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Crédito: Reprodução da Internet
Na Liturgia da Igreja Católica, a regra tradicional é clara e cheia de significado espiritual: os santos são celebrados na data de sua morte, o chamado “dies natalis”, ou seja, o “dia do nascimento para o Céu”. O martírio ou a morte em estado de graça marcam o ingresso definitivo na glória de Deus. Por isso, a memória litúrgica de um santo costuma sempre recair nessa data.
Mas São João Batista é uma exceção. Junto com a Santíssima Virgem Maria, ele é um dos únicos cuja festa é celebrada no seu nascimento terreno. Por quê?
A resposta é profundamente doutrinária e escatológica: João Batista, segundo o ensinamento constante da Tradição da Igreja, foi santificado ainda no ventre de sua mãe, Santa Isabel, por ocasião da Visitação de Nossa Senhora (Lc 1,39-45). Ou seja: ele foi redimido antes mesmo de nascer. Quando Maria, portando Jesus em seu seio, visita Isabel, João “estremece de alegria” no ventre materno. É o salto de um profeta que reconhece o Messias antes mesmo de ver a luz do mundo. Por isso, a Igreja sempre viu em João Batista um caso singular: alguém que, mesmo concebido com o pecado original, foi purificado antes do nascimento.
O Catecismo da Igreja Católica (CIC) não entra no detalhe desse privilégio como faz com Maria, mas a Tradição, os Padres da Igreja e os teólogos clássicos (como Santo Agostinho e São Tomás de Aquino) são claros: João foi santificado in utero pela graça de Cristo.
A missão de João Batista é absolutamente única na história da salvação. Nosso Senhor Jesus Cristo, com uma clareza que dispensa interpretações forçadas, o define assim:
“Entre os nascidos de mulher, não surgiu ninguém maior que João Batista” (Mt 11,11).
João é o elo direto entre o Antigo e o Novo Testamento. Ele é o último dos profetas do Antigo Testamento e, ao mesmo tempo, o primeiro a apontar fisicamente o Messias, cumprindo sua missão de Precursor.
O próprio Catecismo destaca esse papel singular:
“Com João Batista, o Espírito Santo começa a realizar no homem a ‘reviravolta’ que Deus quer operar: ‘Convertei-vos!’, era a pregação de João. Assim ele ‘vai adiante do Senhor com o espírito e a força de Elias’ (Lc 1,17)” (CIC, 717).
João é, portanto, o Precursor direto, a “voz que clama no deserto”, conforme a profecia de Isaías (cf. Is 40,3). Sua existência é uma espécie de fronteira mística entre a Antiga e a Nova Aliança.
A história de João Batista é um cumprimento literal das promessas proféticas.
Sua concepção já foi, por si só, um sinal extraordinário. Isabel era estéril e de idade avançada, o que reforça o caráter milagroso da intervenção divina (cf. Lc 1,7). Zacarias, seu pai, ao duvidar do anúncio do anjo Gabriel, fica mudo até o dia do nascimento de João (cf. Lc 1,18-20).
Quando João nasce, o povo se maravilha e começa a perguntar: “Que será este menino?” (Lc 1,66). O próprio Zacarias, inspirado pelo Espírito Santo, profetiza no cântico conhecido como Benedictus (Lc 1,68-79), onde exalta a missão redentora de Deus e aponta o filho como “profeta do Altíssimo”.
Já adulto, João Batista vive no deserto da Judeia, com vestes de pelos de camelo e alimentando-se de gafanhotos e mel silvestre (Mt 3,4). Um estilo de vida que ecoa os profetas antigos, em especial Elias, de quem João é considerado o sucessor espiritual.
Sua pregação é incisiva, direta, cortante como a espada de dois gumes:
“Raça de víboras! Quem vos ensinou a fugir da ira que está para vir?” (Mt 3,7).
Sua mensagem central: conversão, penitência e preparação para a vinda do Messias. O batismo que João administra nas águas do Jordão é um rito de arrependimento, um símbolo de purificação em vista da chegada iminente de Cristo.
