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Crédito: Reprodução da Internet
Quando falamos em dar, ajudar, socorrer, muitos confundem generosidade com filantropia. No entanto, para a Igreja Católica, são realidades distintas — ainda que possam caminhar juntas. Uma nasce como virtude, expressão de uma alma moldada pela caridade; a outra surge como prática social organizada, marcada por métodos, fundos e instituições. Ambas são necessárias, mas a tradição cristã não permite reduzi-las a sinônimos.
Generosidade é mais do que um simples ato de dar algo que nos sobra. É virtude moral que brota de uma disposição interior: o desprendimento. São Tomás de Aquino, na Suma Teológica, descreve a liberalidade — a virtude que governa o uso das riquezas — como a capacidade de empregar os bens em favor do próximo, sem apego e sem ostentação. A generosidade é, portanto, uma inclinação habitual do coração que se abre ao outro, oferecendo o que tem, por vezes até com sacrifício.
A Igreja sempre ensinou que, iluminada pela graça, a generosidade se torna expressão viva da caridade — virtude teologal que nos une a Deus e ao próximo. É a caridade que transforma um simples gesto de bondade em ato meritório para a vida eterna. Como ensina o Catecismo: «A caridade é a virtude teologal pela qual amamos a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a nós mesmos por amor de Deus» (CIC, 1822).
Esse detalhe faz toda a diferença: generosidade, para o cristão, não é apenas bondade natural, mas resposta de amor a Deus que se encarna no amor ao próximo.
Já a filantropia segue outro caminho. Vem do grego philanthropia, “amor à humanidade”, e hoje costuma nomear iniciativas privadas, fundações e projetos sociais que aplicam recursos em causas coletivas. É uma forma de agir organizada, estratégica, de longo prazo, voltada ao bem comum.
Na sociedade contemporânea, filantropia ganhou espaço como alternativa ou complemento às políticas públicas. Hospitais, universidades, abrigos e inúmeras obras de assistência nasceram de iniciativas filantrópicas. Aliás, muitas delas foram fundadas por católicos e ordens religiosas, mostrando que a Igreja soube unir o impulso generoso ao esforço institucional.
Mas há um alerta importante: filantropia, por si só, não é virtude teologal. Pode ser boa, necessária e até louvável, mas não tem automaticamente valor sobrenatural. Depende da intenção do coração e da reta ordenação ao bem comum. Quando movida apenas por interesse fiscal, prestígio social ou marketing pessoal, ela pode se reduzir a uma caricatura de caridade.
A generosidade costuma acontecer no rosto a rosto. O exemplo clássico é o Bom Samaritano: um homem encontra outro ferido à beira da estrada, cuida de suas feridas e o leva a uma estalagem. Não houve cálculo, plano estratégico ou estatística: houve compaixão imediata. O Papa Francisco insiste nesse ponto em Fratelli tutti: a caridade começa no encontro concreto, não na abstração de programas sociais.
A filantropia, por sua vez, tende a ser mediada por estruturas, gestores e relatórios. É menos pessoal, mas não menos necessária. De fato, muitos pobres só são atendidos graças a hospitais, escolas e instituições mantidas por filantropia. Aqui entra a importância de unir o gesto individual ao planejamento institucional: um não substitui o outro.
O magistério da Igreja é claro: nem generosidade, nem filantropia bastam se não estiverem ancoradas na caridade. Bento XVI, em Caritas in veritate, lembra que a caridade precisa da verdade para não se tornar sentimentalismo vazio. Do mesmo modo, a filantropia só alcança plenitude se buscar a justiça e respeitar a dignidade da pessoa humana.
Isso significa que, para a Igreja, a verdadeira ajuda não é paternalista nem meramente emergencial. Ela deve respeitar a liberdade do outro, promover seu desenvolvimento integral e colaborar com a construção do bem comum. Ou seja, não basta dar esmola: é preciso também transformar estruturas injustas que geram miséria.
Por isso a doutrina social insiste tanto na complementaridade: a generosidade alivia a dor imediata; a filantropia organiza recursos para atender grandes necessidades; a justiça garante que todos tenham acesso ao que é devido por direito.
Como saber, então, se nossa generosidade ou nossa filantropia são autênticas? A tradição da Igreja nos oferece alguns critérios seguros:
Esses princípios estão presentes no Catecismo, em Deus caritas est de Bento XVI, em Caritas in veritate e em Fratelli tutti. São como bússola para evitar tanto o sentimentalismo desordenado quanto a tecnocracia fria.
Se quisermos resumir em uma frase: generosidade é virtude pessoal, filantropia é estrutura social; ambas só são cristãs quando se tornam expressão de caridade.
A generosidade sem amor pode se tornar vaidade; a filantropia sem verdade pode virar marketing; mas, quando unidas à caridade, tornam-se instrumentos de santificação pessoal e de transformação do mundo.
O chamado da Igreja não é escolher entre uma ou outra, mas viver ambas em harmonia: cultivar no coração a virtude da generosidade e, ao mesmo tempo, apoiar ou construir obras que, de modo organizado, possam atender às grandes necessidades sociais. Assim, damos não apenas coisas, mas nós mesmos; não apenas alívio imediato, mas esperança duradoura.