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Crédito: Reprodução da Internet
Em tempos de linguagem confusa e fé diluída, o Credo dos Apóstolos é aquela corda firme numa ponte balançando. Ele não é um enfeite litúrgico: é a síntese autorizada daquilo que a Igreja recebeu de Cristo e transmite sem mistura nem perda — o depósito da fé. O Catecismo é direto: os símbolos da fé são compêndios das verdades reveladas; entre eles, o Símbolo dos Apóstolos é “o antigo símbolo batismal da Igreja de Roma” e goza de autoridade singular (CIC 185–197, 194). Quando a Igreja recita — e não “inventa” — o Credo, ela guarda e oferece a chave da casa inteira: quem aprende a abri-la, entra em todos os cômodos da doutrina.
Muito antes de existir “manual de teologia”, os cristãos já tinham uma regra de fé, a regula fidei, mencionada pelos Padres como Santo Irineu e Tertuliano: um resumo fiel do que os Apóstolos anunciaram. O Credo dos Apóstolos nasce desse filão. Ele condensa, em doze artigos, o núcleo da Revelação tal como a Igreja sempre creu: Deus Uno e Trino, a Encarnação verdadeira, a Redenção, a Igreja una, santa, católica e apostólica, o perdão dos pecados, a ressurreição da carne e a vida eterna. Não é slogan devocional; é matriz doutrinal. Por isso o Catecismo organiza a sua Primeira Parte justamente como um grande comentário ao Credo — porque aprender a dizer o Credo é aprender a crer retamente (CIC 198ss).
O Credo é trinitário. Ele se articula em torno do Pai, do Filho e do Espírito Santo, e isso não é um detalhe editorial. A fé católica é, por essência, confissão do Deus Uno em Três Pessoas; a estrutura do Símbolo molda a mente e o coração segundo o próprio mistério que professamos (CIC 189–191). Cada artigo “encaixa” nesse eixo: “Creio em Deus Pai… em Jesus Cristo, seu único Filho, nosso Senhor… no Espírito Santo…”. O resultado? Ortodoxia praticada. A forma impede que o conteúdo se disperse. Fora dessa forma, proliferam as reduções morais, sociológicas ou sentimentalistas. Com ela, a fé mantém o nervo.
Historicamente, o Credo surge e amadurece na catequese batismal de Roma (séculos II–III). A prática antiga da traditio symboli e redditio symboli — a “entrega” do Símbolo aos catecúmenos e a sua “devolução” por eles, de cor, na Vigília Pascal — não era teatro: era escola de fidelidade. Quem descia às águas, professava publicamente o que a Igreja crê. Essa tradição permanece na disciplina atual: o Ritual da Iniciação Cristã de Adultos supõe a profissão de fé como parte integrante da recepção dos sacramentos. Em termos simples: sem o Credo, não há batismo católico; há, no máximo, um banho piedoso. A fé que justificará e santificará precisa ser professada, e não apenas sentida (cf. CIC 1253; cânn. 750–752 do CIC sobre o assentimento à doutrina).
Lex orandi, lex credendi: a lei da oração é a lei da fé (CIC 1124). A Igreja recita o Credo na Missa dominical, e o fiel o reza no início do Rosário. É providencial que o mesmo texto habite o altar e a sala de estar. Na Missa, ele funciona como antídoto contra leituras subjetivistas do Evangelho proclamado; no Rosário, como arame farpado contra sentimentalismos. Em ambos os lugares, o Credo imuniza: se eu professar com a Igreja, não me tornarei refém do meu humor religioso. E se crianças aprendem o Credo em casa, a casa inteira já respira ar católico — simples assim.
