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Crédito: Reprodução da Internet
O Sudário de Turim é uma das relíquias mais enigmáticas e comoventes da cristandade. Guardado na Catedral de São João Batista, em Turim, o tecido de linho traz a impressão frontal e dorsal de um homem crucificado, com marcas de flagelação, feridas nas mãos, nos pés e na cabeça, além de um ferimento no lado direito do tórax. A Igreja Católica não o declara oficialmente como o lençol que envolveu o Corpo de Cristo após a Crucificação, mas reconhece sua importância espiritual e cultural. É um objeto de veneração, não de definição dogmática.
Para o fiel católico, ele não é uma “prova” da Ressurreição, mas um sinal silencioso que remete ao sofrimento redentor de Cristo. A prudência e a reverência com que a Igreja o trata mostram a sabedoria de um magistério que distingue fé de curiosidade científica — sem, contudo, desvalorizar a busca sincera pela verdade.
Os primeiros registros confiáveis do Sudário surgem no século XIV, em Lirey, na França, onde cavaleiros cruzados afirmavam possuir uma relíquia do Santo Lençol. Depois, ele passa pelas mãos dos duques de Saboia e, em 1578, é levado para Turim, onde permanece até hoje.
Há lacunas anteriores a esse período. Alguns estudiosos tentam relacioná-lo ao “Mandylion” de Edessa — um ícone do rosto de Cristo venerado no Oriente —, mas essa ligação é hipotética. A ausência de documentação contínua, contudo, não anula o fato de que o Sudário carrega marcas físicas e simbólicas que escapam a uma simples explicação artística.
A figura impressa no tecido não é pintura, gravura nem decalque. Exames modernos mostram que a imagem está superficialmente “queimada” nas fibras externas do linho, sem penetração de pigmentos, e que forma uma impressão com propriedades fotográficas — algo inexplicável para qualquer técnica conhecida na Idade Média.
O grupo científico STURP (Shroud of Turin Research Project), que o analisou em 1978, concluiu que não havia pigmentos, tintas ou corantes aplicados de modo artístico. Detectou também traços de hemoglobina humana nas áreas que correspondem às feridas. Ainda assim, o modo como a imagem se formou permanece misterioso. Nem ciência, nem arte, nem fraude medieval: o Sudário resiste a todas as categorias fáceis.
Em 1988, testes de datação por carbono-14 indicaram que o tecido seria medieval, datado entre os séculos XIII e XIV. O resultado foi recebido como um golpe de autoridade científica, mas logo vieram as contestações.
Estudos posteriores mostraram que a amostra usada para o teste fora retirada de uma área do pano que sofrera reparos após um incêndio no século XVI. Esses remendos poderiam ter contaminado o material, alterando a datação. Além disso, o tecido foi exposto à fumaça, ao calor e à manipulação constante durante séculos — tudo isso interfere nas leituras de carbono-14.
A Igreja, com prudência, não interveio no debate técnico. Respeitou a autonomia da ciência, mas manteve o olhar contemplativo: o valor do Sudário não depende de laboratórios, mas do que ele desperta no coração do homem diante do mistério do sofrimento e da salvação.
Em 1998, São João Paulo II visitou Turim e deixou um ensinamento que se tornou referência: “O Sudário é um desafio à inteligência e um espelho do Evangelho.” Ele reafirmou que a Igreja não possui competência para declarar a autenticidade histórica do tecido, mas encorajou a contemplação espiritual que dele brota.
O Papa Bento XVI, durante sua peregrinação a Turim em 2010, chamou o Sudário de “ícone do Sábado Santo”, expressão teológica riquíssima. Ele quis dizer que, assim como o corpo de Cristo permaneceu no túmulo naquele dia de silêncio absoluto, o Sudário conserva a marca desse silêncio — um testemunho visível do amor que passa pela morte e vence na Ressurreição.
Independentemente da datação, o Sudário de Turim é um chamado à conversão e à contemplação. Ele traduz em imagem o que os Evangelhos narram em palavras: a Paixão de Cristo. As feridas, o rosto sereno apesar do suplício, o sangue, tudo aponta para a verdade central da fé: “Ele foi traspassado por nossas transgressões, e pelas suas chagas fomos curados” (Is 53,5).
A devoção ao Sudário, portanto, não é superstição. É uma forma legítima de piedade que leva o fiel a meditar o mistério da Redenção. Quando um católico ajoelha diante dele, não adora um pano, mas adora Aquele cuja imagem ali se reflete: o Cristo sofredor e glorioso.
O Sudário de Turim coloca lado a lado duas dimensões inseparáveis: a busca racional pela verdade e o olhar de fé que transcende os limites do método científico. A Igreja ensina que fé e razão não se opõem, mas se completam — como recorda a encíclica Fides et Ratio, também de João Paulo II. Assim, estudar o Sudário não é profanar o mistério, mas honrar o Deus que se fez homem e entrou na história concreta.
Se, um dia, a ciência demonstrar de modo irrefutável que o Sudário remonta ao primeiro século, isso confirmará o que a fé já sabia. Se, por outro lado, ele se revelar posterior, nada diminuirá o poder simbólico que nele se manifesta. A verdade do Evangelho não depende do tecido, mas o tecido pode nos conduzir à Verdade.
O Sudário é, em certo sentido, um retrato da própria Igreja: ferida, marcada pelo tempo, às vezes coberta por poeira e dúvidas, mas ainda portadora da imagem de Cristo. Cada geração é chamada a limpar esse tecido, a redescobrir nele o rosto de Deus e a anunciar ao mundo que a morte foi vencida, e o amor triunfou.
Enquanto existir o Sudário de Turim, ele continuará a inquietar cientistas, a inspirar artistas e a mover corações. E talvez esse seja o maior milagre: o de um pano silencioso que, sem dizer palavra, faz ecoar a mesma mensagem que ressoou no túmulo vazio naquela manhã de Páscoa — “Ele não está aqui, ressuscitou!”