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Crédito: Reprodução da Internet
“O espírito sopra onde quer” (Jo 3,8). Mas, às vezes, ele sopra tão forte que arranca um homem do chão. Foi o que aconteceu com São José de Cupertino, o frade franciscano conhecido por ser um dos mais extraordinários místicos da Igreja Católica. Poucos santos despertam tanto assombro quanto ele — não pela eloquência teológica ou por grandes feitos humanos, mas justamente por sua extrema simplicidade e pelos dons sobrenaturais que o acompanhavam, entre eles a levitação em êxtase, especialmente durante a Santa Missa. Um milagre que, ao invés de o projetar diante do povo, fez com que ele fosse escondido.
José nasceu em 17 de junho de 1603, na pequena vila de Cupertino, no Reino de Nápoles, sul da Itália. Sua infância foi marcada por pobreza extrema, dificuldades cognitivas e constantes humilhações. Tinha dificuldade em aprender, era distraído, esquecia o que ouvia e falava com lentidão — a ponto de ser considerado, pelos que o cercavam, como um “incapaz”. Seu temperamento impaciente e desastrado só aumentava o desprezo que recebia.
Não à toa, ficou conhecido como “o burro de Cupertino” — apelido cruel, mas que, mais tarde, serviria como testemunho da glória de Deus: “o Senhor exalta os humildes” (Lc 1,52).
José desejava a vida religiosa, mas foi rejeitado por várias ordens. Por fim, os Frades Menores Conventuais o aceitaram como irmão leigo, por caridade. Contudo, ao perceberem sua piedade e simplicidade radiante, permitiram-lhe seguir a formação para o sacerdócio. Foi então que ocorreu um fato emblemático e providencial: durante os exames finais, os examinadores perguntaram justamente sobre o único trecho da Escritura que José conhecia bem. Passou no exame, foi ordenado sacerdote e, a partir daí, a vida mística tomou conta de sua existência.
O aspecto mais conhecido e, ao mesmo tempo, mais intrigante de sua vida são os êxtases místicos e as levitações. Há centenas de testemunhos juramentados, recolhidos pela Congregação para as Causas dos Santos, relatando que bastava ouvir o nome de Jesus ou contemplar algo sagrado para que entrasse em êxtase — muitas vezes com o corpo suspenso no ar.
Mas nada se comparava ao que acontecia durante a Santa Missa.
Segundo seus biógrafos oficiais, como o Pe. Domenico Bernini e o Frei Angelo Pastrovicchi, os momentos de maior arroubo espiritual se davam na Consagração. Ele perdia totalmente o contato com o mundo sensível, o rosto transfigurava-se em alegria celeste, e literalmente flutuava, erguendo-se vários metros acima do solo diante do altar, para o espanto de quem assistia.
Não se trata de fábula ou exagero piedoso. Os registros foram examinados com rigor durante seu processo de beatificação e canonização, seguindo os protocolos estabelecidos pelo Papa Bento XIV em seu monumental De Servorum Dei Beatificatione — obra que, inclusive, define critérios técnicos e teológicos para discernir milagres autênticos.
Por mais admirável que fosse tal dom, a Igreja decidiu ocultar José do público. O motivo? Evitar o sensacionalismo, a curiosidade desordenada e a desfiguração do sagrado. São João da Cruz já alertava: “Deus não dá fenômenos extraordinários para nos distrair, mas para nos purificar.” E a Igreja, guardiã da prudência, age sempre com cautela diante dos carismas.
Por isso, José passou boa parte da vida em isolamento, transferido de convento em convento, por ordem da Santa Sé. No convento de Osimo, onde viveu os últimos anos, era praticamente mantido longe da capela pública. Era autorizado a celebrar a Missa em privado, justamente para evitar aglomerações e o risco de culto à pessoa.
Ele, em obediência absoluta, nunca reclamou. Aceitou o exílio e o anonimato como verdadeira participação na Paixão de Cristo. Sua vida escondida tornou-se uma escola de humildade para a Igreja. Ele compreendeu, como poucos, que o milagre mais importante não é levitar, mas obedecer.
Levitar não é simplesmente “subir”; é ser arrebatado por Deus. A teologia mística católica, sobretudo nas obras de São Boaventura, Santa Teresa d’Ávila e São João da Cruz, trata disso: quando a alma se desapega inteiramente do mundo e se fixa em Deus, até o corpo pode ser arrastado. Trata-se de uma ação direta da graça, e não de autossugestão ou psicose, como supõem certos racionalistas modernos.
A levitação de São José de Cupertino é, assim, um símbolo visível de sua total união com Deus. Ele não voava por si, mas era “puxado” pelo Senhor — como que uma antecipação da Ressurreição dos corpos e da elevação final da alma redimida.
O Catecismo da Igreja Católica não trata diretamente de levitações, mas confirma que os milagres existem e continuam a ocorrer (CIC, §547-548), e que os dons extraordinários são possíveis para aqueles que vivem em união íntima com o Senhor (cf. CIC, §2003).
São José morreu no dia 18 de setembro de 1663, pronunciando os santos nomes de Jesus e Maria. Foi beatificado em 1753 e canonizado em 1767 pelo Papa Clemente XIII. Seu corpo repousa em Osimo, Itália.
É patrono dos estudantes, especialmente dos que têm dificuldades nos estudos — ironicamente, aquele que foi chamado de “burro”. Também é invocado por aqueles que sofrem com incompreensões, exclusões e doenças mentais.
São José de Cupertino era, digamos, “desconfortável”. Sua vida contradizia toda lógica: não era produtivo, eficiente, talentoso ou brilhante. Era só um homem simples que amava profundamente a Deus e que foi exaltado por Ele de forma literal.
Ele incomodava porque nos força a encarar o mistério — e nós, acostumados ao controle, temos pavor do que não podemos explicar. A Igreja, porém, não precisa explicar tudo para acreditar. Basta-lhe a verdade dos fatos, a prudência na análise, e o olhar da fé. São José de Cupertino é testemunho disso: o sobrenatural ainda existe, e está reservado aos pequenos.
São José de Cupertino nos mostra que o caminho mais curto para o Céu é a humildade. Deus não se deixa impressionar por diplomas, discursos ou habilidades. Ele se deixa conquistar por corações puros, dóceis e obedientes.
Como dizia São Paulo:
“O que é fraco segundo o mundo, Deus escolheu para confundir os fortes” (1Cor 1,27)
José levitava, sim. Mas só porque já vivia com o coração longe da terra. E talvez o maior milagre seja esse: mesmo flutuando, permaneceu obediente, escondido, pequeno.
Que São José de Cupertino interceda por nós, para que aprendamos a voar — não com as asas da vaidade, mas com os ventos da graça.