O Símbolo foi forjado na luta. Contra o docetismo: “nascido da Virgem Maria” e “padeceu sob Pôncio Pilatos” sublinham a historicidade e a carne de Cristo. Contra o arianismo: “Jesus Cristo, seu único Filho, nosso Senhor” afirma divindade e senhorio. Contra gnosticismos eternamente reciclados: “ressurreição da carne” corta a fantasia de que só “o espírito” importa. O Credo, portanto, não é neutro: é espada (Ef 6,17). A cada época, novas roupagens apresentam velhas negações: Cristo reduzido a coach, a Igreja transformada em ONG, o pecado diluído em “processos”. O remédio não muda: professar o que sempre se creu. Por isso Paulo VI — em 1968, quando tudo parecia escorrer pelos dedos — promulgou o Credo do Povo de Deus, reafirmando a mesma fé apostólica, sem pedir desculpas por ela. Foi um ato de paternidade doutrinária e um recado: a Igreja não negocia o essencial.
Primeiro, memória. O Credo é para decorar. Sim, decorar — palavra que hoje assusta, mas que forma caráter espiritual. A memória habitada por verdades salva a mente da névoa. Santo Agostinho catequizava assim: aprende, repete, guarda, vive. Segundo, linguagem. O Credo preserva termos que são diques: encarnação, redenção, pecado, graça, ressurreição. Troque “pecado” por “fragilidade” e, pronto, você ganhou um problema moral insolúvel. Troque “graça” por “energia” e você fica órfão da vida sobrenatural. O vocabulário do Credo protege o conteúdo da fé. Terceiro, unidade. Um católico no Brasil, outro na Nigéria e outro na Polônia, rezando o mesmo Símbolo, confessam a mesma fé. A uniformidade aqui é virtude, não vício: é catolicidade em ato (CIC 866–869).
Professar “Creio em Deus Pai todo-poderoso” combate, na prática, o desespero e o fatalismo: há Providência. Dizer “creio em Jesus Cristo, seu único Filho, nosso Senhor” fixa senhorio concreto sobre minhas escolhas — Ele não é consultor, é Senhor. Confessar “concebido pelo poder do Espírito Santo, nasceu da Virgem Maria” cura a alergia à Encarnação: Deus entrou na história; logo, a história importa. “Padeceu, foi crucificado, morreu e foi sepultado” educa para aceitar o real, inclusive a dor. “Ressuscitou ao terceiro dia” impede que a cruz vire culto à dor. “Creio no Espírito Santo” livra do pelagianismo disfarçado de produtividade infinita. “Creio na santa Igreja católica” impede o bricolope individualista da fé “do meu jeito”. “Creio na remissão dos pecados” dá nervo ao sacramento da Penitência. “Creio na ressurreição da carne e na vida eterna” orienta o cotidiano para a Pátria. Ou seja, o Credo não é só teologia; é mapa de vida.
Algumas práticas simples — e exigentes — mantêm o Credo operativo:
Para que o Credo preserve a fé católica, três critérios precisam caminhar juntos. Primeiro, adesão filial ao Magistério: o mesmo Espírito que inspirou a Revelação assiste a Igreja quando ela define e propõe a fé (DV 10). O Credo é norma próxima de ortodoxia; a Igreja é sua intérprete viva. Segundo, tradição viva: o Símbolo não é fóssil; ele respira na liturgia, na catequese, no direito canônico, na piedade popular. Terceiro, conversão moral: professar sem se converter vira cinismo. O Credo guarda a fé quando a fé, por sua vez, guarda a vida.
A Igreja não preserva a fé por teimosia, mas por fidelidade. O Credo dos Apóstolos é a forma breve dessa fidelidade — uma espécie de “DNA” que, intacto, gera católicos inteiros. Num mundo que relativiza tudo, repetir com a Igreja “Creio…” é ato contracultural, inteligente e humilde. Quem permanece no Símbolo permanece em Cristo; e quem permanece em Cristo, permanece na Igreja. Portanto, não terceirize a sua ortodoxia: aprenda, reze, ensine e viva o Credo. Ele é muralha que protege e janela que abre: guarda de heresias e, ao mesmo tempo, convite a pensar e amar mais alto. E, convenhamos, é justamente disso que precisamos agora.