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Crédito: Reprodução da Internet
No silêncio de uma noite de 1212, uma jovem de família nobre, cercada de privilégios e com um futuro socialmente garantido, decide fugir. Não foge de uma guerra nem de uma crise doméstica, mas de um destino que a afastaria de Cristo. Em Assis, Clara abandona vestidos finos, alianças políticas e expectativas familiares para abraçar o ideal da pobreza absoluta pregado por Francisco. Sua fuga não foi capricho juvenil, mas resposta madura a um chamado divino. O que para sua família pareceu uma perda irreparável tornou-se um ganho eterno para a Igreja. Hoje, quando a renúncia é vista como fraqueza e a pobreza voluntária como loucura, o testemunho de Santa Clara é mais urgente do que nunca.
Clara nasceu em 1193 ou 1194, numa Assis marcada pela sociedade feudal e pela rigidez de papéis sociais. Como filha de família nobre, o seu futuro parecia traçado: casamento vantajoso ou clausura em convento rico. Desde cedo, porém, demonstrou sensibilidade aos pobres e inclinação à oração. Ao ouvir Francisco falar sobre viver “segundo a forma do santo Evangelho”, seu coração ardeu por uma entrega total.
Na noite de Domingo de Ramos, ela sai de casa em segredo e encontra Francisco na Porciúncula. Lá, corta os cabelos diante do altar, gesto público e irrevogável de renúncia ao mundo. Esse ato, tão simples na forma, foi um terremoto social e espiritual: Clara rasgava o contrato tácito que prendia as mulheres de sua classe ao poder e à riqueza. Enquanto outros movimentos femininos floresciam, como as beguinas, ela escolheu um caminho ainda mais radical: viver sem possuir absolutamente nada.
O centro da espiritualidade clariana é a “altíssima pobreza”. Clara entendia que nada possuir é tudo possuir, porque Cristo é o bem supremo. Sua Regra, aprovada em 9 de agosto de 1253 por Inocêncio IV — dois dias antes de sua morte — foi a primeira escrita por uma mulher e ratificada pela Igreja. Na Bula Solet annuere, o Papa declarou: “Aprovamos e confirmamos, com autoridade apostólica, a forma de vida e a Regra que a tua comunidade escolheu viver segundo o Evangelho” (1253).
Para Clara, pobreza não era miséria, mas configuração a Cristo pobre e crucificado: “Pois conheceis a graça de nosso Senhor Jesus Cristo: Ele, sendo rico, fez-se pobre por vós, para que vós vos tornásseis ricos por sua pobreza” (2Cor 8,9). Sua escolha não era ascetismo vazio, mas profecia: num mundo que idolatra a acumulação, ela proclamava que a liberdade está em depender só de Deus.
Entre os episódios mais célebres de sua vida está a defesa milagrosa do mosteiro de São Damião. Quando mercenários sarracenos a serviço de Frederico II se aproximaram, Clara, enferma, ergueu-se, tomou o ostensório com o Santíssimo Sacramento e o apresentou do alto das muralhas. Segundo as crônicas, os invasores recuaram tomados por pavor.
Não foi apenas coragem humana, mas fé viva no Cristo eucarístico, que o Catecismo chama de “verdadeiro muro da Igreja” (§1374). Este gesto ressoa até hoje como lição espiritual: diante das forças que ameaçam a fé, não basta reagir com recursos humanos; é preciso colocar Cristo no centro da batalha.
Clara viveu em clausura, mas sua influência foi missionária. Por meio de suas cartas e exemplo, formou outras santas, como Inês de Praga, a quem escreveu: “Abrace o Cristo pobre para que mereça contemplá-lo eternamente” (Carta a Inês de Praga, II, 20). O Papa São João Paulo II, na Vita consecrata, recorda: “A vida contemplativa feminina é sinal e testemunho do primado de Deus e da oração na vida da Igreja” (n. 59).
Sua vida mostra que a missão não exige sempre deslocamento geográfico. A oração escondida pode sustentar batalhas espirituais decisivas, e a clausura não é fuga do mundo, mas imersão nas suas necessidades diante de Deus.
O carisma de Clara é provocação ao século XXI. A sua pobreza voluntária confronta a cultura da ostentação, onde identidade se confunde com posse. A “minoridade” franciscana — ser o menor, servir sem buscar honrarias — é modelo aplicável a leigos e consagrados que desejam uma vida mais simples e centrada no essencial.
Hoje, mosteiros clarianos continuam a viver este testemunho silencioso e eficaz, lembrando que uma vida livre do supérfluo é também uma vida disponível para Deus. E famílias católicas inspiradas por esse espírito redescobrem a alegria de viver com menos, mas com mais espaço para a graça.
Santa Clara morreu em 11 de agosto de 1253, dois dias após receber a aprovação papal de sua Regra. Viveu e morreu como eco fiel das palavras de São Paulo: “Considero tudo como perda diante do bem supremo que é o conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor” (Fl 3,8).
O seu testemunho não é relíquia do passado, mas provocação viva. No turbilhão de ofertas e distrações, Clara nos obriga a fazer a pergunta decisiva: “O que estou disposto a perder para ganhar Cristo?”. E sua resposta, silenciosa e luminosa, ainda ecoa: abrace o Cristo pobre — e nada mais lhe faltará.