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Crédito: Reprodução da Internet
Na véspera da Paixão, um gesto silencioso e profundamente comovente se eleva como sinal profético do mistério que se aproxima. Trata-se da unção de Jesus por Maria de Betânia, narrada com particular ternura e solenidade nos Evangelhos (Jo 12,1-11; Mt 26,6-13; Mc 14,3-9). Esse episódio, que a Igreja contempla com especial reverência na liturgia da Semana Santa, carrega em si um peso teológico e espiritual que atravessa os séculos, iluminando a relação entre o amor, o sacrifício e a dignidade de Cristo.
No Evangelho de João, seis dias antes da Páscoa, Jesus vai a Betânia, onde estava Lázaro, a quem Ele ressuscitara. Maria, irmã de Lázaro e de Marta, toma “uma libra de perfume de nardo puro, de grande valor”, unge os pés do Senhor e os enxuga com os cabelos (Jo 12,3). O perfume enche toda a casa. À primeira vista, trata-se de um gesto de hospitalidade e carinho, mas em profundidade, a Igreja reconhece nele uma ação litúrgica, profética e profundamente cristológica.
O Catecismo da Igreja Católica, embora não trate diretamente desse episódio, nos ajuda a interpretá-lo ao falar sobre os sinais sacramentais e os gestos proféticos (CIC 1150-1153). O gesto de Maria antecipa simbolicamente a unção funerária de Jesus. O próprio Senhor confirma isso: “Ela guardou este perfume para o dia da minha sepultura” (Jo 12,7). A unção, portanto, está diretamente ligada à Paixão e Morte de Cristo, e revela, pela fé, o reconhecimento de Maria quanto à identidade messiânica e redentora de Jesus.
A Tradição da Igreja vê em Maria de Betânia uma figura contemplativa e profundamente unida ao mistério de Cristo. Santo Agostinho, em suas homilias, comenta que Maria, ao sentar-se aos pés do Senhor e ao ungir seus pés, representa a alma que escolheu a melhor parte (Lc 10,38-42). São Gregório Magno também vê nessa unção uma entrega total a Deus, expressa por um amor que ultrapassa o cálculo e o convencional.
São Tomás de Aquino, em sua Catena Aurea, ao comentar João 12, interpreta o perfume como símbolo da fé ardente, cujo aroma se espalha pela Igreja inteira. Assim, o gesto de Maria não é apenas um ato de adoração pessoal, mas um símbolo da resposta da Igreja ao dom da Redenção: adoração, gratidão e entrega total ao Esposo.
A cena contrasta fortemente com a figura de Judas Iscariotes, que critica o gesto de Maria sob pretexto de caridade. João não hesita em revelar o verdadeiro motivo: “não porque tivesse preocupação com os pobres, mas porque era ladrão” (Jo 12,6). Esse contraste é crucial: enquanto Maria oferece algo precioso por amor, Judas está a ponto de vender o Senhor por moedas. A Igreja contempla essa oposição com espírito penitencial na Semana Santa, reconhecendo que, em muitos momentos, nossas escolhas também oscilam entre Maria e Judas.
Na liturgia da Segunda-feira Santa, a Igreja proclama esse Evangelho (Jo 12,1-11), convidando os fiéis a entrarem na lógica do dom total. Maria não economiza: o nardo era caríssimo. Isso aponta para a generosidade do amor verdadeiro, que não calcula, mas se entrega. É um eco antecipado do que Cristo fará na Cruz: dar tudo de Si, sem reservas.
A unção dos pés também nos remete à humildade que Jesus, em breve, manifestará ao lavar os pés dos discípulos (Jo 13). Assim, Maria antecipa com seu gesto aquilo que Cristo realizará em plenitude: o amor-serviço, o dom total, a humildade que salva.
Para o coração católico, essa passagem é um convite à adoração e à reparação. Maria consola o Coração de Jesus às vésperas da Paixão. Ela é uma verdadeira “almas reparadora”, expressão cara à espiritualidade do Sagrado Coração. A Igreja ensina que os fiéis podem, com seus atos de amor, oração e penitência, consolar o Coração de Cristo ofendido pelos pecados da humanidade (cf. CIC 1430-1439).
Assim, cada alma é chamada, especialmente na Semana Santa, a ser como Maria de Betânia: a oferecer o melhor, a estar aos pés do Senhor, a amá-Lo gratuitamente, a adorar com fé e a se unir ao mistério da Cruz com espírito de contemplação e reparação.