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chagas de jesus

Crédito: Reprodução da Internet

Quais são as 5 chagas de Cristo e o que significam?

As feridas visíveis no corpo de Cristo revelam o mistério mais profundo do amor divino: um Deus que se deixa transpassar para curar a humanidade e cumprir, até a última letra, as promessas da salvação

Quando Deus escolheu amar com feridas

Há dores que revelam mais do que machucam. As Cinco Chagas de Jesus Cristo — nas mãos, nos pés e no lado — são marcas eternas da entrega total de um Deus que não se limitou a falar de amor, mas o escreveu com sangue. Essas feridas não são apenas memória de um sofrimento passado, mas sinais vivos e presentes de uma redenção que continua agindo no tempo.

Ao longo da história da Igreja, as Cinco Chagas se tornaram não só objeto de contemplação mística e devoção popular, mas também fonte inesgotável de reflexão teológica. Elas não são apenas cicatrizes deixadas pela violência da crucificação, mas fontes de luz, de misericórdia, de vida e de sentido. Carregam em si o mistério do amor que se deixa ferir para curar.

Promessas antigas se cumprem no corpo trespassado do Salvador

A Paixão de Cristo, tal como narrada nos Evangelhos, é a convergência de profecias e símbolos do Antigo Testamento com o acontecimento histórico da cruz. Cada chaga tem raízes na tradição judaica e cumpre promessas que se estendem desde os salmos até os profetas.

O Salmo 22, que o próprio Cristo cita na cruz (“Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?“), antecipa com impressionante precisão: “Transpassaram minhas mãos e meus pés” (v.17). Isaías, no chamado “Cântico do Servo Sofredor”, proclama: “Ele foi traspassado por causa das nossas transgressões, esmagado por causa das nossas iniquidades” (Is 53,5).

No Novo Testamento, os evangelistas relatam essas chagas com reverência e detalhe. João, o mais teológico entre eles, destaca o momento em que o lado de Jesus é perfurado: “um dos soldados abriu-lhe o lado com uma lança, e logo saiu sangue e água” (Jo 19,34). João reconhece ali um cumprimento: “Assim se cumpriu a Escritura: ‘Nenhum dos seus ossos será quebrado’. E, ainda outra Escritura diz: ‘Olharão para aquele que transpassaram’” (Jo 19,36-37).

O lado aberto de Cristo, do qual brotam sangue e água, será posteriormente interpretado pelos Padres da Igreja como o nascimento dos sacramentos e, portanto, da própria Igreja. Santo Agostinho e São João Crisóstomo veem ali a nova Eva que nasce do lado do novo Adão.

As chagas não são sinais de derrota, mas troféus de vitória

O ensinamento da Igreja é claro: a salvação veio pelo sacrifício de Cristo, e esse sacrifício foi pleno, consciente e voluntário. As feridas não foram apenas físicas, mas espirituais, redentoras. O Catecismo da Igreja Católica ensina que “por sua santa Paixão na Cruz, Cristo mereceu a nossa justificação” (§617).

São Tomás de Aquino explica na Suma Teológica que Cristo quis conservar suas chagas no corpo glorioso para manifestar seu amor e como troféus da vitória sobre a morte (STh III, q. 54, a. 4). Para ele, as feridas são prova da ressurreição, instrumentos de intercessão e memória do preço da Redenção.

Essa dimensão espiritual não demorou a tornar-se objeto de devoção. No século XIII, São Francisco de Assis recebeu os estigmas — as mesmas chagas do Senhor — em seu corpo, um evento místico inédito até então. Segundo as fontes franciscanas, o fato ocorreu em 14 de setembro de 1224, na festa da Exaltação da Santa Cruz, no Monte Alverne.

Posteriormente, santos como Santa Gertrudes, Santa Brígida da Suécia, São Pio de Pietrelcina e Santa Verônica Giuliani também tiveram experiências místicas com as Chagas de Cristo. As revelações privadas que receberam, aprovadas pelo discernimento da Igreja, enriqueceram o imaginário devocional com profundidade espiritual e doutrinal.

