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Crédito: Reprodução da Internet
Giuseppe Desa nasceu em 17 de junho de 1603, em Cupertino, na região da Apúlia, Itália. Desde o início, sua vida foi marcada pela cruz: o pai faleceu pouco antes de seu nascimento, deixando a família em penúria. Sua mãe, grávida e desamparada, deu à luz em condições de extrema precariedade. Esse início difícil, longe de ser um detalhe irrelevante, é interpretado pela tradição católica como sinal providencial: Deus costuma escolher instrumentos frágeis para manifestar sua força, como São Paulo ensina — “quando sou fraco, então é que sou forte” (2Cor 12,10).
O menino cresceu envolto em dificuldades. Era visto como distraído, pouco dotado para os estudos e até motivo de escárnio. O que parecia uma deficiência, porém, seria transformado pela graça em caminho de humildade e abandono total a Deus.
Na juventude, José tentou ingressar nos capuchinhos, mas sua pouca habilidade intelectual levou-o a ser dispensado. A rejeição não o fez desistir: buscou os frades franciscanos conventuais, que o acolheram primeiramente como oblato, encarregado de serviços humildes no convento. Ali começou a exercitar a virtude da obediência e o amor pelo escondimento, duas colunas da vida religiosa.
O caminho ao sacerdócio parecia impossível. Contudo, por disposição misteriosa da Providência, foi admitido aos estudos e, após muitas lutas, ordenado sacerdote em 1628. Sua dificuldade de memória e compreensão, paradoxalmente, fez dele um pregador simples, que falava direto ao coração dos fiéis.
O episódio que mais o tornou conhecido foram os êxtases místicos. Durante a celebração da Santa Missa ou na oração, José era arrebatado de tal maneira que chegava a perder contato com a realidade ao redor. Testemunhas atestaram que, em várias ocasiões, ele se elevava do chão diante de todos. Não se tratava de espetáculo circense, mas de manifestação da ação sobrenatural de Deus.
A Igreja, prudente, jamais canoniza um santo apenas por fenômenos extraordinários. Mas, diante da abundância de testemunhos e da reputação de santidade que o acompanhava, foi possível discernir que esses fenômenos não eram engano nem fraude, mas sinais que Deus permitia como expressão da sua presença.
As manifestações místicas, no entanto, trouxeram-lhe também sofrimentos. Muitos o viam como excêntrico ou causador de tumulto. Para evitar curiosidades excessivas, os superiores chegaram a proibir que ele celebrasse em público. Passou anos vivendo praticamente recluso, em obediência, sem revolta, oferecendo tudo a Cristo. Esse detalhe mostra que sua santidade não consistiu nas levitações, mas na paciência e na humildade diante da humilhação e do isolamento.
São José de Cupertino é um exemplo daquilo que Santa Teresinha do Menino Jesus chamaria de “pequena via”: aceitar ser pequeno para que Deus seja grande. Sua vida demonstra que a santidade não exige dons intelectuais brilhantes, mas coração dócil. Como dizia Santo Tomás de Aquino, “é melhor brilhar pela caridade do que pelo intelecto”. O frade analfabeto e distraído, mas cheio de amor, converteu multidões pela sua simplicidade.
A oração era o centro de tudo. Viveu com austeridade franciscana, sempre unido a Cristo Eucarístico. Quem convivia com ele notava um coração inflamado de amor divino, e é nesse amor, não nos fenômenos extraordinários, que se encontra o núcleo de sua santidade.
José faleceu em 18 de setembro de 1663, em Osimo. Logo começaram a surgir peregrinações ao seu túmulo. Após rigoroso processo, Bento XIV o beatificou em 1753, e Clemente XIII o canonizou em 1767. A Igreja, ao proclamar sua santidade, não canonizou os “voos”, mas a heroicidade das virtudes que ele viveu: humildade, obediência, penitência, amor a Deus.
O Catecismo da Igreja Católica (n. 67) recorda que fenômenos extraordinários, como visões e êxtases, são “revelações privadas” que podem ajudar a fé, mas não a completam. Portanto, os milagres de José de Cupertino não acrescentam nada ao depósito da Revelação, mas apontam para o essencial: a vida em Cristo.
Em 2024, o Dicastério para a Doutrina da Fé publicou novas normas para discernimento desses fenômenos, reafirmando que a prudência pastoral deve ser sempre prioridade. O caso de José de Cupertino mostra como a Igreja sabe distinguir entre espetáculo e autêntica experiência mística.
Curiosamente, São José de Cupertino é invocado como padroeiro dos estudantes, sobretudo na época de exames. Isso se deve ao episódio em que, ao ser interrogado por seus examinadores, só lhe foi feita uma pergunta sobre um tema que sabia — e foi aprovado. Assim, tornou-se intercessor daqueles que enfrentam provas. Além disso, por suas levitações, é também patrono de aviadores e viajantes aéreos, um vínculo simbólico, mas carregado de significado espiritual.
No mundo atual, em que se valoriza apenas eficiência, sucesso e inteligência, a vida de São José de Cupertino soa como provocação. Deus escolheu um homem desprezado, frágil, considerado “pouco capaz”, para manifestar sua glória. Ele nos lembra que a santidade não é privilégio dos fortes ou cultos, mas dom para todos que confiam inteiramente em Deus.
Sua mensagem é clara: mais importante que “voar” diante dos homens é manter os pés firmes na humildade diante de Deus. Seu exemplo convida a viver a obediência, a simplicidade e a confiança total na Providência.
São José de Cupertino ensina que a verdadeira elevação não vem da força humana, mas do Espírito Santo. Foi um frade pobre, ignorado, perseguido — e, exatamente por isso, instrumento escolhido para mostrar que Deus realiza maravilhas naquilo que o mundo despreza. Sua vida continua a ecoar o Evangelho: “Deus escolheu o que é fraco no mundo para confundir os fortes” (1Cor 1,27).
Que sua intercessão nos ensine a abraçar nossa pequenez com confiança e a buscar a verdadeira santidade, que consiste em amar a Deus sobre todas as coisas.