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Crédito: Reprodução da Internet
A cruz não começou como ornamento de altar ou sinal pintado nas paredes. Para os contemporâneos de Cristo, ela era instrumento de suplício, símbolo de humilhação e vergonha. Os romanos a reservavam para os piores criminosos, e justamente por isso a escolha de Deus em salvar o mundo pela cruz foi escandalosa. Aos olhos humanos, era a derrota; para os olhos da fé, a vitória. É nesse paradoxo que se encontra a chave para entender como os primeiros cristãos viram e viveram a cruz.
São Paulo foi o primeiro a expor, sem disfarces, a estranheza do caminho escolhido por Cristo: “nós pregamos Cristo crucificado, escândalo para os judeus e loucura para os gentios” (1Cor 1,23). O apóstolo não tentou suavizar o impacto da cruz. Pelo contrário, fez dela o núcleo do anúncio, afirmando que “longe esteja de mim gloriar-me, a não ser na cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo” (Gl 6,14).
O escândalo da cruz era duplo: para o judeu, um Messias crucificado parecia blasfêmia; para o romano, um Deus vencido no patíbulo era absurdo. Ainda assim, os cristãos assumiram desde cedo que não havia Evangelho sem cruz. Era a marca de autenticidade da fé, a prova de que a salvação não era obra de conquista humana, mas graça divina.
Nos dois primeiros séculos, os cristãos viveram sob constante desconfiança e perseguição. Ser identificado como discípulo do Crucificado podia custar a vida. Não surpreende que, nesse contexto, os símbolos usados fossem discretos: o peixe, a âncora, o bom pastor. A cruz, ainda carregada de conotação de ignomínia, demorou a aparecer abertamente.
Isso não significa ausência de devoção. Já no século II surgem os primeiros traços do staurograma (as letras gregas tau e rho sobrepostas), usado nos manuscritos bíblicos como abreviação para a cruz de Cristo. Era uma maneira de confessar a fé sem expor abertamente o sinal do suplício. O mesmo se dava com o gesto de traçar o sinal da cruz: Tertuliano testemunha, no início do século III, que os fiéis marcavam a testa com a cruz ao sair de casa, ao iniciar qualquer ação, ao rezar. Era um hábito tão difundido que ele descreve: “Às vezes, sem que ninguém nos obrigue, fazemos o sinal da cruz em toda ocasião”.
Se por um lado a cruz era sinal íntimo, por outro lado atraía desprezo. O célebre grafite do Palatino, em Roma, mostra um homem adorando uma figura crucificada com cabeça de asno, acompanhado da inscrição: “Alexamenos adora o seu deus”. Esse deboche revela como os pagãos viam a fé cristã: ridícula, centrada em um crucificado. Mas para os cristãos, essa zombaria não era motivo de recuo, mas confirmação de que estavam seguindo a Cristo que “se fez obediente até a morte, e morte de cruz” (Fl 2,8).
Aqui se vê um ponto decisivo: a cruz não era apenas um objeto de devoção, mas também de identificação. Ser cristão significava aceitar a possibilidade do martírio, compartilhar a sorte do Mestre. O testemunho dos mártires foi talvez o maior “ícone vivo” da cruz nos primeiros séculos.
Os Padres da Igreja ajudaram a decifrar o sentido profundo da cruz. São Justino e Santo Irineu já viam nela a recapitulação da história humana: o madeiro que fora sinal da queda (a árvore do Éden) tornou-se, pela obediência de Cristo, instrumento da salvação. A cruz não era um acidente trágico, mas parte do plano eterno de Deus.
Santo Irineu escreve que Cristo “recapitulou todas as coisas em si”, vencendo onde Adão caiu. Para ele, a cruz não apenas redime o homem, mas restitui à criação sua ordem. Mais tarde, outros Padres, como São João Crisóstomo, insistiram que a cruz é “trono de glória”, porque nela Cristo reina não pela força, mas pelo amor que se entrega.
Com a conversão de Constantino e a liberdade dada à Igreja, a cruz pôde sair das catacumbas e tornar-se sinal público. Foi erguida nas basílicas, venerada nas procissões e exaltada nas festas litúrgicas, como a da Exaltação da Santa Cruz, celebrada desde o século IV em Jerusalém.
A mudança não foi apenas política. O culto público à cruz selou uma evolução espiritual que já vinha desde os tempos apostólicos: o sinal de morte havia se tornado sinal de vida. A liturgia passou a celebrar a cruz não como lembrança macabra, mas como “árvore da vida”, novo paraíso onde Cristo nos devolveu a comunhão com o Pai.
Desde o início, os cristãos não viram a cruz isolada, mas ligada à Eucaristia. O sacrifício do Calvário é tornado presente sacramentalmente na Missa. Como ensina o Concílio de Trento, “é um e o mesmo sacrifício: o mesmo Cristo que se ofereceu uma vez de modo sangrento sobre o altar da cruz oferece-se agora de modo incruento sobre os altares da Igreja”.
Essa consciência já aparece em São Paulo, que une cruz e ceia do Senhor (1Cor 10–11). Para os cristãos primitivos, participar da Eucaristia era colocar-se debaixo da cruz, receber em si os frutos da Redenção e aprender a viver no mundo como quem foi comprado por alto preço.
Por fim, não se pode esquecer que a cruz, para os primeiros cristãos, não era apenas objeto de culto, mas programa de vida. Cristo havia dito: “Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me” (Mt 16,24).
A comunidade cristã tomou esse chamado ao pé da letra. Assumir a cruz significava aceitar perseguições, perder privilégios, renunciar a comodidades. Era o modo de configurar a vida à do Senhor. Por isso, quando os mártires se entregavam à morte, não eram vistos como derrotados, mas como participantes da vitória do Cordeiro.
A cruz passou por uma metamorfose única: de instrumento de tortura, tornou-se brasão de glória; de sinal de humilhação, transformou-se em estandarte de vitória. Os primeiros cristãos, sustentados pela pregação apostólica, pela coragem dos mártires e pela reflexão dos Padres, ensinaram à Igreja de todos os tempos a não temer a cruz, mas a reconhecê-la como “árvore bendita, única digna de trazer ao mundo um Rei tão santo”, como canta a liturgia.
No fundo, a história da cruz entre os cristãos primitivos é a história da própria fé cristã: uma fé que não foge do sofrimento, mas o transforma; que não mascara o escândalo, mas o assume; que não enfeita a cruz, mas nela encontra o poder e a sabedoria de Deus.