O ponto culminante de sua missão foi o Batismo de Nosso Senhor.
Embora Jesus, sendo o Cordeiro Imaculado, não necessitasse de purificação, Ele se submete ao batismo de João para inaugurar publicamente sua missão e manifestar-se ao povo de Israel.
Naquele momento, temos uma das raríssimas manifestações explícitas da Santíssima Trindade nas Escrituras: o Filho nas águas, o Espírito Santo em forma de pomba e a voz do Pai que proclama:
“Este é o meu Filho muito amado, no qual pus toda a minha complacência” (Mt 3,17).
Depois disso, João continua apontando Cristo: “Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo” (Jo 1,29). Não há competição entre os dois. Pelo contrário, João é o modelo de humildade, resumido na frase lapidar:
“É necessário que Ele cresça e que eu diminua” (Jo 3,30).
A vida de João Batista termina como era esperado de um profeta: com o martírio.
Ao denunciar publicamente o adultério de Herodes Antipas com Herodíades, João atrai sobre si a perseguição real (Mc 6,17-29). Herodíades, ferida pela verdade, maquina sua morte. O pedido da filha, Salomé, durante o famoso episódio do banquete, leva Herodes a ordenar a decapitação de João.
O sangue do Precursor é derramado, selando com o martírio a sua fidelidade à verdade e à moral natural, mesmo diante do poder político.
A Liturgia da Igreja marca essa data com uma segunda celebração: o Martírio de São João Batista, comemorado em 29 de agosto.
A festa do nascimento de São João Batista é celebrada em 24 de junho. A data é exatamente seis meses antes do Natal de Nosso Senhor Jesus Cristo, em referência direta ao relato de Lucas 1,36, onde o anjo diz a Maria que Isabel já estava no sexto mês de gravidez.
Este detalhe cronológico foi sempre mantido com rigor pela Tradição da Igreja.
Na Liturgia das Horas, a antífona do Benedictus desse dia resume de forma magnífica a missão de João:
“E tu, menino, serás chamado profeta do Altíssimo, pois irás à frente do Senhor para preparar-lhe os caminhos.”
A solenidade do nascimento de João Batista é uma das festas mais antigas do calendário cristão, presente desde os primeiros séculos. Documentos como os antigos sacramentários romanos já trazem menção a ela.
Além disso, o simbolismo da data, logo após o solstício de verão no hemisfério norte, foi interpretado por muitos Padres da Igreja como eco daquela frase profética de João: “É necessário que Ele cresça e eu diminua”. A partir de 24 de junho, os dias começam a encurtar, preparando o ciclo cósmico para o nascimento de Cristo, o Sol da Justiça.
O Magistério da Igreja sempre manteve São João Batista numa posição de destaque na economia da salvação.
O Concílio Vaticano II, na constituição dogmática Lumen Gentium, afirma com clareza:
“De fato, já na sua própria concepção, João foi cheio do Espírito Santo e exultou de alegria diante de Cristo ainda no seio materno” (Lumen Gentium, 57).
São Tomás de Aquino, na Suma Teológica (III, q. 38, a. 2), reforça a singularidade de João Batista ao afirmar que ele foi santificado antes do nascimento de maneira especial, preparando-se, assim, para ser o precursor imediato de Cristo.
Celebrar São João Batista no dia de seu nascimento é reconhecer que ele foi, desde antes de nascer, um instrumento direto da graça de Deus na história da salvação.
Ele é o santo da conversão, da verdade sem concessões, da humildade diante do Cristo, da coragem profética que enfrenta poderes terrenos.
No mundo atual, tão sedento de líderes espirituais que não temam dizer a verdade, São João Batista continua sendo uma voz incômoda, mas absolutamente necessária. Um modelo para profetas, jornalistas, pregadores, leigos e qualquer um que precise lembrar que “não se pode servir a dois senhores” (Mt 6,24).