Cada chaga fala de um gesto, de uma entrega, de um amor específico

As mãos traspassadas

Foram mãos que curaram cegos, que abençoaram crianças, que ergueram os caídos. Agora, cravadas na cruz, mostram que o amor se entrega sem reservas. São, segundo a tradição patrística, imagem do Antigo e do Novo Testamento: mãos que escreveram a Lei, agora furadas por aqueles que a receberam.

Os pés cravados

Esses pés andaram pelas vilas da Galileia e pelas trilhas de Jerusalém. Caminharam ao encontro dos pecadores e conduziram os discípulos. Feridos, já não se movem, mas continuam conduzindo a Igreja, porque o caminho do Crucificado é o único que leva à vida.

O lado aberto

É o coração de tudo. Da ferida do lado jorram sangue e água — os dois sacramentos fundantes da vida cristã: Eucaristia e Batismo. Segundo Santo Agostinho, assim como Eva nasceu do lado de Adão adormecido, a Igreja nasce do lado de Cristo adormecido na cruz.

Essa ferida torna-se ícone da misericórdia. Séculos mais tarde, Santa Faustina Kowalska receberia revelações que a Igreja reconhece como dignas de fé. Em suas visões, Cristo exibe o lado aberto como fonte de graças: “De meu coração brotam raios de misericórdia”. A devoção à Divina Misericórdia nasce desse mistério: as feridas que curam o mundo.

O altar da cruz ecoa os ritos do Templo

A tradição judaica ilumina, com força e precisão, a profundidade do sacrifício de Cristo. O cordeiro pascal, cujo sangue era sinal de salvação para os hebreus no Egito (cf. Ex 12), não podia ter ossos quebrados. João enfatiza esse detalhe ao narrar a morte de Jesus: “não lhe quebraram as pernas” (Jo 19,33), porque Ele já estava morto — como o verdadeiro Cordeiro de Deus.

Os sacrifícios do Templo, especialmente no Dia da Expiação (Yom Kipur), envolviam sangue, intercessão e substituição. O Sumo Sacerdote entrava no Santo dos Santos com o sangue da vítima. Em Cristo, esses elementos se fundem: Ele é ao mesmo tempo vítima, sacerdote e altar.

A Carta aos Hebreus aprofunda essa imagem: “Cristo entrou, não com sangue de bodes e novilhos, mas com seu próprio sangue, uma vez por todas, no santuário, obtendo uma redenção eterna” (Hb 9,12).

Na liturgia da Igreja, as chagas continuam a sangrar graças

A Santa Missa não é uma memória simbólica, mas uma atualização sacramental do sacrifício do Calvário. Ali, o mesmo Cristo se oferece, com o mesmo corpo, agora glorioso — e ainda marcado pelas chagas. Quando o sacerdote eleva a hóstia consagrada, é o mesmo Corpo que foi ferido por nós.

A liturgia conserva esse mistério. O Prefácio da Oitava da Páscoa proclama: “Cristo, ainda ferido, intercede por nós como Cordeiro imolado, vencedor e glorioso”. E a espiritualidade popular reforça essa consciência através das orações às Cinco Chagas — como a ladainha das chagas, o Ofício das Chagas e as jaculatórias do Rosário da Misericórdia.

Em 1854, o Papa Pio IX aprovou oficialmente a Confraria das Cinco Chagas, fundada por São João de Deus no século XVI, e concedeu indulgências às práticas devocionais associadas. O Papa Leão XIII também incentivou o culto às Chagas, reconhecendo seu valor espiritual para a conversão dos pecadores.

Quando o céu se abriu pelo rasgo do coração de Deus

As Cinco Chagas de Cristo são mais do que marcas de um suplício. São janelas para o mistério insondável do amor de Deus. Permanecem visíveis no corpo glorioso do Ressuscitado não por acaso, mas por escolha. Elas são eternas porque o amor que as causou também o é.

Contemplar essas chagas é entrar na lógica da cruz: onde o mundo vê fraqueza, ali está a força de Deus; onde parece haver derrota, ali explode a vitória. E onde há dor, o cristão aprende que, unida a Cristo, ela pode tornar-se fonte de vida.

Santo Tomás dizia que essas feridas seriam motivo de glória e de alegria no Céu. Porque nelas se vê até onde Deus está disposto a ir por nós. E isso muda tudo.

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