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Crédito: Reprodução da Internet
Ao longo dos séculos, as missões católicas tiveram uma contribuição fundamental na preservação, sistematização e alfabetização de diversas línguas indígenas, tanto nas Américas quanto na África. Longe de serem apenas um instrumento de colonização, a missão da Igreja sempre foi, acima de tudo, levar a Verdade do Evangelho a todos os povos, respeitando as características culturais de cada nação, como ensina a própria Tradição da Igreja e como reforçado pelos documentos magisteriais ao longo dos séculos.
Desde as palavras de Nosso Senhor Jesus Cristo — “Ide, pois, e ensinai todas as nações” (Mt 28,19) — a Igreja entendeu sua missão como universal e, portanto, adaptável às realidades culturais e linguísticas dos povos. A bula “Sublimis Deus”, promulgada pelo Papa Paulo III em 1537, é um marco incontornável. Nela, o Pontífice declara que os povos indígenas das Américas são verdadeiros seres humanos, dotados de razão e, portanto, capazes de receber a fé. A partir desse reconhecimento, tornou-se evidente que a transmissão da doutrina deveria se fazer de modo compreensível aos destinatários.
Essa preocupação doutrinal se desdobraria nos séculos seguintes numa prática missionária linguística de proporções inéditas.
Logo após a chegada dos missionários ao Novo Mundo, especialmente franciscanos, dominicanos e jesuítas, iniciou-se um trabalho incansável de aprendizado das línguas locais. Os religiosos não se limitaram a aprender de forma rudimentar; eles buscaram estruturar gramaticalmente esses idiomas, criando, pela primeira vez na história, formas escritas para muitas dessas línguas.
No México, por exemplo, o franciscano Bernardino de Sahagún tornou-se um verdadeiro etnógrafo e linguista, ao compilar o “Códice Florentino”, um registro detalhado da cultura e da língua náuatle, usado para a catequese e para a formação dos futuros evangelizadores indígenas.
Outro marco foi o Colegio de Santa Cruz de Tlatelolco, fundado em 1536, primeira instituição de ensino superior para indígenas na América. Lá, jovens nativos eram formados para atuar como tradutores, catequistas e professores de sua própria gente.
No Paraguai, os jesuítas foram além: nas célebres Reduções Guaranis, criaram gramáticas, dicionários, catecismos e manuais litúrgicos em guarani, incentivando o uso da língua nativa inclusive nas celebrações. Este esforço foi tão eficaz que até hoje o guarani permanece como uma das línguas oficiais do Paraguai, um feito diretamente ligado à ação missionária católica.
Na Flórida, o franciscano Francisco Pareja publicou em 1612 o primeiro livro bilíngue da América do Norte, um catecismo em espanhol e timucua, língua de um povo que hoje não existe mais, mas cuja memória linguística foi preservada graças a essa obra.
Já no século XIX, com a intensificação das missões na África, especialmente após o Concílio de Propaganda Fide, a Igreja lançou esforços para estudar e alfabetizar os povos africanos em suas próprias línguas.
Missionários como os espiritanos, franciscanos e outros institutos missionários se dedicaram a aprender línguas bantu, suaíli, igbo, lingala e muitas outras. Mais uma vez, foi a Igreja quem produziu os primeiros dicionários, gramáticas e traduções de textos sagrados nesses idiomas.
Muitos desses missionários, além da evangelização, tornaram-se referências linguísticas e culturais, sendo os únicos responsáveis por deixar registros escritos de línguas que até então eram apenas orais.
O princípio básico seguido pelas missões era simples: para alcançar os corações, é preciso falar a língua do povo. E mais do que isso, era necessário ensinar o povo a ler e a escrever nessa mesma língua.
Com isso, a alfabetização se tornou um meio e um fim: era o meio para transmitir a doutrina, mas também um fim, porque permitia aos povos indígenas e africanos acesso a textos religiosos, orações e à própria Sagrada Escritura, quando traduzida ou parcialmente apresentada em suas línguas.
O Magistério da Igreja sempre sustentou que a evangelização deve respeitar a cultura e a identidade dos povos, como reafirmado pelo Concílio Vaticano II, no decreto Ad Gentes, que ressalta a importância de anunciar o Evangelho de maneira que ele se integre de forma verdadeira e respeitosa às culturas locais.
Hoje, muitas das línguas indígenas e africanas que possuem registros escritos devem essa preservação aos missionários católicos. Obras como catecismos, gramáticas, livros de orações e até os primeiros registros históricos dessas culturas só existem graças ao trabalho paciente, meticuloso e profundamente pastoral desses religiosos.
O caso do guarani no Paraguai, do quíchua nos Andes, do náuatle no México, do timucua na Flórida e de inúmeras línguas africanas como o lingala, o kimbundu e o kikongo são apenas alguns exemplos de como a ação evangelizadora da Igreja sempre esteve lado a lado com a valorização da dignidade humana, expressa na linguagem de cada povo.
As missões católicas foram, acima de tudo, um testemunho vivo de que o anúncio da Verdade de Cristo pode e deve dialogar com a realidade linguística e cultural de cada nação. Ao criar alfabetização nas línguas indígenas, a Igreja não apenas transmitiu a fé, mas deixou um patrimônio inestimável para a história da humanidade.
Se hoje estudiosos podem conhecer, ler e pesquisar línguas que estavam condenadas ao esquecimento, muito se deve à ação daqueles missionários que, movidos por amor a Deus e zelo pelas almas, dedicaram suas vidas a aprender, ensinar e preservar o que havia de mais precioso para aqueles povos: sua língua, sua identidade e, por fim, sua salvação.