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Crédito: Reprodução da Internet
A Solenidade de São Pedro e São Paulo, celebrada hoje, é uma das mais altas festas do calendário litúrgico da Igreja Católica. Não se trata apenas de recordar dois grandes santos, mas de proclamar solenemente a identidade apostólica e missionária da Igreja, construída sobre a rocha de Pedro (cf. Mt 16,18) e impelida pelo ardor missionário de Paulo.
O Magistério constantemente sublinha a singularidade do primado petrino. O Concílio Vaticano II, na Constituição Dogmática Lumen Gentium (n. 18), afirma:
“O Senhor colocou somente Pedro como pedra e chave da Igreja e instituiu nele o princípio perpétuo e visível de unidade tanto dos bispos como da multidão dos fiéis.”
Pedro é o fundamento visível da unidade. Sua sucessão no Bispo de Roma continua a ser “princípio e fundamento perpétuo e visível da unidade, tanto dos bispos como da multidão dos fiéis” (Lumen Gentium, 23). É por isso que nesta data, além da celebração litúrgica, é tradicional a entrega do Pálio aos novos Arcebispos Metropolitanos, sinal da comunhão hierárquica com o Sucessor de Pedro.
Há um profundo simbolismo em Pedro e Paulo serem comemorados juntos. Não é apenas coincidência histórica. Ambos selaram com sangue sua fé em Cristo, em Roma, tornando a Cidade Eterna não apenas capital de um império terreno, mas centro espiritual da cristandade.
O Papa Bento XVI, em sua homilia de 29 de junho de 2008, enfatizou:
“Pedro e Paulo são, por assim dizer, dois luminares que, partindo de dois pontos diferentes, iluminam toda a Igreja primitiva e, para sempre, toda a Igreja de Deus.”
Pedro foi crucificado de cabeça para baixo na colina Vaticana, na época de Nero, por volta de 64 d.C. Paulo, cidadão romano, foi decapitado na Via Ostiense. A tradição, atestada por escritores como Santo Irineu e Eusébio de Cesareia, confirma esses fatos. Roma guarda ainda hoje seus túmulos como tesouros sagrados: São Pedro na Basílica Vaticana, São Paulo na Basílica de São Paulo Extramuros.
Pedro era o pescador da Galileia, impulsivo, caloroso, mas também frágil — o mesmo que professou “Tu és o Cristo” (Mt 16,16) e, dias depois, negou Jesus três vezes. Paulo, o erudito fariseu, perseguidor convertido, homem de letras, missionário incansável. E, no entanto, ambos convergem na mesma missão: anunciar que Jesus Cristo é o Senhor, único Salvador da humanidade.
São João Paulo II, na Encíclica Ut Unum Sint (n. 4), disse sobre Pedro e Paulo:
“É significativo que as duas colunas da Igreja de Roma — Pedro e Paulo — tão diversas na origem, na formação, no temperamento e até na sua missão, se encontrem aqui, em Roma, como duas testemunhas unidas até à morte.”
Roma torna-se, assim, o ponto de encontro entre fidelidade e missão, entre tradição e universalidade.
A Solenidade de São Pedro e São Paulo não é apenas latina; é profundamente enraizada também nas tradições orientais. A Igreja Ortodoxa celebra esta festa igualmente em 29 de junho. Isso evidencia o caráter ecumênico desta solenidade, pois tanto Pedro quanto Paulo são venerados como Apóstolos universais.
O Calendário Bizantino reserva-lhes um jejum preparatório, o “Jejum dos Apóstolos”, que começa após a Festa de Pentecostes e se estende até 28 de junho. A coincidência do calendário, especialmente com as Igrejas que seguem o Novo Calendário (gregoriano), revela o quanto Pedro e Paulo são elo de união no cristianismo.
Nada no catolicismo é apenas “alegoria vazia”. A Igreja ensina que Jesus conferiu a Pedro não só honra, mas verdadeira autoridade. As chaves do Reino, mencionadas em Mateus 16,19, são sinal de poder de governo. O Catecismo da Igreja Católica, no n. 553, afirma:
“Somente Pedro recebeu as chaves do Reino. A autoridade das chaves designa o poder de governar a casa de Deus, que é a Igreja.”
Por isso, a solenidade é também um ato de fé no primado do Papa, Sucessor de Pedro. Toda missa nesta data possui orações próprias que reafirmam a função petrina como princípio de unidade visível.
Se Pedro é a rocha, Paulo é a trombeta. Sem ele, o Evangelho talvez tivesse permanecido restrito à Palestina. Foi Paulo quem proclamou a liberdade cristã frente à Lei mosaica, quem abriu o caminho missionário até os confins do mundo conhecido.
Em Redemptoris Missio (n. 8), São João Paulo II escreve:
“Paulo sentia-se impulsionado a anunciar Cristo, não por ambição pessoal, mas por necessidade: ‘Ai de mim se eu não anunciar o Evangelho!’ (1 Cor 9,16).”
A solenidade nos recorda que a Igreja não pode trair seu mandato missionário. Celebrar São Paulo é renovar o ardor missionário da Igreja em todos os tempos.
Nesta data, o Papa entrega aos novos Arcebispos Metropolitanos o Pálio, faixa de lã branca que simboliza tanto a autoridade metropolitana quanto a união com Roma. É um rito antigo, mencionado já no pontificado de São Gregório Magno (séc. VI), e que ilustra perfeitamente o sentido da festa: unidade, comunhão e missão.
Em tempos de crises culturais, perda de fé e confusão doutrinal, a Solenidade de São Pedro e São Paulo ressoa como trombeta, chamando os católicos de volta à fidelidade apostólica. O Papa Francisco, na homilia de 2022, advertiu:
“Precisamos de uma Igreja livre, aberta, fiel e pobre. Precisamos de Pedro que confessa Cristo e de Paulo que O anuncia.”
Celebrar hoje Pedro e Paulo é confessar que a Igreja não é um clube social, mas é divina na sua origem e missão. É recordar que a barca de Pedro pode enfrentar tempestades, mas jamais será submersa — promessa do Senhor.
Pedro nos recorda a necessidade de unidade, autoridade e fidelidade. Paulo, o zelo missionário, a coragem de ir até os confins do mundo. Juntos, eles sustentam a mesma Igreja — Una, Santa, Católica e Apostólica.
Celebrar sua solenidade é mais que olhar para trás; é proclamar que a fé católica está viva, firme sobre a rocha, e ardente para levar Cristo a todos os povos.
“Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela.” (Mt 16,18)