USD | R$5,2072 |
|---|
Crédito: Reprodução do filme “Conclave”
A Igreja Católica, fundada por Nosso Senhor Jesus Cristo, é una, santa, católica e apostólica. Ao longo de dois mil anos, mesmo enfrentando perseguições, escândalos e dificuldades humanas, ela nunca deixou de ser conduzida pelo Espírito Santo e de permanecer fiel à verdade revelada por Deus. Justamente por isso, qualquer representação da Igreja que pretenda retratar seu interior, suas estruturas ou sua doutrina, precisa de extrema fidelidade, respeito e responsabilidade. Quando isso não acontece, o resultado é a distorção, a caricatura, e até mesmo a tentativa de subversão da verdade. É exatamente esse o caso do filme analisado aqui, que, sob o pretexto de mostrar os bastidores de um conclave, transmite uma série de mensagens ambíguas e perigosas sobre a Igreja, seus cardeais, sua fé e sua missão.
Neste primeiro artigo, faço uma análise crítica e aprofundada dos principais erros, inversões e deturpações que esse filme apresenta. Cada ponto é tratado com base na doutrina da Igreja, nos documentos oficiais do Magistério e na Sagrada Tradição. Não se trata de uma crítica superficial ou meramente estética. É uma análise comprometida com a verdade da fé católica, feita com zelo e amor pela Igreja Una de Cristo.
Um dos pontos mais escancarados do filme é a inversão de valores ao retratar os personagens. O Cardeal Lawrence é apresentado como o bonzinho, pacífico, dialogal, sensato, enquanto o Cardeal Tedesco, que seria o mais tradicional, é retratado como uma figura autoritária, agressiva e até vilanesca. Isso, por si só, já é muito significativo. O filme tenta pintar o tradicional como algo ultrapassado, agressivo, quase maléfico, enquanto o progressista é colocado como herói, aquele que salvaria a Igreja.
O problema disso é que a verdadeira doutrina católica está no Magistério, na Tradição e nas Sagradas Escrituras. E todos esses elementos não podem ser descartados em nome de uma modernização vazia, que apenas atende aos anseios do mundo e não aos de Deus. O Cardeal Tedesco, na realidade, representa os valores sólidos da Igreja: a doutrina firme, a clareza da fé, a fidelidade aos ensinamentos de Cristo. Mostrá-lo como um vilão é um ataque direto à Tradição da Igreja, aos papas que a defenderam, aos santos que a viveram.
O Catecismo da Igreja Católica nos ensina claramente que “o ofício de interpretar autenticamente a Palavra de Deus, escrita ou transmitida, foi confiado unicamente ao Magistério vivo da Igreja” (CIC, 85). Ou seja, não é papel de nenhum grupo ou ideologia querer mudar os fundamentos da fé em nome de uma adaptação ao mundo moderno.
Outra mensagem muito clara que o filme tenta passar é a de que existem dois lados na Igreja: o lado progressista e o lado conservador, como se houvesse uma disputa interna, uma briga constante, quase como dois partidos políticos. Isso é completamente contrário à realidade da Igreja. A Igreja é uma só. Não existem dois lados dentro dela. Existe a fé católica, revelada por Deus, confiada aos apóstolos e transmitida por dois mil anos.
É claro que existem pessoas dentro da Igreja que pensam de forma diferente, que têm opiniões diversas sobre questões disciplinares ou pastorais. Mas a Igreja em si é indivisível. Qualquer tentativa de dividi-la, de dizer que há duas Igrejas, já está, por si só, fora da verdade. A Lumen Gentium, do Concílio Vaticano II, afirma: “Esta é a única Igreja de Cristo que, no Símbolo, confessamos ser una, santa, católica e apostólica” (LG, 8).
Ao mostrar o conclave como um campo de batalha ideológica, o filme desvirtua completamente a natureza espiritual e sagrada desse evento. O Papa é eleito como sucessor de Pedro, escolhido por Cristo. Ele não é um presidente de partido, não é um reformador com pautas humanas. Ele é o Vigário de Cristo na Terra.
Todas as vezes que o Cardeal Lawrence aparece discursando, ele busca agradar a todos. Ele pesa as palavras, tenta ser sensato, evitar ofensas. Mas a fé católica não é feita para agradar ao mundo. Ela é feita para conduzir à salvação. E muitas vezes isso exige verdades duras, que incomodam.
