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Crédito: Reprodução da Internet
Poucos santos falam tanto ao coração da juventude como Pier Giorgio Frassati. Não foi padre, não fundou congregação, não pregou em praças lotadas. Era um rapaz comum: universitário, amante do esporte, amigo das risadas e dos encontros sociais. E, ao mesmo tempo, extraordinariamente incomum: viveu a radicalidade do Evangelho nas pequenas e grandes escolhas, sem alarde, sem estardalhaço, mas com um coração inflamado de amor por Cristo e pelos pobres.
João Paulo II o chamou de “o homem das bem-aventuranças”. E, de fato, Frassati encarna aquela estranha equação cristã: alegria e cruz, juventude e maturidade espiritual, contemplação e ação. Sua vida curta — apenas 24 anos — é daquelas que deixam marca profunda, justamente porque mostram que a santidade não é privilégio dos altares, mas vocação de cada batizado.
Nascido em Turim em 1901, no seio de uma família rica e influente, Pier Giorgio poderia ter seguido o caminho confortável de muitos de sua classe social. Mas a graça o cutucava de outro modo. Desde cedo, buscava Deus no silêncio das alturas: escalar montanhas não era apenas esporte, era metáfora espiritual. Ali, entre rochedos e neve, rezava, cantava, ria. Quem convivia com ele percebia: não era um aventureiro qualquer, mas um apaixonado pelo Criador que se deixava tocar pela beleza da criação.
No entanto, sua espiritualidade não se restringia às paisagens alpinas. O mesmo jovem que subia aos picos gelados descia, com igual entusiasmo, às periferias de Turim, visitando doentes, levando alimentos, consolando pobres. Não via contradição entre alpinismo e apostolado: para ele, ambos eram caminhos para chegar mais perto de Deus.
A fonte de tudo estava clara: a vida sacramental. Frassati tinha na missa diária, na confissão frequente e na adoração ao Santíssimo a base da sua força. Não era um devoto intimista, daqueles que reduzem a fé a piedade privada; ao contrário, a Eucaristia era o combustível que o lançava à ação.
Aqui está uma lição atualíssima: em tempos em que tantos reduzem a fé a “valores” ou “engajamento social”, Frassati lembra que sem Cristo vivo na Eucaristia, a caridade se esvazia. Ele não ajudava os pobres porque era “bonzinho”, mas porque via neles o rosto de Cristo. A liturgia, para ele, não era enfeite, era fogo.
A fama de Pier Giorgio entre os amigos era a do rapaz sempre sorridente, piadista, que enchia a vida de alegria. Mas esse sorriso não era ingênuo: vinha de um coração que sabia sofrer pelos outros. Testemunhas contam que, ao sair de casa, muitas vezes não tinha dinheiro no bolso — já havia distribuído tudo. Preferia andar de terceira classe no trem para poder usar a diferença em obras de caridade.
Na Sociedade de São Vicente de Paulo, foi presença constante: visitava favelas, cuidava de crianças, carregava cestas. Não delegava a ninguém o que ele mesmo podia fazer. Aliás, foi provavelmente em uma dessas visitas que contraiu a poliomielite que o levaria à morte precoce, em 1925. Viveu o que pregava até as últimas consequências: gastar a vida pelos outros.
Pouca gente sabe que Frassati era terciário dominicano. Essa pertença moldou profundamente sua vida espiritual. Inspirava-se em São Domingos e em São Tomás de Aquino, mas especialmente em Santa Catarina de Sena, cujo amor apaixonado pela Igreja o fascinava. Como dominicano leigo, uniu estudo, oração e apostolado — tríade que o ajudou a não ser um mero “ativista cristão”, mas um apóstolo enraizado na verdade do Evangelho.
Isso mostra algo precioso: o laicato, quando abraça a espiritualidade das ordens eclesiais, encontra uma escola segura de santidade. Pier Giorgio não inventou moda; bebeu da Tradição e a viveu no seu cotidiano.
Na homilia de beatificação, João Paulo II afirmou: “Ele viveu plenamente a vida das bem-aventuranças”. Não era frase de efeito. Quem lê o Evangelho em Mateus 5 encontra em Frassati uma tradução viva: pobre de espírito (apesar da riqueza familiar), manso e justo (defensor da dignidade humana), puro de coração (fiel ao amor casto), misericordioso até o fim.
É por isso que sua canonização em 2025 não surpreende: já havia muito tempo que o povo de Deus o reconhecia santo. A Igreja apenas confirmou o que as ruas, os jovens e os pobres já sabiam.
A vida de Frassati é um manual prático para quem busca viver a fé no mundo atual:
Num tempo em que muitos jovens se sentem perdidos entre diversão vazia e engajamento estéril, Pier Giorgio mostra que é possível viver ambos: rir, festejar, subir montanhas… e, ao mesmo tempo, gastar a vida pelos mais necessitados, com raízes no altar e os olhos no Céu.
Frassati morreu aos 24 anos, mas nunca ficou “datado”. Sua imagem com mochila, corda de alpinismo e terço na mão continua atual. Ele fala de santidade sem cara de museu, sem tom moralista, sem peso sufocante. Fala de uma alegria exigente, que nos lembra de algo fundamental: não basta “ser bom”; é preciso ser santo.
E santo não no sentido caricatural, mas no sentido mais radical e libertador: viver como filho de Deus, gastar-se pelos irmãos, buscar sempre “o alto” — como repetia em seu lema favorito: Verso l’alto.
É por isso que Pier Giorgio Frassati é mais que memória. É chamado vivo, urgente e direto: a santidade é possível, é alegre, é jovem. E, como ele provou, cabe perfeitamente nas botas de montanha e no bolso de um estudante universitário.