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Crédito: Getty Images Plus/iStock/ Brenda Sangi Arruda
Num mundo que banaliza a figura paterna, reduzindo-a a um papel secundário ou opcional, a Igreja mantém firme a defesa da paternidade como vocação sagrada. Ser pai não é apenas um título civil ou uma função biológica: é participar, de modo real, no mistério eterno de Deus Pai, princípio e fonte de toda vida.
Celebrar o Dia dos Pais, portanto, vai muito além de presentes e cartões. É um ato de memória e gratidão por aqueles que aceitaram a missão de gerar, proteger e educar, e também um chamado à conversão para os que, por fraqueza ou pecado, se afastaram dessa responsabilidade. “Por esta causa dobro os meus joelhos diante do Pai, do qual toda a paternidade nos céus e na terra toma o nome” (Ef 3,14-15). Aqui, São Paulo revela que toda paternidade humana nasce da divina — e que, por isso, é digna de honra.
O Dia dos Pais, no formato atual, é recente. Surgiu oficialmente no início do século XX, nos Estados Unidos, por iniciativa de Sonora Smart Dodd, que quis homenagear seu pai, um veterano de guerra que, viúvo, criou sozinho seis filhos. No Brasil, a comemoração começou na década de 1950, sendo associada ao mês de agosto para coincidir com a festa litúrgica de São Joaquim, pai da Virgem Maria.
Mas a essência de honrar os pais é tão antiga quanto a própria fé. Está inscrita no quarto mandamento: “Honra teu pai e tua mãe” (Êx 20,12). O Catecismo recorda que essa honra é inseparável da gratidão: “O respeito pelos pais (piedade filial) é feito de gratidão para com aqueles que, pelo dom da vida, pelo seu amor e pelo seu trabalho, nos trouxeram ao mundo e nos ajudaram a crescer” (CIC 2215). Assim, a data civil só encontra pleno sentido quando é iluminada pela luz da fé.
A paternidade é mais que uma função cultural: é uma participação real no amor criador de Deus. O pai é chamado não apenas a gerar, mas a sustentar e guiar, a proteger e corrigir, a conduzir à vida eterna.
São João Paulo II, na Familiaris Consortio (n. 25), ensina: “No seu amor e na sua solicitude pela esposa e pelos filhos, o pai é chamado a ser imagem viva e transparente de Deus Pai.” Isso significa que um pai, mesmo em suas limitações humanas, é um ícone do próprio Criador para seus filhos. Daí o peso da sua missão: quando falha, obscurece essa imagem; quando é fiel, torna palpável a presença de Deus no lar.
São José é o grande paradigma. Sua paternidade, não biológica, mas real e sacrificial, prova que a essência de ser pai está na entrega, não no DNA. Ele foi guardião do Redentor, protetor da Virgem e sustentáculo da Sagrada Família.
Nos tempos modernos, São Luís Martin, pai de Santa Teresinha, viveu a paternidade com a mesma radicalidade evangélica. Ele e sua esposa, Santa Zélia, fizeram de sua casa um santuário doméstico. Luís não apenas provia o sustento material, mas era presença orante, exemplo de virtude e mestre de fé. Sua vida demonstra que santidade e vida familiar não se excluem, mas se fecundam mutuamente.
Hoje, a ausência paterna se tornou um fenômeno global. Milhões de crianças crescem sem pai ou com pais que, embora presentes fisicamente, estão ausentes no coração e no espírito. A educação é terceirizada para escolas, mídias e plataformas digitais.
Bento XVI alertou em 2012: “Talvez hoje nos tenhamos tornado órfãos de pai, e esta ausência paterna na história de muitas sociedades e culturas se torna também ausência de Deus.” Quando a figura paterna desaparece, a compreensão da paternidade divina se torna turva, e a fé, mais frágil. A consequência é visível: famílias desestruturadas, jovens inseguros e uma sociedade que perde referências morais.
Ser pai hoje exige coragem contracorrente. Não basta “não abandonar”: é preciso estar presente de forma ativa, amorosa e firme. É necessário ensinar a rezar, corrigir sem humilhar, dar exemplo de trabalho honesto e de fé vivida.
O Compêndio da Doutrina Social da Igreja lembra: “A família é a célula vital da sociedade” (n. 211), e essa vitalidade depende, em grande parte, da liderança moral e espiritual do pai. Pais que assumem seu papel como primeiros catequistas dos filhos semeiam não só bons cidadãos, mas santos.
O Dia dos Pais, visto pela fé, não é uma formalidade social, mas um lembrete poderoso de que a paternidade é obra de Deus. Honrar os pais é cumprir um mandamento divino, é fortalecer famílias, é restaurar a saúde espiritual da sociedade.
Se o mundo precisa de bons pais, é porque precisa reencontrar-se com Deus Pai. Que neste dia não nos limitemos a celebrar, mas a rezar: pelos pais vivos, para que sejam fiéis à sua missão; pelos falecidos, para que recebam a recompensa eterna.
E que cada lar cristão possa dizer, com a sinceridade que nasce do testemunho vivido: “Pai, ao te honrar, aprendo a amar Aquele que é Pai de todos.” Que São José, patrono da Igreja universal, interceda por todos os pais e faça florescer, em cada família, o reflexo luminoso do amor do próprio Deus.