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Crédito: Reprodução da Internet
Quando Jesus proclama no Sermão da Montanha: “Vós sois o sal da terra… Vós sois a luz do mundo” (Mt 5,13-14), não apresenta uma recomendação facultativa. Trata-se de uma afirmação de identidade. O cristão não pode escolher se quer ou não ser sal e luz, pois isso decorre do batismo, pelo qual se torna membro vivo do Corpo de Cristo. O Catecismo da Igreja Católica (CIC, n. 1694) lembra que, configurados a Cristo, os fiéis devem “dar frutos de vida nova”, isto é, irradiar no mundo a santidade recebida. Ser sal e luz não é obra de marketing espiritual, mas consequência natural da vida em Cristo.
O sal, no mundo antigo, tinha três funções principais: conservar, purificar e dar sabor. No Antigo Testamento, era usado nos sacrifícios (Lv 2,13), significando a aliança incorruptível de Deus com seu povo. Quando Cristo chama os discípulos de “sal da terra”, confere a eles essa missão: preservar o mundo da corrupção do pecado, dar o sabor da verdade à vida e ser sinal da aliança de Deus com a humanidade. São João Crisóstomo comenta que “se o sal perde a sua força, tudo apodrece” (Homilia sobre Mateus 15,6), alertando que o cristão que perde a fé viva compromete também o mundo que deveria iluminar.
Jesus adverte: “Se o sal perder o sabor, com que lhe será restituído?” (Mt 5,13). Esta perda não significa apenas uma fé enfraquecida, mas uma identidade traída. O Concílio Vaticano II, na Lumen Gentium (n. 33), ensina que os leigos, vivendo no mundo, têm o dever de “buscar o Reino de Deus iluminando e ordenando as realidades temporais segundo Deus”. Se eles deixam de fazê-lo, tornam-se como o sal insípido: incapazes de transformar e de conservar. A tibieza espiritual e o conformismo com a mentalidade mundana são formas modernas de “perder o sabor”, que levam a Igreja a perder sua eficácia de testemunho.
A luz, na Sagrada Escritura, é símbolo da presença de Deus que ilumina e guia. Cristo mesmo declara: “Eu sou a luz do mundo” (Jo 8,12). Ao afirmar que os discípulos também são luz, Jesus não os coloca como concorrentes, mas como reflexos da sua própria luz. Santo Agostinho explica: “Não é por si mesmos que brilham, mas porque recebem a luz de Cristo. Somos iluminados para iluminar” (Sermão 229E). Essa luz não pode ser escondida, como um candeeiro colocado debaixo do alqueire. É chamada a resplandecer “para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem o vosso Pai” (Mt 5,16). Aqui está a chave: não é busca de prestígio humano, mas de glória a Deus.
Em tempos de secularização, muitos cristãos caem na tentação de relegar a fé ao âmbito privado. Contudo, ser luz do mundo exige visibilidade. O Papa São João Paulo II, na encíclica Christifideles Laici (1988, n. 15), recorda que os leigos não podem “fugir do mundo”, mas nele devem “ser fermento de evangelho”. A luz não foi feita para ficar escondida, mas para iluminar ambientes de trabalho, cultura, política e família. Um cristão que oculta sua fé em nome de um falso respeito humano contradiz a própria essência da sua vocação.
O mundo contemporâneo vive marcado por relativismo moral, perda de valores e indiferença religiosa. Nesse cenário, a função do sal e da luz se mostra ainda mais urgente. Bento XVI, em sua homilia de inauguração do pontificado (24 de abril de 2005), afirmou: “Quantos ventos de doutrina temos conhecido nestes últimos decênios! A barca da Igreja é sacudida de um lado para outro… Mas Cristo continua presente, e é através dos santos e de cada cristão que o mundo recebe sabor e luz”. Ser sal e luz não é apenas conservar tradições, mas sobretudo conservar a fé verdadeira diante da decomposição espiritual que ameaça a humanidade.
O Papa Francisco, na exortação Gaudete et Exsultate (2018, n. 36), alerta para o perigo do mundanismo espiritual, isto é, de um cristianismo diluído que se adapta ao mundo em vez de transformá-lo. Esse mundanismo é a forma mais concreta de “sal insípido”: parece cristão, mas perdeu sua força. O chamado de Jesus é radical: não basta ser apenas “diferente”, mas ser santo. A santidade é a luz que não pode ser escondida. Como ensina o Concílio Vaticano II: “A santidade é o caminho seguro e necessário para todos” (Lumen Gentium, n. 39). Sem a busca sincera da santidade, o sal se torna pó inútil e a luz se apaga.
A história da Igreja mostra que a luz dos cristãos brilhou mais intensamente nas perseguições. O sangue dos mártires, como dizia Tertuliano, tornou-se “semente de novos cristãos”. Eles são o exemplo supremo do sal que não perde o sabor, mesmo diante da morte, e da luz que ilumina até os próprios algozes. Nos dias de hoje, em que tantos cristãos ainda sofrem perseguição, seu testemunho é uma lembrança viva de que ser sal e luz pode custar caro, mas é justamente isso que dá credibilidade ao Evangelho.
Entre todos os santos, Maria é a mais luminosa. Não por si mesma, mas porque reflete a plenitude da luz de Cristo. São João Paulo II, na Redemptoris Mater (n. 37), a chama de “Estrela da Evangelização”. Assim como o sal preserva e purifica, Maria é aquela que, pela sua intercessão materna, ajuda os fiéis a permanecerem firmes na fé. Seu exemplo mostra que a verdadeira luz não busca aplausos, mas conduz sempre a Cristo. Todo cristão, ao olhar para Maria, descobre o segredo de ser luz: humildade e disponibilidade total à vontade de Deus.
Ser sal da terra e luz do mundo não é um título honorífico, mas uma responsabilidade imensa. O cristão que vive de forma autêntica conserva o mundo contra a corrupção e ilumina com a verdade do Evangelho. Se se torna insípido ou covarde, trai sua identidade batismal. A Igreja, mestra e mãe, recorda continuamente essa missão: ser presença transformadora, mesmo em meio às trevas. Em última análise, só poderá cumprir essa vocação quem permanecer unido a Cristo, fonte do sabor e da luz. Como ensina Santo Agostinho: “Não sejamos trevas em nós mesmos, para que possamos ser luz no Senhor” (Comentário ao Evangelho de João, Tratado 1).