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Crédito: Reprodução da Internet
Em meados do século XVII, ecoou pelos corredores de um convento em Paray-le-Monial, França, um pedido que marcaria para sempre a espiritualidade católica: Jesus Cristo mostrou o seu Coração a uma humilde visitandina, Santa Margarida Maria Alacoque, e pronunciou as palavras que selariam a mais ardente devoção do Cristianismo moderno:
“Eis o Coração que tanto amou os homens, que nada poupou até esgotar-se e consumir-se para testemunhar-lhes o seu amor. E, em reconhecimento, não recebo da maior parte deles senão ingratidões…”
A festa que hoje celebramos, Solenidade do Sagrado Coração de Jesus, é o resultado de séculos de amadurecimento espiritual na Igreja, onde a contemplação do lado aberto de Cristo na cruz revelou não apenas uma chaga, mas uma torrente de misericórdia e amor divino.
Seria injusto dizer que a devoção ao Sagrado Coração começou com Santa Margarida Maria. A Escritura Sagrada, a Tradição e a Liturgia sempre apontaram para o Coração de Cristo como símbolo do Amor Redentor.
No Evangelho de João (19,34), encontramos a passagem-chave:
“Mas um dos soldados abriu-lhe o lado com uma lança, e imediatamente saiu sangue e água.”
Os Padres da Igreja, desde São João Crisóstomo até Santo Agostinho, viram nesse ato o nascimento da Igreja e dos sacramentos — sangue (Eucaristia) e água (Batismo). O Coração de Cristo, transpassado, é fonte de vida para a humanidade.
No período medieval, místicos como Santa Gertrudes, a Magna (século XIII), tiveram visões do Coração de Jesus como fornalha ardente de amor. O culto, no entanto, permanecia restrito à dimensão mística e privada.
Santa Margarida Maria Alacoque (1647-1690), religiosa da Ordem da Visitação, recebeu várias aparições do Senhor entre 1673 e 1675. Jesus lhe mostrou o Seu Coração rodeado de chamas, cercado de espinhos, encimado por uma cruz e aberto para derramar graças sobre o mundo.
O Senhor lhe pediu:
Após resistências e exames rigorosos, a Igreja reconheceu a autenticidade das revelações e promoveu o culto ao Sagrado Coração, particularmente por ação dos Jesuítas, especialmente São Cláudio de La Colombière, confessor de Santa Margarida.
A devoção não ficou restrita a práticas pessoais. Em 1899, o Papa Leão XIII, por meio da Encíclica Annum Sacrum, consagrou oficialmente o mundo ao Sagrado Coração de Jesus. O Papa escreveu:
“Esta devoção […] resume toda a religião e, mais ainda, conduz mais eficazmente às almas ao conhecimento íntimo de Cristo Nosso Senhor e a um amor ardente para com Ele.”
São Pio X, Bento XV, Pio XI e Pio XII fortaleceram ainda mais a devoção. Pio XI, na Encíclica Miserentissimus Redemptor (1928), fala da necessidade de reparação ao Coração de Jesus pelas ofensas e pecados da humanidade. Já Pio XII, na monumental Encíclica Haurietis Aquas (1956), oferece o mais profundo tratado teológico sobre a devoção, destacando que venerar o Coração de Jesus é venerar o próprio Cristo na sua humanidade, centro do amor divino.
A imagem do Sagrado Coração não é mero ornamento: cada detalhe carrega um significado teológico profundo:
É importante sublinhar: não adoramos o coração físico isolado, mas veneramos o Sagrado Coração como símbolo do próprio Cristo, Deus feito homem, centro do Seu ser humano-divino, sede do Seu amor e da Sua vontade salvífica. Trata-se, pois, de culto de latria, não de idolatria.
A devoção ao Sagrado Coração não é sentimentalismo superficial. É profundamente teológica. Segundo Pio XII:
“O Coração físico de Jesus é o símbolo natural do Seu amor, pois nele reside e palpita o amor humano unido substancialmente ao amor divino.” (Haurietis Aquas, n. 22)
A essência da devoção é tripla:
Uma das práticas mais populares ligadas ao Sagrado Coração são as Nove Primeiras Sextas-feiras, reveladas a Santa Margarida Maria. As promessas de Jesus incluem:
Importante ressaltar: estas promessas não são superstição. São frutos espirituais ligados a uma vida de conversão, sacramentos e amor a Cristo.
Em tempos de indiferença religiosa, a devoção ao Sagrado Coração continua atualíssima. João Paulo II, grande devoto, afirmou:
“A mensagem que brota do Coração de Cristo é sobretudo a mensagem de amor. Ele quer que este amor seja retribuído.”
Bento XVI, igualmente, reafirmou a importância de “beber na fonte viva que jorra do Coração transpassado do Redentor.” E Francisco chama o Coração de Jesus de “lugar onde encontramos a misericórdia de Deus.”
Celebrar o Sagrado Coração de Jesus não é apenas recordar uma devoção privada. É entrar no centro da fé cristã: Deus amou o mundo ao ponto de entregar Seu Filho. E esse Filho, feito carne, continua a oferecer-nos o Seu Coração.
Hoje, dia do Sagrado Coração, é dia de deixar Cristo amar-nos e moldar o nosso coração ao Seu. Porque o Seu Coração continua a bater na Eucaristia, na Igreja, e na vida dos que O amam.
“Aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração, e encontrareis descanso para as vossas almas.” (Mt 11,29)