USD | R$4,9853 |
|---|
Crédito: Reprodução da Internet
A história de Santo Apolinário está entrelaçada com os primórdios da evangelização no Ocidente, remontando ao século I da era cristã. Segundo a tradição mais sólida e venerável da Igreja, Apolinário foi discípulo direto de São Pedro, o Príncipe dos Apóstolos. Este, reconhecendo sua fé ardente, zelo missionário e firmeza doutrinal, teria enviado Apolinário como primeiro bispo à cidade de Ravena, na Itália, para ali fundar uma comunidade cristã.
Essa missão não era para qualquer um. Ravena, à época sob forte influência pagã, era um território hostil à fé nascente. Foi ali, com coragem sobrenatural e mansidão evangélica, que Apolinário começou a semear a Palavra, a converter os corações e a edificar a Igreja de Cristo. Sua autoridade vinha não apenas da imposição das mãos de Pedro, mas do testemunho vivo da santidade.
A vida de Santo Apolinário foi, como a de tantos outros primeiros bispos, marcada por uma série quase contínua de perseguições, exílios e torturas. Fontes antigas, como o Martirológio Romano, nos relatam que ele foi expulso de Ravena diversas vezes e constantemente acusado de perturbar a ordem pública por causa da fé cristã.
Mesmo com a oposição ferrenha das autoridades imperiais, Apolinário persistia em sua missão. Consta que realizava curas milagrosas e expulsava demônios, sinais que não apenas atestavam sua santidade, mas também convertiam muitos à fé. Por isso, tornava-se ainda mais odiado pelos pagãos, que o viam como uma ameaça à sua ordem e religião decadente.
A tradição sustenta que ele sofreu terrivelmente: foi flagelado, torturado e, por fim, morto por ordem de oficiais romanos. Sua morte, ocorrida por volta do ano 79, não se deu de forma imediata. Ele teria sido espancado com tanta violência que, mesmo não morrendo no local, faleceu pouco tempo depois em decorrência dos ferimentos. Morreu como viveu: confessando o nome de Cristo até o fim.
Santo Apolinário não é apenas mais um mártir entre os tantos do primeiro século. Ele ocupa um lugar privilegiado na tradição da Igreja como verdadeiro sucessor dos apóstolos. O Martirológio Romano, na sua edição atual, assim o comemora no dia 20 de julho: “Em Ravena, na Itália, o natalício de Santo Apolinário, primeiro bispo daquela cidade, discípulo do bem-aventurado Apóstolo Pedro, e por ele enviado à Itália como bispo, o qual, depois de muitos trabalhos e de gloriosas provações pela confissão da fé, coroado com o martírio, partiu para o Senhor.”
A liturgia tradicional da Igreja o reverencia com a dignidade de um dos grandes fundadores da fé na Itália, e seu nome é celebrado com grande solenidade. Na iconografia, é frequentemente representado com vestes episcopais e a palma do martírio, indicando sua dupla glória como bispo e mártir.
Um testemunho eloquente da importância de Santo Apolinário é a imponente Basílica de Sant’Apollinare in Classe, nos arredores de Ravena, construída no século VI. Essa magnífica igreja, um verdadeiro tesouro do cristianismo primitivo, foi erguida sobre o local onde se crê estar seu túmulo. A basílica tornou-se um centro de peregrinação e uma joia da arte sacra, rica em mosaicos que expressam a fé triunfante da Igreja.
Ali, o nome de Apolinário continua a ecoar entre os fiéis, lembrando que a santidade é o solo onde floresce toda a civilização cristã. O próprio Papa Bento XVI, em uma de suas catequeses (4 de outubro de 2006), citou Santo Apolinário entre os grandes bispos da antiguidade que edificaram a Igreja com o sangue e a doutrina.
Em tempos de relativismo, tibieza e secularismo, a figura de Santo Apolinário brilha como um modelo de firmeza doutrinal e coragem pastoral. Ele não negociou a fé, não se dobrou à pressão política, nem suavizou a doutrina para ser aceito. Sua missão não era agradar aos poderosos, mas salvar almas.
É precisamente este o espírito que a Igreja precisa reavivar hoje: bispos que imitem Santo Apolinário, que sejam verdadeiros pastores e mártires da verdade, mesmo que não derramem sangue, mas tenham a coragem de suportar o escárnio, o exílio cultural e a marginalização por causa de Cristo.
Santo Apolinário é uma lembrança viva de que a Igreja foi edificada sobre o sangue dos mártires e que, como dizia Tertuliano, “o sangue dos mártires é semente de cristãos.” Que o seu exemplo desperte em nós um zelo mais ardente pela fé católica, apostólica e romana, que ele tanto amou e por cuja integridade morreu.
Apolinário é mais do que um nome inscrito no calendário litúrgico: é um verdadeiro gigante da fé. Discípulo de Pedro, bispo entre os primeiros, mártir entre os mais fiéis, ele é um daqueles alicerces silenciosos, mas firmes, sobre os quais repousa a Igreja de Cristo.
Não há Igreja viva sem sangue derramado, e não há tradição autêntica sem fidelidade à origem. Apolinário, com sua vida e morte, nos lembra que a fidelidade ao depósito da fé exige tudo — até a própria vida. Mas é justamente assim que a Igreja triunfa, não com concessões, mas com santidade.
Santo Apolinário, rogai por nós!