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Crédito: Reprodução da Internet
São Longuinho é uma figura peculiar na devoção católica: pouco se fala dele em homilias, quase não aparece nos grandes tratados patrísticos, e sua festa litúrgica é discreta. Ainda assim, ele sobreviveu ao tempo e à memória popular como símbolo de conversão, fé e reconhecimento da divindade de Cristo. Quem foi, afinal, São Longuinho? Qual é sua verdadeira história, conforme a fé, a doutrina e a tradição da Igreja?
O ponto de partida para entendermos São Longuinho é o Evangelho segundo São Mateus. No capítulo 27, versículo 54, lemos:
“O centurião e os que com ele guardavam Jesus, ao verem o terremoto e tudo o que estava acontecendo, ficaram possuídos de grande temor e disseram: ‘Este era verdadeiramente o Filho de Deus!’”
Esse centurião, comandante de cem soldados romanos, é tradicionalmente identificado pela Tradição da Igreja como Longino. Embora os Evangelhos canônicos não mencionem seu nome, a Tradição apostólica e os escritos apócrifos cristãos primitivos, como o “Evangelho de Nicodemos”, preservam essa identificação. A própria etimologia de Longinus parece derivar do latim longus (“longo”), e foi atribuída a ele na literatura cristã primitiva como símbolo daquele que, mesmo vindo de longe (gentio, não judeu), se aproximou da verdade.
João 19,34 narra que, após a morte de Jesus, um soldado perfurou o lado do Senhor com uma lança, e imediatamente saíram sangue e água:
“Contudo, um dos soldados perfurou-lhe o lado com uma lança, e imediatamente saiu sangue e água.“
A Tradição identifica esse soldado como o mesmo centurião mencionado nos sinóticos: Longino. Esse gesto aparentemente cruel ganha, à luz da fé, um significado sacramental profundo. Santo Agostinho e São João Crisóstomo veem nesse episódio um sinal do nascimento da Igreja. O sangue representa o Sacrifício Eucarístico, e a água, o Batismo. O soldado, mesmo como instrumento de morte, acaba se tornando o primeiro a tocar o fruto salvífico da cruz.
A iconografia cristã mostra muitas vezes Longino como cego de um olho, e há uma tradição (esta sim, presente apenas na tradição oriental e ocidental posterior) de que ele teria sido curado por uma gota do sangue de Cristo que respingou em seu rosto ao perfurar o lado de Jesus. O gesto de violência transforma-se então em graça, prefigurando a conversão dos gentios.
Segundo os relatos tradicionais conservados especialmente nas Igrejas do Oriente e em documentos medievais ocidentais, Longino, ao testemunhar os prodígios da morte de Jesus – o terremoto, a escuridão, o rasgar do véu do Templo – foi movido por temor e fé. Seu reconhecimento de Cristo como o Filho de Deus o teria levado à conversão e, posteriormente, à adesão à fé cristã. Como tantos outros, ele abandonou sua posição no exército romano e passou a proclamar o Cristo ressuscitado.
Fontes da Igreja grega relatam que ele teria evangelizado na Capadócia e sido decapitado sob ordem de Pôncio Pilatos ou de algum outro governador, ao ser denunciado como cristão. O martírio confere-lhe a coroa da santidade. O Martirológio Romano o celebra no dia 15 de março, reconhecendo sua morte em testemunho da fé.
Ainda que não haja canonização formal (no sentido moderno, pós-Trento) de São Longuinho, sua veneração é antiga. A Igreja do Oriente o inscreveu nos sinaxários desde os primeiros séculos. No Ocidente, especialmente a partir do século VIII, seu culto cresceu, e relíquias atribuídas a ele foram veneradas em diversas partes da Europa, como Roma, Mantova (Itália) e outras cidades.
O Martirológio Romano, revisado por ordem de São João Paulo II e confirmado por Bento XVI, inclui São Longino com o seguinte registro:
“Em Jerusalém, São Longino, o soldado que, segundo a tradição, abriu com sua lança o lado do Senhor crucificado.“
A menção é breve, mas suficiente para reconhecer o valor litúrgico e doutrinal da figura.
A lança de Longino é símbolo poderoso. Representa o instrumento da Paixão, mas também o despertar da fé. O lado aberto de Cristo é a porta do Coração Misericordioso, e Longino é o primeiro gentio a adentrá-la. Ele não apenas vê, mas crê. Por isso, Santo Tomás de Aquino, comentando os instrumentos da Paixão, observa que o sangue e a água que saem de Cristo servem para lavar e alimentar a alma: Longino foi o primeiro a receber essa graça, ainda antes de qualquer pregação apostólica.
Segundo uma tradição popular, Longino era um soldado romano de baixa estatura. Durante suas andanças pelas tavernas e reuniões militares, por ser pequeno, costumava encontrar objetos que os outros não viam e os devolvia aos seus donos. Esse hábito fez com que ficasse conhecido entre os companheiros da legião por sempre “achar o que estava perdido”. Séculos depois, no ano 999, o Papa Silvestre II teria estudado sua história e promovido sua canonização.
No entanto, muitos documentos do processo teriam se extraviado. Conta-se que o próprio Pontífice, em sinal de fé, pediu a intercessão de São Longuinho para encontrar os registros desaparecidos. Pouco tempo depois, os documentos teriam sido localizados, e a canonização pôde ser concluída. Por isso, segundo essa tradição, São Longuinho passou a ser invocado também como o santo das coisas perdidas.
No Brasil e em alguns países latinos, a figura de São Longuinho ganhou contornos curiosos na religiosidade popular. Há o costume de pedir sua intercessão para encontrar objetos perdidos, oferecendo três pulinhos como forma de agradecimento.
Essa prática, no entanto, não possui qualquer respaldo nos documentos da Igreja ou na Tradição oficial. É expressão da piedade popular e, como tal, tolerada na medida em que não fere a fé nem substitui os deveres do culto divino.
O Catecismo da Igreja Católica, no §1676, lembra:
“A religiosidade popular, quando é bem orientada, pode ser um verdadeiro lugar de encontro com Cristo.”
Logo, se essa devoção é vivida com fé autêntica, sem superstição ou irreverência, pode ser compreendida como expressão simples da confiança dos fiéis.
São Longuinho é uma dessas figuras que nos recorda o paradoxo do Evangelho: o instrumento da morte de Cristo foi também o primeiro beneficiário de Sua salvação. A lança que abriu o lado de Jesus abriu também os olhos da alma de Longino.
Mais do que um simples auxiliar para encontrar chaves perdidas, ele é ícone da conversão, testemunho de que até mesmo um instrumento da paixão pode tornar-se santo pela graça de Deus. Seu exemplo convida-nos a crer, mesmo quando tudo parece escuro, e a reconhecer, como ele, diante da cruz: “Verdadeiramente, este homem era o Filho de Deus.”