Em sua homilia durante o conclave, Lawrence diz que a Igreja não tem certezas. Que ela deve estar sempre em dúvida, para que possa acolher todos. Isso é gravíssimo. A Igreja é feita de certezas. Nós cremos no que nos foi revelado por Deus. A fé não é dúvida. A fé é certeza daquilo que não se vê (Hb 11,1). O que existe são mistérios, não dúvidas. O mistério da Trindade, por exemplo, não é uma dúvida. Sabemos que o Pai, o Filho e o Espírito Santo são um só Deus. Não sabemos como isso se dá, mas sabemos que é assim. Isso é mistério, não incerteza.
O grito de Cristo na cruz – “Meu Deus, por que me abandonaste?” – citado no filme, não expressa dúvida da parte de Jesus. Expressa a dor humana de quem está oferecendo sua vida pela humanidade. A natureza humana de Cristo se manifesta nesse clamor. Mas Ele sabia perfeitamente o motivo do seu sofrimento. Ele mesmo disse antes: “É necessário que o Filho do Homem sofra” (Mc 8,31). Usar esse grito como argumento para dizer que nem Cristo tinha certezas é uma heresia. É um abuso da Sagrada Escritura.
Ao longo do filme, os cardeais são mostrados como homens profundamente perturbados, angustiados, ansiosos, com medo, influenciados por questões do mundo. Pouquíssimos demonstram confiar na ação de Deus, na condução do Espírito Santo. E isso é mais uma distorção. O conclave não é uma eleição comum. Não é uma escolha política. É um processo sagrado, conduzido pela oração e pelo discernimento espiritual.
É claro que os cardeais são humanos e têm suas fraquezas. Mas o filme mostra praticamente todos eles como se fossem dominados pelo mundo, e não pela fé. A ação do Espírito Santo é quase completamente ignorada. Tudo é politizado. Tudo é racionalizado. E assim se tenta esvaziar o caráter divino do conclave. O Documento Dominus Iesus (2000) reafirma: “A Igreja peregrina é necessária à salvação. Cristo está presente nela de modo substancial” (n. 20). Ignorar isso é ignorar o próprio Cristo.
Outro erro grave do filme é mostrar como se soubéssemos o que acontece dentro do conclave. Como são feitas as votações, como são contados os votos, o que os cardeais falam entre si. Tudo isso está sob juramento de segredo. Os cardeais juram diante de Deus que não revelarão o que se passa ali dentro. E isso não é para esconder coisas. É para proteger o processo. Proteger da politização, da manipulação externa, da pressão da mídia.
É justamente para garantir que os cardeais possam votar iluminados pelo Espírito Santo, livres de interferências humanas. Mostrar o conclave como algo público, escancarado, com votos revelados, é uma afronta à sacralidade do processo. A Constituição Apostólica Universi Dominici Gregis, de São João Paulo II, é clara ao dizer: “Os cardeais eleitores estão obrigados a manter estrito segredo com relação a tudo o que direta ou indiretamente se refere à eleição do Sumo Pontífice” (n. 60).
O filme analisado apresenta, em sua maior parte, uma tentativa clara de mundanizar a Igreja, de reduzir sua natureza divina a um sistema político humano. Ele retira o protagonismo de Deus, da fé, da ação do Espírito Santo e o transfere para conflitos ideológicos, disputas de poder e discursos vazios.
Tudo é diluído: a verdade vira opinião, o dogma vira dúvida, o mistério vira contradição, a certeza da fé vira incerteza conveniente. E, ao fazer isso, o filme não apenas falha em representar a Igreja de forma fiel, mas contribui para um processo contínuo de confusão, divisão e desinformação.
Mas a Igreja permanece. “As portas do inferno não prevalecerão contra ela” (Mt 16,18). E enquanto houver católicos dispostos a defender a verdade com caridade e firmeza, ela continuará a brilhar com a luz de Cristo.
Na segunda parte desta análise, vamos aprofundar ainda mais algumas cenas específicas, diálogos que revelam outras inversões graves e questões doutrinárias que são atacadas sutil ou abertamente no filme. Porque, como dizia São Paulo: “É necessário que haja heresias, para que também os aprovados se manifestem entre vós” (1Cor 11,19).
Aguardem a Parte 2.