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Crédito: Reprodução da Internet
Entre os temas que mais fascinam estudiosos da natureza humana está a teoria dos quatro temperamentos. Muitas vezes reduzida a testes superficiais ou caricaturas de personalidade, essa classificação possui raízes históricas antiquíssimas, atravessou séculos de filosofia, medicina e psicologia, e encontrou, na tradição espiritual da Igreja Católica, terreno fértil para ajudar o fiel a conhecer-se melhor e caminhar na santidade.
A origem histórica dos temperamentos remonta à medicina grega. Hipócrates (c. 460-370 a.C.) é considerado o primeiro a propor a doutrina dos humores, segundo a qual a saúde e o comportamento humano dependiam do equilíbrio entre quatro fluidos corporais:
Galeno de Pérgamo (129-200 d.C.), médico romano de origem grega, consolidou essa teoria e a vinculou mais diretamente ao temperamento psíquico. Para ele, cada humor não só influenciava a saúde física, mas moldava traços de personalidade, emoções e comportamentos.
Embora a medicina moderna tenha descartado a explicação humoral, a tipologia temperamental sobreviveu como ferramenta descritiva da psicologia e do comportamento humano.
Na Idade Média, a filosofia cristã assimilou muitas ideias antigas, reinterpretando-as à luz da fé. Santo Tomás de Aquino (1225-1274), embora não fale diretamente “dos quatro temperamentos” como categorias fechadas, trata amplamente da psicologia humana, especialmente nas “Questões Disputadas sobre a Alma” e na Suma Teológica.
Para Santo Tomás, o homem é composto de corpo e alma. A alma racional inclui as faculdades intelectiva e apetitiva, dividindo-se esta última em concupiscível e irascível — conceitos que se aproximam muito das tendências descritas pelos temperamentos. As inclinações naturais do homem, segundo ele, não são más em si mesmas, mas podem ser ordenadas ou desordenadas pelo uso da razão iluminada pela graça.
Assim, a tradição católica jamais considerou os temperamentos como determinismos absolutos, mas como predisposições naturais que a graça pode purificar e orientar.
Nos séculos XV e XVI, a teoria humoral permaneceu viva nos tratados médicos e começou a ser usada também na literatura espiritual. Escritores católicos, especialmente no campo da direção espiritual, passaram a ver nos temperamentos instrumentos para o autoconhecimento, fundamental para a vida virtuosa.
Autores como São Francisco de Sales (1567-1622) tratam amplamente das diferentes inclinações humanas em obras como “Introdução à Vida Devota”, mesmo sem citar formalmente a divisão hipocrática. Ele aconselha cada fiel conforme suas inclinações particulares, aproximando o conceito dos temperamentos da prática pastoral e do discernimento espiritual.
Foi sobretudo no século XIX que a tipologia dos temperamentos ressurgiu com força no âmbito católico, especialmente entre religiosos, educadores e diretores espirituais.
Um nome muito citado nesse contexto é o do Pe. Conrad Hock, sacerdote alemão, autor de obras espirituais que sistematizaram a aplicação dos quatro temperamentos à vida cristã. Sua obra “The Four Temperaments” (traduzida para vários idiomas) tornou-se referência para seminaristas, confessores e educadores católicos.
A grande contribuição dessa época foi perceber que conhecer o próprio temperamento ajuda o fiel a lutar contra as paixões desordenadas, fortalecer virtudes e crescer na vida interior.
Embora haja nuances em cada autor, a descrição clássica católica dos temperamentos é esta:
Nenhum temperamento é “melhor” ou “pior”. São diferentes modos de reagir às situações e de sentir interiormente. O ideal cristão é ordenar essas tendências para o bem.
A Igreja Católica ensina claramente que as disposições naturais não anulam o livre-arbítrio. O Catecismo da Igreja Católica afirma:
“A liberdade caracteriza os atos propriamente humanos. Torna o ser humano responsável pelos atos de que é autor.” (CIC, n. 1745)
Portanto, mesmo que alguém tenha tendência à cólera ou à melancolia, não está condenado a agir mal. Deus respeita nossa natureza, mas oferece a graça para aperfeiçoá-la.
São João Paulo II ensinava:
“A graça não destrói a natureza, mas a supõe, a sana, a eleva e a aperfeiçoa.” (Encíclica Veritatis Splendor, n. 45)
Assim, a Igreja valoriza o conhecimento dos temperamentos não para justificar pecados, mas para ajudar o fiel a lutar com mais eficácia, a fim de adquirir virtudes.
Na prática pastoral, muitos confessores e diretores espirituais utilizam a noção de temperamento para adaptar conselhos. Um diretor espiritual bem formado consegue identificar, pelo modo de falar, pelas tentações habituais e pelas virtudes dominantes, qual é o temperamento de seu dirigido. Isso não serve para “rotular”, mas para ajudar de modo mais personalizado.
Por exemplo:
A meta é sempre conduzir a pessoa à virtude, não importa qual seja seu temperamento.
Nos mosteiros, conventos e comunidades religiosas, o estudo dos temperamentos sempre foi considerado importante. A convivência diária expõe manias, choques temperamentais e diferenças de sensibilidade.
Santa Teresa d’Ávila, em seus escritos, deixa claro que nem sempre as almas se suportam facilmente, ainda que todas desejem servir a Deus. Conhecer os temperamentos ajuda os religiosos a praticar caridade, paciência e compreensão.
Em ambientes paroquiais ou de apostolado, a mesma regra vale. O temperamento colérico de um líder pode ser motor para as obras, mas precisa da prudência dos fleumáticos, da criatividade dos sanguíneos e da profundidade dos melancólicos. A Igreja, Corpo de Cristo, valoriza essa diversidade ordenada.
A beleza da santidade católica está em que Deus chama pessoas de todos os temperamentos:
Não existe “temperamento santo”. Existe alma que se deixa moldar pela graça. Como ensina São Francisco de Sales:
“Se cada um se aplicasse a corrigir os defeitos do seu temperamento, ninguém se escandalizaria do próximo.”
A tradição católica sempre recomendou o autoconhecimento. Santo Agostinho dizia:
“Senhor, que eu Vos conheça, e que eu me conheça.”
Conhecer o temperamento é passo importante nesse caminho. Não para ficarmos presos a etiquetas psicológicas, mas para:
Como ensina Santa Teresa d’Ávila, sem autoconhecimento, a vida espiritual torna-se ilusão. E o estudo dos temperamentos é uma ferramenta a mais nesse trabalho.
A teoria dos quatro temperamentos é um exemplo luminoso de como a fé católica aproveita elementos da cultura humana, purificando-os e orientando-os para o bem maior da alma. Não se trata de superstição nem de determinismo psicológico e muitos menos de muleta ou desculpa para os nossos pecados e má inclinações. Trata-se de autoconhecimento, sabedoria prática e auxílio na luta espiritual.
Se, como diz o Catecismo, a graça não destrói, mas aperfeiçoa a natureza, então o temperamento é um campo de batalha e, ao mesmo tempo, um terreno fecundo onde a graça pode florescer.
E, afinal, Deus, que é o Criador, também foi o Autor das nossas inclinações naturais — para que, ordenadas pela virtude, se tornem instrumentos da Sua glória.