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Crédito: Getty Images
Quando se fala em exorcismo, a imaginação popular logo é sequestrada por cenas cinematográficas de padres enfrentando demônios entre urros e levitações. Mas a realidade é muito mais sóbria — e mais assustadora justamente por ser real. Sim, o Vaticano tem seu exorcista oficial. E sim, o Papa também pode requisitar um. E mais: alguns papas, como São João Paulo II, de fato realizaram exorcismos.
Este artigo vai destrinchar essa questão sob a luz da doutrina católica, da tradição e de documentos oficiais da Igreja. Prepare-se para um mergulho no lado mais oculto (e necessário) da missão pastoral da Igreja.
O exorcismo é uma prática antiga da Igreja, com raízes nos próprios Evangelhos. Nosso Senhor Jesus Cristo, durante sua vida pública, expulsou demônios inúmeras vezes (Mc 1,25-26; Lc 4,35; Mt 8,16). Os Apóstolos continuaram esse ministério, e a Igreja perpetuou esse poder ao longo dos séculos.
O Catecismo da Igreja Católica (CIC) afirma:
“Quando a Igreja pede publicamente e com autoridade, em nome de Jesus Cristo, que uma pessoa ou objeto seja protegido contra a ação do maligno e subtraído ao seu domínio, fala-se de exorcismo.”
(CIC, §1673)
Há dois tipos de exorcismo:
Esse rito é regulado pelo documento “De Exorcismis et Supplicationibus Quibusdam”, promulgado em 1998 pela Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos. Ele substituiu o antigo rito de 1614, embora muitos exorcistas ainda prefiram a forma tradicional.
O Vaticano conta com um ou mais exorcistas oficialmente nomeados. Um dos mais conhecidos foi o Padre Gabriele Amorth, exorcista da Diocese de Roma por mais de 30 anos. Em entrevistas e livros, Amorth relatava que combatia o demônio diariamente — e sem medo de críticas ou ironias.
Amorth confirmou publicamente que João Paulo II realizou um exorcismo em 1982, algo confirmado anos depois por fontes do próprio Vaticano.
O caso aconteceu no dia 4 de abril de 1982. Uma jovem possuída foi levada até a Praça de São Pedro. O exorcista local não conseguiu expulsar o demônio, e o caso foi encaminhado ao Papa.
João Paulo II a recebeu em audiência privada. Durante a bênção papal, a jovem entrou em transe violento. O Papa, então, realizou orações de exorcismo e ordenou que o espírito maligno a deixasse em nome de Jesus Cristo. O demônio resistiu, mas, segundo relatos da época, foi expulso mais tarde após novo exorcismo, com a intervenção direta de João Paulo II novamente.
Segundo o exorcista Padre Amorth, o próprio diabo teria dito:
“Nem o Papa consegue me expulsar” — ao que João Paulo II respondeu com firmeza e oração.
Esse caso é emblemático porque demonstra que o Papa, como sucessor de Pedro e Vigário de Cristo, possui autoridade espiritual real e concreta sobre os espíritos malignos — embora normalmente delegue essa função a exorcistas nomeados.
Tecnicamente, sim e não.
É importante lembrar: todo exorcista age em nome da autoridade da Igreja. E a autoridade suprema da Igreja, visivelmente, é o Papa.
A figura do Papa tem um papel espiritual de guardião da ortodoxia e defensor da fé. Ele é também, segundo a visão tradicional da Igreja, “o Katechon”, o que “retém o mistério da iniquidade” (cf. 2Ts 2,6-7). Muitos Padres da Igreja identificaram essa missão escatológica com o ofício petrino: o Papa como barreira contra o avanço do Anticristo e do caos moral.
Nesse sentido, a autoridade de um Papa sobre o mundo espiritual não é simbólica. É real. O próprio São Leão Magno, Papa no século V, dizia:
“Pedro fala pela boca do Papa.”
E Pedro, sabemos, recebeu as chaves do Reino e o poder de “ligar e desligar” céus e terra (Mt 16,19).
Sim, o Papa pode realizar exorcismos. Sim, ele pode requisitar o exorcista oficial do Vaticano. Mas, mais importante: o Papa tem a obrigação de proteger a Igreja do mal, não apenas através de orações e exorcismos, mas por meio da defesa da doutrina, da moral, da liturgia e da tradição.
Como bem disse Bento XVI:
“O verdadeiro exorcismo é viver na graça de Deus.”
E essa é, talvez, a mais poderosa arma de qualquer Papa contra o demônio.