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Crédito: Reprodução da Internet
Neste 15 de agosto, solenidade da Assunção de Nossa Senhora, a Igreja celebra a elevação da Virgem em corpo e alma ao Céu, coroando-a Rainha dos Anjos e Senhora do Universo. Nesta mesma data, inicia-se a Quaresma de São Miguel, período de quarenta dias dedicado à oração, penitência e preparação espiritual, que se estende até 29 de setembro, festa dos Arcanjos Miguel, Gabriel e Rafael. Esta quaresma não é apenas uma prática devocional; é um itinerário espiritual que conjuga a intercessão da Mãe de Deus e a proteção do príncipe das milícias celestes, oferecendo ao fiel a oportunidade de intensificar sua vida interior e fortalecer-se contra as tentações do mundo e do demônio.
A origem da Quaresma de São Miguel remonta ao século XIII, com São Francisco de Assis. Segundo relatos da tradição franciscana, em 1224, o santo retirou-se ao Monte Alverne para um período de quarenta dias de oração, jejum e contemplação, oferecendo reparação pelos pecados do mundo e buscando união profunda com Cristo crucificado. Foi durante este retiro que Francisco recebeu os estigmas, tornando-se sinal vivo da paixão de Nosso Senhor. Para ele, este tempo de quarenta dias era um combate espiritual, uma preparação para a batalha interior, lembrando que a luta contra o mal é constante e exige disciplina, oração e união com Deus. A devoção a São Miguel, como protetor da Igreja, foi incorporada a esta prática como um auxílio espiritual poderoso, garantindo ao fiel a companhia dos anjos no enfrentamento das tentações.
Iniciar esta quaresma na Assunção de Nossa Senhora possui um profundo significado espiritual. A Virgem Maria, elevada à glória celeste, é a Rainha dos Anjos, aquela que esmagou a cabeça da serpente, conforme o Protoevangelho de Gn 3,15, e figura central na vitória de Cristo sobre o pecado e a morte. O Apocalipse descreve a Mulher vestida de sol, em luta com o dragão, cercada pelos anjos fiéis a Deus, liderados por Miguel (Ap 12,1-7). Começar o período de penitência sob a proteção de Maria é, portanto, reconhecer que toda batalha espiritual se trava sob o olhar da Mãe de Deus, cuja intercessão nos fortalece e guia. É também um convite à humildade: a vitória sobre o mal não se alcança apenas pela força própria, mas pelo auxílio divino.
A escolha do número quarenta não é arbitrária. A Igreja reconhece na Sagrada Escritura que quarenta dias representam períodos de provação e preparação espiritual: Moisés no Monte Sinai, Elias no deserto e, sobretudo, Jesus no deserto (Ex 34,28; 1Rs 19,8; Mt 4,2). A Quaresma de São Miguel é, portanto, um tempo de batalha espiritual consciente, onde cada dia deve ser vivido com oração intensa, jejum moderado e prática da caridade. É uma oportunidade de revisar a própria vida, identificar fraquezas espirituais e fortalecer-se na graça, lembrando que o combate é contra “os principados e potestades” (Ef 6,12).
Encerrar a quaresma em 29 de setembro, dia dos Arcanjos, não é apenas simbólico, mas profundamente doutrinário. A Igreja celebra Miguel, defensor da Igreja e guerreiro contra o mal; Gabriel, mensageiro da Boa-Nova; e Rafael, guia e curador. Este término é como uma entrega final da alma aos cuidados dos príncipes celestes, lembrando que a batalha espiritual é contínua, mas que a vitória está garantida em Cristo, com o auxílio dos anjos. A liturgia da festa reforça esta mensagem: Miguel e os demais arcanjos são intermediários de Deus, protetores da Igreja e companheiros fiéis do cristão em sua luta diária.
O Catecismo da Igreja Católica (nn. 328-336) afirma que os anjos são criaturas pessoais e imortais, criadas por Deus para o louvor divino e para servir os homens. Eles exercem sua missão como mensageiros e protetores, participando da história da salvação. A devoção a São Miguel e aos arcanjos, portanto, não é superstição: é um reconhecimento da ordem criada por Deus e da necessidade de auxílio espiritual. O Papa Leão XIII reforçou esta prática com a oração a São Miguel Arcanjo, especialmente para proteção contra as ciladas do demônio, tornando-a uma ferramenta concreta de combate espiritual.
A vivência autêntica da Quaresma de São Miguel envolve três dimensões:
Oração: meditação diária das Escrituras, oração a São Miguel, recitação da Coroa de São Miguel e participação na Santa Missa, buscando união com Cristo e a proteção dos anjos.
Penitência: jejum, abstinência de hábitos que dispersam ou distraem da vida espiritual, e mortificação voluntária em espírito de reparação.
Caridade: obras de misericórdia corporais e espirituais, oferecendo ao próximo ajuda concreta, reconciliação e testemunho de fé. Esta tríade fortalece a alma, prepara o coração e aprofunda a experiência espiritual da quaresma.
Diversos santos e místicos relataram experiências de proteção angelical durante períodos de combate espiritual. São Francisco de Assis, São Padre Pio e Santa Teresa de Ávila destacaram a importância da companhia dos anjos e da intercessão de São Miguel em suas vidas. Esses testemunhos, guardados nos escritos e biografias, confirmam a relevância desta quaresma como um tempo de crescimento espiritual, fortalecimento da fé e união com os santos do Céu.
A Quaresma de São Miguel não é um exercício de devoção isolado: é um convite à vida inteira de santidade e combate espiritual. Começa com Maria, a Rainha dos Anjos, como modelo de humildade e fidelidade; passa por quarenta dias de penitência, oração e caridade; e culmina com os arcanjos, que nos lembram que a luta contra o mal é constante, mas que a vitória é certa em Cristo. Para o fiel que vive esta prática com seriedade e fé, cada dia torna-se uma oportunidade de fortalecer-se no Espírito, purificar o coração e aproximar-se mais do Deus que enviou os anjos para nos proteger.