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Crédito: Reprodução da Internet
A pergunta sobre quantos se salvam acompanha a humanidade desde os tempos apostólicos. Quando alguém perguntou a Jesus: “Senhor, são poucos os que se salvam?”, Ele não respondeu com números, mas com um chamado: “Esforçai-vos por entrar pela porta estreita, porque muitos, eu vos digo, procurarão entrar e não conseguirão” (Lc 13,23-24). Este ensinamento, repetido pelos santos, pelos doutores da Igreja e reafirmado pelo Magistério, é um convite à conversão e à vigilância constante.
A expressão “porta estreita” não é apenas uma metáfora moral; ela indica a realidade do esforço necessário para vencer o pecado e alcançar a vida eterna. Santo Agostinho, no Sermão 112, recorda: “Deus criou-nos sem nós, mas não nos salvará sem nós”. A salvação exige cooperação com a graça divina, que não anula a liberdade, mas a eleva.
O Catecismo da Igreja Católica, no parágrafo 2010, ensina: “A iniciativa divina na obra da graça precede, prepara e suscita a livre resposta do homem”. Assim, a porta estreita é o símbolo da graça acolhida com liberdade, e não um obstáculo arbitrário.
Vários santos advertiram sobre a realidade de que muitos se perdem por rejeitarem a graça. São João Crisóstomo, doutor da Igreja, afirmava: “Entre milhares de homens, dificilmente se encontrará um que seja salvo” (Homilia sobre Mateus, 7,13). São Leonardo de Porto Maurício, no famoso sermão Sobre os poucos que se salvam, insiste: “Se é certo que Deus quer que todos se salvem, não é menos certo que poucos correspondem ao seu amor”.
Estas palavras não pretendem gerar desespero, mas despertar o zelo pela conversão. O próprio Concílio de Trento (Sessão VI, cân. 17) confirma que a salvação não está garantida para quem vive deliberadamente em pecado mortal: “Se alguém disser que a graça recebida não se perde senão por falta de fé, seja anátema”. A perda da graça santificante leva à condenação se não houver arrependimento e confissão sacramental.
Jesus afirma claramente: “Aquele que perseverar até o fim será salvo” (Mt 24,13). A perseverança não é fruto do esforço humano isolado, mas da fidelidade sustentada pela graça. Santo Tomás de Aquino explica na Suma Teológica (I-II, q.109, a.10) que a perseverança final é um dom que deve ser pedido com humildade e insistência.
O Catecismo (n. 162) recorda que a fé pode ser perdida se não for alimentada: “Podemos perder este dom inestimável. Para viver, crescer e perseverar na fé até o fim, devemos alimentá-la com a Palavra de Deus e implorar ao Senhor que a aumente”.
Alguns poderiam questionar: se Deus é misericordioso e quer que todos se salvem (cf. 1Tm 2,4), por que então os santos insistem em que poucos o conseguem? O ponto central está na liberdade humana. Santo Afonso de Ligório, doutor da Igreja, escreve: “Deus quer salvar-nos a todos, mas não força ninguém; quem se perde, perde-se por culpa própria”.
A misericórdia de Deus é infinita, mas exige arrependimento sincero e conversão. São João Paulo II, na encíclica Dives in Misericordia (n. 13), ensina que “a misericórdia não anula as exigências da justiça, mas as cumpre em plenitude”.
Os santos e doutores da Igreja apontam caminhos concretos: vida de oração, recepção frequente dos sacramentos, prática da caridade e vigilância contra o pecado mortal. São Francisco de Sales, em sua Filotéia, adverte: “De que serve amar a Deus de vez em quando, se o pecado mortal reina em nossa alma?”.
A Confissão e a Eucaristia são meios seguros de santificação. O Concílio Vaticano II, na Sacrosanctum Concilium (n. 14), enfatiza que a liturgia é a fonte e o cume da vida cristã, de onde brota a graça que sustenta a perseverança.
Falar que poucos se salvam não deve levar ao desespero, mas ao santo temor de Deus, que é princípio da sabedoria. Esse temor não é pavor servil, mas reverência amorosa que conduz a uma vida reta. Santa Teresa de Jesus ensina no Caminho de Perfeição que “o temor de perder a Deus é um grande bem, porque nos leva a evitar até as pequenas faltas”.
A advertência dos santos não é sentença de condenação, mas um apelo urgente: Deus quer salvar a todos, mas espera nossa resposta livre e perseverante.