono de Pedro, Dom Aloísio pode ter aberto o caminho para uma das figuras mais decisivas do catolicismo moderno.
Dom Aloísio teve papel central na III Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano, em Puebla (1979), enquanto presidia o CELAM. O documento final da conferência — “Puebla: Evangelização no presente e no futuro da América Latina” — reflete muito de sua visão pastoral:
“A opção preferencial pelos pobres não é uma ideologia, mas uma exigência evangélica.”
(Documento de Puebla, n. 1134)
Esse princípio, embora mal interpretado por setores ideológicos, expressa a radicalidade do Evangelho. E foi justamente essa fidelidade à caridade cristã que fez dele uma figura respeitada, inclusive por cardeais de outros espectros.
O cardeal Joseph Ratzinger, futuro Bento XVI, declarou sobre ele em entrevista à revista 30 Giorni (1985):
“O cardeal Lorscheider tem uma grande paixão pela verdade do Evangelho, que une à sua sensibilidade pelas necessidades dos homens de nosso tempo. Mesmo quando discordamos em abordagens, é impossível não admirar seu zelo apostólico.”
Além disso, Leonardo Boff, que foi aluno de Dom Aloísio e mais tarde se afastaria da doutrina da Igreja, escreveu sobre seu antigo professor em “A Águia e a Galinha”:
“Dom Aloísio tinha os pés no chão dos pobres e os olhos no céu de Francisco de Assis. Talvez por isso não aceitou o papado: sabia que Roma exigiria dele mais do que a saúde e o coração podiam dar.”
Mesmo vindo de uma voz dissonante, o testemunho evidencia a espiritualidade de renúncia que sempre marcou a vida de Dom Aloísio.
Dom Aloísio continuou seu ministério com simplicidade até o fim. Faleceu em 2007, em Porto Alegre, sem jamais buscar notoriedade ou cargos maiores. Sua vida foi marcada pela humildade, pela obediência à Igreja e pelo amor aos mais pobres.
Ao recusar o papado, ele não fugiu de uma missão — ele a discerniu com profunda clareza espiritual. Em tempos de ambição e busca por poder, sua atitude resplandece como sinal de uma santidade que não se impõe, mas que se oferece silenciosamente como testemunho do Evangelho.
A história de Dom Aloísio Lorscheider é uma daquelas que revelam os bastidores da Igreja sem escândalo, mas com admiração. Ele poderia ter sido Papa. Tinha votos, prestígio e sabedoria para isso. Mas sua humildade franciscana o fez recuar diante do peso de um encargo que só os santos verdadeiramente compreendem.
Ao recusar o trono de Pedro, Dom Aloísio nos mostrou que a grandeza de um homem de Deus não está no cargo que ocupa, mas na cruz que decide carregar — ainda que essa cruz o esconda da glória do mundo.