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Crédito: Getty Images/Bloomberg
As negociações entre Rússia e Ucrânia voltaram ao centro do cenário internacional nos últimos dois dias, com o governo russo apresentando um conjunto formal de exigências como pré-condição para a assinatura de um cessar-fogo. A proposta, entregue em um memorando durante uma rodada de conversas em Istambul, marca a primeira tentativa direta de Moscou em meses de estabelecer parâmetros concretos para encerrar o conflito iniciado em fevereiro de 2022. No entanto, a resposta de Kiev foi firme: rejeição total.
O documento russo estabelece, ponto a ponto, o que Moscou considera indispensável para encerrar as hostilidades. Entre as principais condições estão:
O presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, reagiu prontamente às demandas russas, chamando o conteúdo do memorando de “ultrajante” e afirmando que a proposta ignora completamente a soberania da Ucrânia. Durante uma coletiva neste domingo (1º), Zelensky declarou:
“A Rússia quer que entreguemos nosso território, desmobilizemos nossas forças e aceitemos uma nova forma de colonização. Isso não é um plano de paz, é um ultimato mascarado.”
O presidente ucraniano também reiterou que não haverá qualquer reconhecimento da soberania russa sobre regiões ucranianas e reafirmou o direito de Kiev de buscar alianças militares, incluindo a adesão à OTAN. “Só haverá paz quando o último soldado russo deixar nosso território”, completou.
Fontes próximas ao governo ucraniano afirmaram que a delegação de Kiev considerou o tom da proposta “provocativo” e a classificou como uma tentativa de Moscou de legitimar conquistas militares obtidas à força.
Apesar da tensão política, as negociações em Istambul resultaram em acordos pontuais no campo humanitário. Foram autorizadas:
No entanto, nenhum desses avanços indica uma real aproximação entre as partes sobre o fim da guerra.
O conteúdo das exigências russas rapidamente repercutiu no Ocidente. Representantes do G7 se manifestaram contrários ao plano de Moscou. O presidente francês, Emmanuel Macron, declarou que o reconhecimento da ocupação de territórios não é negociável e que “a integridade territorial da Ucrânia permanece um princípio fundamental da ordem internacional”.
Os Estados Unidos, por meio do secretário de Estado Antony Blinken, disseram que o apoio militar à Ucrânia continuará “pelo tempo que for necessário”, e reforçaram que qualquer cessar-fogo deve ser “justo e duradouro, não ditado pelo agressor”.
Do lado russo, o porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, reforçou que “a Rússia está pronta para a paz”, mas que “essa paz precisa reconhecer as realidades no terreno”.
Analistas internacionais veem o plano russo como parte de uma estratégia para “congelar o conflito” nos moldes do que ocorreu na Geórgia em 2008 e na Crimeia em 2014. Ao impor exigências maximalistas e saber que serão recusadas, Moscou pode alegar que está aberta ao diálogo enquanto consolida o controle das áreas ocupadas e aguarda uma mudança no cenário político ou militar.
O professor de geopolítica Igor Petrov, da Universidade de Varsóvia, afirma:
“Putin sabe que a Ucrânia não aceitará essas condições. Mas ao apresentá-las formalmente, ele quer mostrar ao mundo que está buscando a paz — nos seus termos. É uma manobra calculada.”
A proposta de cessar-fogo russa representa, na prática, uma tentativa de legitimar ganhos territoriais obtidos à força e impor limites permanentes à soberania ucraniana. A resposta firme de Zelensky e a rejeição ocidental reforçam que o caminho para a paz segue bloqueado por interesses irreconciliáveis. Com o inverno se aproximando e a guerra já se arrastando por mais de três anos, o risco de um conflito prolongado — e sem solução diplomática no curto prazo — volta a dominar os corredores da diplomacia europeia.