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Crédito: Reprodução da Internet
“Jesus, clamando outra vez com grande voz, entregou o espírito. E eis que o véu do templo se rasgou em duas partes de alto a baixo; tremeu a terra, fenderam-se as rochas” (Mt 27,50-51).
Poucos acontecimentos na Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo carregam tanta força simbólica e espiritual quanto o rasgamento do véu do Templo. É um evento que ultrapassa o mero relato histórico e penetra profundamente na economia da salvação. Vamos entender, com o rigor da fé católica, a dimensão desse acontecimento.
O véu (em hebraico, parokhet) não era simples cortina, mas um imponente tecido que separava o Santo do Santos (Kodesh HaKodashim) do Lugar Santo no Templo de Jerusalém. As fontes judaicas antigas, especialmente o Talmud (Tractate Yoma 54a), mencionam que o véu:
Flávio Josefo, historiador judeu do século I, em “Antiguidades Judaicas” (Livro 15, cap. 11, §3), confirma que o véu do Templo era magnífico em espessura, altura e riqueza de cores, figurando o cosmos, com estrelas bordadas sobre fundo azul, símbolo do firmamento.
Segundo a Lei de Moisés (Ex 26,33), o véu separava o povo da presença de Deus, ocultada no Santo dos Santos. Apenas o sumo sacerdote podia entrar além do véu, uma vez por ano, no Yom Kippur (Dia da Expiação), oferecendo sacrifício pelo pecado do povo (cf. Lv 16).
O véu era, portanto, o símbolo visível da separação entre Deus Santo e o homem pecador.
Todos os Evangelistas Sinópticos narram o rasgamento do véu, sublinhando que ocorreu “de alto a baixo”, o que indica iniciativa divina (Mt 27,51; Mc 15,38; Lc 23,45).
O Catecismo da Igreja Católica (CIC) §586 afirma:
“Jesus subiu voluntariamente a Jerusalém, sabendo que lá iria morrer de morte violenta por causa da oposição dos pecadores, dos chefes de Israel, de Jerusalém. No entanto, não se opôs à lei do Templo; mas anunciou a destruição deste Templo, da qual o véu rasgado foi sinal. A sua morte marca a entrada numa nova economia do culto.”
Portanto, o véu rasgado não foi mero acidente físico, mas sinal profético e teológico.
Com a morte de Cristo, cessou a eficácia dos sacrifícios do Antigo Testamento. O véu rasgado significa que o antigo culto, com suas prescrições rituais, foi superado pelo único sacrifício perfeito de Cristo na Cruz. Diz a Carta aos Hebreus (Hb 10,19-20):
“Tendo, pois, irmãos, plena confiança de entrar no santuário pelo sangue de Jesus, pelo caminho novo e vivo que Ele nos abriu através do véu, isto é, da sua carne.”
Assim, o véu rasgado indica a obsolescência do culto antigo, substituído pela liturgia nova e eterna: a Santa Missa, memorial do Sacrifício do Calvário (CIC §1182).
Antes, somente o sumo sacerdote entrava no Santo dos Santos. Com Cristo, todos os fiéis batizados têm acesso direto a Deus. Afirma São Tomás de Aquino (S.Th. III, q.70, a.1, ad 3):
“A paixão de Cristo abriu-nos a entrada do Reino dos Céus. O véu rasgado significa que o céu está aberto.”
São Paulo, em Ef 2,14, afirma:
“Cristo é a nossa paz: de dois povos fez um só, destruindo o muro de separação.”
O véu rasgado também é lido como símbolo da queda da barreira entre judeus e gentios. A salvação passa a ser oferecida a todos os povos.
Padres da Igreja comentaram o véu rasgado. Destaco:
A liturgia católica, especialmente no Sábado Santo, recorda o véu rasgado, pois a morte de Cristo inaugura um novo acesso à presença divina. O véu do Templo pré-figurava o véu do Tabernáculo e o véu do Santo dos Santos, hoje substituídos pela cortina do sacrário, onde habita Jesus Eucarístico.
O Concílio Vaticano II, na Sacrosanctum Concilium §5, ensina:
“Cristo, com sua morte e ressurreição, destruiu a morte, rasgou o véu do Templo e nos abriu o acesso à eternidade.”
É comum na Tradição cristã ressaltar que o véu, com a espessura de uma mão, seria impossível de rasgar por mãos humanas. O Talmud confirma a robustez do véu, sendo tecido por 82 donzelas e necessitando centenas de sacerdotes para removê-lo para limpeza. O gesto, portanto, é sinal divino.
O véu rasgado é o ícone visível de que, pela Cruz, Jesus reconciliou o céu e a terra. Nele, todas as prefigurações do Antigo Testamento se cumprem. Com a Paixão, os véus caem:
Por isso, a Igreja proclama: “Ecce lignum Crucis, in quo salus mundi pependit” — “Eis o lenho da Cruz, do qual pendeu a salvação do mundo.”
O rasgamento do véu do Templo na morte de Cristo não é detalhe de cenário, mas momento-chave da História da Salvação. É o ato pelo qual Deus declara encerrado o antigo culto e inaugura o Novo e Eterno Testamento. E, sobretudo, manifesta que, pelo Sangue de Cristo, todos têm livre acesso ao Pai.
Como ensina o Catecismo (§1026):
“Pelo seu sacrifício redentor, Cristo abriu-nos o Céu. Os que morrem na graça de Cristo vivem para sempre com Ele.”
É esse véu rasgado que nos permite dizer, confiantes, as palavras da Liturgia:
“Accedamus cum fiducia ad thronum gratiae.” — “Aproximemo-nos, pois, com confiança do trono da graça.” (Hb 4,16)