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Crédito: Reprodução da Internet
A Igreja Católica guarda nos seus livros litúrgicos e nos ossários subterrâneos de Roma nomes que não se apagam, ainda que as biografias se percam no tempo. Entre esses nomes estão Protus e Jacinto, lembrados no dia 11 de setembro. São santos que nos obrigam a lidar com uma questão desconfortável: como celebrar alguém de quem pouco sabemos? O calendário romano responde de forma clara — basta-nos a certeza do martírio. Para a fé, não é o detalhe biográfico que fundamenta a memória, mas o testemunho de sangue.
No ano 354, um escriba romano preparou a chamada Chronographia, que incluía a “Depositio Martyrum”, isto é, o rol das sepulturas e datas de celebração dos mártires em Roma. Ali, no dia 11 de setembro, aparecem Protus e Jacinto. Nada além disso: nem milagres, nem genealogias, apenas dois nomes e uma data. Essa secura documental é preciosa porque prova que, já no século IV, os dois eram venerados oficialmente. Se não houvesse corpo, culto e fé, não haveria registro.
A arqueologia confirma que ambos foram sepultados na catacumba de Basila, na Via Salária. Escavações trouxeram à luz inscrições com os seus nomes e restos mortais carbonizados, sinal de martírio pelo fogo. Um epitáfio do papa Dâmaso, que no século IV dedicou grande esforço a recuperar e honrar as tumbas dos mártires, reforça essa memória. O que a pedra não conta em palavras, testemunha pela sua simples existência: havia, de fato, cristãos sepultados com honra por terem dado a vida em nome de Cristo.
Alguns séculos depois, escritores cristãos sentiram necessidade de contar “o resto da história”. Surgiu então a Passio Sanctae Eugeniae, onde Protus e Jacinto aparecem como eunucos cristãos ao serviço da santa mártir Eugênia. Ali ganham rosto, contexto, diálogos, perseguições. Mas a crítica histórica é dura: esses textos foram compostos entre os séculos V e VI, portanto muito distantes dos fatos. Não são mentira — são literatura devocional, tentativa piedosa de preencher lacunas. A Igreja, prudente, não os canoniza como história literal, mas também não despreza o seu valor espiritual.
O Catecismo ensina que o martírio é o testemunho supremo da fé (n. 2473). Não é necessário saber a idade, profissão ou origem de Protus e Jacinto: basta saber que morreram por Cristo. Esse “mínimo biográfico” é suficiente para que o máximo da fé brilhe. Por isso a liturgia não hesita em incluí-los no Martirológio Romano: a tradição é clara em reconhecer que são mártires verdadeiros, inscritos para sempre na lista dos amigos de Deus.
No fundo, a celebração de Protus e Jacinto nos ensina a valorizar o essencial. Vivemos numa época obcecada por biografias detalhadas, registros digitais, currículos públicos. Os dois santos nos recordam que a verdadeira identidade de um cristão não está nos detalhes externos, mas na fidelidade ao Evangelho. Ser lembrado apenas como “mártir de Cristo” é, em si, a maior das honras.
Celebrar Protus e Jacinto em 11 de setembro é também, para os católicos de hoje, uma oportunidade de confrontar a tibieza. Esses mártires, talvez escravos, talvez eunucos, certamente anônimos na sociedade romana, encontraram no batismo uma dignidade maior que qualquer status social. Em contraste com uma cultura que mede valor em função de notoriedade ou poder, eles são proclamados santos porque aceitaram morrer pelo Senhor. A liturgia repete anualmente o que a sociedade romana jamais teria registrado: esses nomes são eternos.
Documentos como a Lumen Gentium (n. 42) lembram que a Igreja sempre considerou o martírio como dom eminente e prova suprema de caridade. Na vida de Protus e Jacinto, mesmo que envolta em silêncio, essa verdade se concretiza. Eles são irmãos na fé que, pela morte, se tornaram sinais vivos de que “o sangue dos mártires é semente de novos cristãos”, como ensinava Tertuliano.
Protus e Jacinto não são personagens para filmes ou romances históricos. São nomes gravados em pedra, celebrados na liturgia, lembrados em oração. E isso basta. O pouco que sabemos é, paradoxalmente, tudo o que importa: morreram por Cristo. Por isso a Igreja se curva diante de suas relíquias e repete todos os anos: 11 de setembro é o dia em que dois irmãos na fé nasceram para a vida eterna.