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Crédito: Reprodução da Internet
Na Igreja Católica, a devoção aos santos não é um costume opcional ou periférico, mas uma expressão profunda da comunhão dos santos, um dogma de fé presente no Credo niceno-constantinopolitano: “Creio na comunhão dos santos”. A comunhão dos santos é a realidade viva da união entre os fiéis da terra, as almas do purgatório e os bem-aventurados do Céu. Escolher um santo de devoção é, portanto, acolher um amigo verdadeiro, um intercessor poderoso, um modelo concreto de vida cristã.
O Catecismo da Igreja Católica ensina que “os santos contemplam a Deus, louvam-no e não cessam de cuidar daqueles que deixaram na terra. A sua intercessão é o mais alto serviço que prestam ao desígnio de Deus” (CIC, §2683). O fiel que se une espiritualmente a um santo não o faz por sentimentalismo ou fetichismo, mas pela verdade da fé que reconhece na graça de Deus derramada sobre os santos um reflexo do próprio Cristo glorificado. Afinal, como afirma São Paulo, “sede meus imitadores como eu sou de Cristo” (1Cor 11,1).
É lícito e recomendável venerar todos os santos e recorrer à intercessão coletiva deles, como é feito na Solenidade de Todos os Santos. Contudo, a escolha pessoal de um santo específico nasce de uma necessidade ainda mais íntima: a de cultivar uma relação espiritual contínua com um intercessor particular. É como na vida: temos muitos conhecidos, mas poucos amigos íntimos.
São Francisco de Sales, Doutor da Igreja, afirmava: “Escolhei um dentre os santos do Céu como vosso especial protetor. Imitai as suas virtudes. Aquele santo vos será como um espelho: olhando para ele, aprendereis como deveis agir”. A escolha de um santo de devoção nos dá uma referência concreta para a vida interior, para a mortificação, para o apostolado, para o sofrimento e para a perseverança final.
A Igreja, embora não imponha regras fixas para a escolha de um santo de devoção, sempre apontou caminhos seguros e sensatos para isso, com base na razão iluminada pela fé. Eis alguns critérios, extraídos da tradição, da vida dos santos e da prática dos fiéis ao longo dos séculos:
É importante ter clareza doutrinária: os santos não ocupam o lugar de Deus, não são divindades nem concorrentes da Santíssima Trindade. Eles apenas refletem a luz do Cordeiro, como os vitrais de uma catedral iluminados pelo sol. São exemplos vivos daquilo que o Concílio Vaticano II chama de “santidade universal” (cf. Lumen Gentium, cap. V), ou seja, que todos somos chamados à santidade.
A devoção a um santo precisa ser acompanhada de conhecimento sobre sua vida, suas virtudes heroicas e sua união com Deus. Não é um sentimento genérico, mas um vínculo que se alimenta da liturgia, da leitura espiritual, da oração e da imitação prática.
Em tempos de superficialidade religiosa, é comum ver pessoas “colecionando” devoções como quem coleciona figurinhas. Isso contradiz a verdadeira natureza da piedade católica. Escolher um santo de devoção é um ato de fé e de amizade espiritual. Como ensina o Papa Bento XVI: “As biografias dos santos são verdadeiros caminhos de luz que nos indicam o caminho para Cristo” (Angelus, 1º nov. 2006).
Essa escolha, portanto, deve gerar conversão, aprofundamento da vida interior, abandono do pecado e busca pelas virtudes evangélicas. Um verdadeiro devoto de Santa Teresinha, por exemplo, buscará viver o “caminho da infância espiritual”, a humildade, a confiança e o amor oculto. Um devoto de São Miguel terá zelo pela verdade, coragem contra o mal, espírito de combate espiritual.
Embora seja natural ter devoção a santos mais populares como São Francisco, Santa Rita ou Santo Antônio, a Igreja nos dá uma multidão imensa de intercessores glorificados – muitos dos quais são desconhecidos ou esquecidos. A leitura do Martirológio Romano, por exemplo, revela uma riqueza impressionante de santos mártires, virgens, confessores, eremitas, reis e crianças santas.
Escolher um desses santos “ocultos” pode ser um ato de amor especial, de resgate da memória da Igreja. Como dizia Santa Teresa d’Ávila: “O Senhor ama tanto que honremos os seus amigos, que nada Lhe recusará por sua intercessão”.
Quem ainda não tem um santo de devoção pode fazer uma espécie de “retiro em miniatura” para isso. Eis um caminho prático:
Um dos maiores frutos da devoção a um santo é a certeza da ajuda na hora da morte. A tradição ensina que os santos vêm ao encontro de seus devotos no leito de morte, especialmente o Anjo da Guarda, São José – padroeiro da boa morte – e os santos de devoção pessoal.
O Papa Leão XIII incentivava os fiéis a não passarem um só dia sem invocar seu santo padroeiro. A relação construída ao longo da vida será um consolo na última batalha.
A devoção aos santos é uma expressão madura de amor a Deus. Não se trata de desviar o foco, mas de viver a fé católica em sua plenitude: “os amigos de Deus são nossos amigos”. Como escreveu São Bernardo de Claraval: “Que grande honra para nós termos por intercessores aqueles que já reinam com Cristo!”.
Escolher um santo de devoção é dar um passo firme na caminhada espiritual, é entrar na amizade dos céus, é confiar-se àqueles que, com lágrimas e sangue, já venceram o combate que agora travamos. Que cada alma católica encontre, com oração e discernimento, aquele ou aquela que será seu companheiro até a eternidade.
“Amemos os santos de Deus. Eles não são ciumentos. Se escolhermos um, todos se alegram.” – Santa Teresa de Jesus