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Crédito: Reprodução da Internet
Poucas palavras provocam tanto fascínio e mistério no coração dos fiéis quanto transubstanciação. Para muitos, soa como um termo complicado da teologia escolástica. Para a Igreja, porém, é o modo preciso de descrever o maior milagre que acontece todos os dias nos altares do mundo: a conversão do pão e do vinho no Corpo e Sangue de Cristo na Santa Missa. Não se trata de símbolo, metáfora ou expressão poética, mas de uma realidade ontológica sustentada pelo Magistério, pelos Concílios e pela Tradição da Igreja Católica Apostólica Romana.
A palavra transubstanciação entrou no vocabulário eclesiástico para expressar, de maneira técnica e rigorosa, a doutrina que a Igreja sempre creu desde os Apóstolos. O termo aparece oficialmente no Concílio de Latrão IV (1215), que declara:
“O Corpo e o Sangue de Cristo estão verdadeiramente contidos no Sacramento do altar sob as espécies de pão e de vinho, depois de realizada a transubstanciação do pão no Corpo e do vinho no Sangue, pelo poder divino.” (DS 802)
Ou seja: já havia a fé na Presença Real de Cristo, mas a filosofia escolástica — especialmente São Tomás de Aquino — ajudou a formular em termos mais precisos como se dá essa mudança.
E por que a Igreja precisou explicar isso tão detalhadamente? Porque hereges como Berengário de Tours (séc. XI) e, depois, os reformadores protestantes, começaram a negar a presença real de Cristo na Eucaristia, propondo que tudo seria apenas sinal ou figura. A defesa da fé exigiu uma linguagem clara, para não deixar dúvida de que a Missa não é só memória simbólica, mas atualização real do sacrifício do Calvário.
Aqui começa o calo de muita gente: substância e acidentes. Não, não estamos falando de acidentes de trânsito.
Substância, na filosofia aristotélico-tomista, é aquilo que faz uma coisa ser o que é. É a realidade essencial, invisível aos sentidos. Já os acidentes são as características sensíveis (cor, sabor, peso, forma, cheiro) que percebemos externamente.
Na transubstanciação:
Logo, depois da Consagração, não existe mais pão nem vinho no altar, mesmo que tudo pareça exatamente igual. O que está ali é Jesus Cristo inteiro — Corpo, Sangue, Alma e Divindade. Esse mistério é o coração da fé católica.
São Tomás de Aquino explica:
“Não há conversão meramente acidental, mas substancial, de modo que a substância do pão se converte no Corpo de Cristo, e a do vinho no Sangue de Cristo. E essa conversão é denominada convenientemente transubstanciação.” (S.Th. III, q.75, a.4)
A transubstanciação não acontece isoladamente. Ela está profundamente ligada ao sacrifício redentor de Cristo. O Concílio de Trento define:
“No santo sacrifício da Missa, se oferece a Deus o mesmo Cristo que uma vez se ofereceu a Si mesmo no altar da cruz, somente difere o modo de oferecer-se.” (DS 1743)
Portanto:
É o mesmo sacrifício. A transubstanciação possibilita que Cristo permaneça real e substancialmente presente para ser oferecido ao Pai, renovando misticamente o Calvário e distribuindo aos fiéis os frutos da Redenção.
Sem transubstanciação, não há Missa. Sem Missa, não há Calvário tornado presente. É por isso que a Igreja defende essa doutrina com unhas e dentes.
Muita gente hoje, até dentro da Igreja, acha que a Eucaristia é “só um símbolo”. Ledo engano — e gravíssimo.
O Catecismo da Igreja Católica é taxativo:
“No Santíssimo Sacramento da Eucaristia estão ‘contidos verdadeira, real e substancialmente o Corpo e o Sangue, a Alma e a Divindade de Nosso Senhor Jesus Cristo, e, por conseguinte, o Cristo inteiro’.” (CIC 1374)
Ou seja, não é só sinal, não é só lembrança. É o Cristo vivo, inteiro, ali presente. São João Paulo II foi claríssimo na Encíclica Ecclesia de Eucharistia:
“A Igreja vive da Eucaristia. […] Nela está contido todo o bem espiritual da Igreja, isto é, o próprio Cristo, nossa Páscoa.” (Ecclesia de Eucharistia, n.1)
Quem recebe a Eucaristia com fé, recebe o próprio Cristo. Quem a adora no sacrário, está diante de Jesus, verdadeiramente presente.
Deus, às vezes, permite milagres eucarísticos para fortalecer a fé. O mais célebre é o de Lanciano, no século VIII, em que o pão consagrado se transformou em carne viva, e o vinho em sangue.
Análises científicas modernas (1970) confirmaram tratar-se de tecido humano do coração (músculo estriado do miocárdio) e sangue humano tipo AB. Não há explicação natural. Deus parece ter deixado “provas materiais” para uma fé cada vez mais cética.
Embora a fé não dependa desses milagres, eles servem de sinal poderoso para quem duvida da transubstanciação.
Somente um sacerdote ordenado validamente pode realizar a Consagração. O momento exato da transubstanciação é nas palavras pronunciadas pelo padre:
“Isto é o meu Corpo… Este é o cálice do meu Sangue…”
Não é apenas narração, mas ação eficaz: é Cristo quem fala pela boca do sacerdote, realizando o milagre. São João Crisóstomo dizia:
“Não é o homem quem faz que as coisas oferecidas se tornem Corpo e Sangue de Cristo, mas o próprio Cristo que foi crucificado por nós.”
Por isso, a Missa é ação de Cristo e da Igreja, e não mero ato comunitário humano.
Negar a transubstanciação é romper com a fé católica. O Concílio de Trento declarou anátema (excomunhão) para quem dissesse que Cristo não está real e substancialmente presente na Eucaristia (DS 1651).
Sem a fé na transubstanciação:
São Tomás de Aquino não hesitou em escrever no famoso hino Adoro Te Devote:
“Na Cruz se ocultava só a tua divindade, mas aqui também se oculta a tua humanidade.”
A Eucaristia não é opcional para a fé católica. É o coração pulsante da Igreja.
No mundo de hoje, onde tudo é relativizado, a doutrina da transubstanciação nos obriga a uma pergunta dura: Eu creio realmente que, após a Consagração, Jesus está ali presente?
Se sim, a nossa atitude diante da Missa e do Santíssimo Sacramento deveria ser de:
Sem fé na transubstanciação, a fé católica se esvazia. Com ela, temos o Céu já aqui na terra.
Transubstanciação não é apenas teologia acadêmica. É o milagre escondido que mantém viva a Igreja há dois mil anos. É o sinal de que Cristo não nos abandonou. É alimento de imortalidade. Quem não entende a transubstanciação, não entende o cristianismo católico em sua essência.
Que São Tomás de Aquino nos ajude a amar e adorar esse mistério com fé firme. E que, como dizia Santo Agostinho:
“Vê-lo-ás, mas não agora. Crê, porque ainda não o vês; e, crendo, tornar-te-ás digno de vê-lo.”