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Crédito: Reprodução da Internet
“Eu trago no meu corpo as marcas de Jesus” (Gl 6,17). São Paulo escreveu essas palavras séculos antes de um homem da Úmbria, na Itália, vir a carregá-las em sentido literal. São Francisco de Assis, cuja vida revolucionou a história da Igreja, foi o primeiro santo oficialmente reconhecido pela Igreja Católica como portador dos estigmas de Cristo. Mais do que um milagre isolado, os estigmas de São Francisco iluminam a mística cristã, a comunhão dos santos e a união com o Cristo crucificado.
Nasceu Giovanni di Pietro di Bernardone, em 1181 ou 1182, filho de um rico comerciante de tecidos. Durante a juventude, Francisco buscou glória cavaleiresca e prazeres mundanos. Mas Deus o transformou num “novo homem”, expressão tantas vezes usada pelos Papas para definir o cristão regenerado (cf. São João Paulo II, Redemptor Hominis, n. 10).
Sua conversão teve momentos decisivos: o encontro com o leproso, o despojamento diante do pai na praça de Assis, e sobretudo o chamado de Cristo, na igrejinha de São Damião: “Francisco, vai e repara minha casa, que como vês, está em ruínas.” Francisco compreendeu, pouco a pouco, que não se tratava só de pedras, mas da Igreja viva, espiritual.
Toda a vida de São Francisco está marcada por um amor ardente ao Cristo crucificado. Ele não se limitava a contemplar a cruz externamente: desejava unir-se ao Senhor em tudo. São Boaventura, Doutor da Igreja e biógrafo de Francisco, relata:
“Ardia de tal modo no amor de Cristo que, transformado pela compaixão n’Aquele que por nós foi crucificado, desejava também ser completamente configurado com Ele através dos sofrimentos.” (Legenda Maior, IX,1)
Essa intensa identificação com Cristo Crucificado se manifestaria, de forma única, nos estigmas recebidos em La Verna.
Em setembro de 1224, São Francisco retirou-se com Frei Leão ao Monte Alverne (La Verna), na Toscana, para um período de jejum e oração de quarenta dias em preparação à festa de São Miguel Arcanjo. Lá, segundo testemunham Frei Tomás de Celano e São Boaventura, Francisco implorava duas graças: sentir, em seu corpo e alma, o amor que levou Cristo a se entregar na Cruz, e sofrer, na medida do possível, as dores da Paixão.
No dia 14 ou 15 de setembro (festa da Exaltação da Santa Cruz), Francisco teve a visão de um Serafim crucificado. São Boaventura descreve o momento:
“Apareceu-lhe um Serafim com asas esplêndidas, e entre as asas, a figura de um Homem crucificado. A visão causou-lhe tanta admiração, alegria e dor, que seu coração se encheu de espanto.” (Legenda Maior, XIII,3)
Quando a visão cessou, as chagas apareceram em seu corpo.
Os estigmas de São Francisco não eram meros sinais superficiais. Celano e Boaventura testemunham que se tratava de verdadeiras feridas, sangrentas e dolorosas:
Os estigmas persistiram até a morte. Durante a vida, Francisco os escondia, temendo que se tornassem objeto de curiosidade ou vaidade. Após sua morte, foram examinados publicamente e atestados em documentos eclesiásticos.
O Papa Bento XI, em sua Bula Refert Nobis (1304), reafirma a autenticidade dos estigmas. O Concílio de Latrão IV já tinha aberto caminho para a aceitação de tais fenômenos místicos, exigindo, porém, rigorosa investigação para evitar enganos ou fraudes.
Os estigmas de Francisco não são espetáculo místico isolado. Têm profundo significado teológico:
O Papa Paulo VI, na audiência geral de 17 de setembro de 1969, disse:
“Francisco é a imagem viva de Cristo crucificado. Ninguém como ele experimentou tão concretamente, na própria carne, o mistério da Cruz.”
O Catecismo da Igreja Católica confirma o valor espiritual do sofrimento unido ao de Cristo (n. 1505):
“Cristo, não suprimindo o sofrimento, mas assumindo-o e dando-lhe novo sentido, pode tornar qualquer um semelhante a Ele e associar à sua obra redentora.”
A Igreja sempre foi cautelosa diante de fenômenos extraordinários. Desde o início, exigiu investigação rigorosa sobre os estigmas de Francisco. Testemunhos de frades, médicos, clérigos e fiéis foram colhidos.
O Papa Alexandre IV, em sua Bula Clericis Universis (1255), reconheceu oficialmente que São Francisco foi ornado “com as sagradas marcas da Paixão de nosso Senhor Jesus Cristo”. Desde então, a festa dos Estigmas de São Francisco entrou no calendário franciscano (17 de setembro).
A Igreja ensina que tais fenômenos são dons gratuitos de Deus, mas não são necessários para a santidade. Servem de sinal para a fé dos fiéis, mas a maior prova de santidade é sempre a virtude.
Os estigmas de São Francisco permaneceram como símbolo poderoso:
Francisco não buscava fama por seus estigmas. Para ele, o maior milagre foi amar Cristo até o fim. No Testamento, escrito pouco antes de morrer, deixou claro:
“O Senhor me deu tal fé nas igrejas, que simplesmente dizia: Nós vos adoramos, Senhor Jesus Cristo, aqui e em todas as vossas igrejas que há no mundo inteiro.”
Assim viveu — e assim morreu — o primeiro santo estigmatizado, Francisco de Assis, o “Poverello” que se fez pequeno para ser tudo em Cristo. E deixou à Igreja não apenas as chagas visíveis, mas a chama ardente de um amor que até hoje ilumina o mundo.