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Crédito: Reprodução da Internet
Nem todos os santos celebrados no calendário da Igreja têm páginas e mais páginas de biografia preservada. Há aqueles cuja lembrança chega até nós em forma quase sussurrada, através de uma simples linha no Martirológio Romano. É o caso de São Zeno, celebrado em 02 de setembro, mártir da antiga cidade de Nicomédia, na Bitínia, atual território da Turquia. A Igreja conserva seu nome junto ao de seus dois filhos, Concordio e Teodoro, também martirizados. Três vidas entrelaçadas pela fé, unidas no testemunho até o fim.
O Martirológio Romano registra apenas: “Em Nicomédia, os santos mártires Zeno e seus filhos Concordio e Teodoro.” É só isso. Nenhum detalhe sobre o suplício, nenhuma descrição da idade dos filhos, nenhum retrato do contexto familiar. Para o olhar apressado, parece insuficiente. Mas para a fé, é justamente o contrário: o silêncio se torna poderoso, porque o que importa não é a cor da narrativa, mas a clareza do testemunho. Eles derramaram o sangue por Cristo, e isso basta para a Igreja inscrever seus nomes entre os bem-aventurados.
Nicomédia foi palco privilegiado de perseguições contra os cristãos. Foi ali que Diocleciano estabeleceu a sede imperial por um tempo, e dali ordenou a destruição de igrejas e a queima das Escrituras. Ser cristão nessa cidade era, literalmente, viver no fio da navalha. O martírio de Zeno e seus filhos insere-se nesse cenário: uma fé confessada num lugar e num tempo em que bastava um gesto de lealdade a Cristo para que a vida fosse ceifada.
A liturgia não deixa escapar o detalhe precioso: Zeno é lembrado junto de seus filhos. Não se trata de acaso. A Tradição sempre valorizou o testemunho partilhado na família. O Catecismo da Igreja Católica chama o lar cristão de “igreja doméstica” (CIC 1655-1658), lugar onde a fé é ensinada e vivida. O fato de Concordio e Teodoro morrerem ao lado do pai não é apenas dado histórico, mas sinal de uma realidade espiritual: a fé se transmite com sangue, suor e lágrimas, e às vezes com a própria vida.
Esse martírio em família evoca imediatamente a cena de 2 Macabeus 7, quando uma mãe encoraja os filhos a permanecer fiéis à Lei, mesmo diante da tortura. A fidelidade não é solitária, mas partilhada. Assim, São Zeno não apenas professou a fé diante dos perseguidores; ele também a transmitiu aos filhos de modo tão profundo que eles não hesitaram em acompanhá-lo até o sacrifício final. Eis aqui um ícone perfeito daquilo que São João Paulo II tantas vezes insistiu: a família é chamada a ser “santuário da vida e da fé”.
O Concílio Vaticano II, na constituição Lumen gentium (42), ensina: “O martírio, pelo qual o discípulo se torna semelhante ao Mestre que livremente aceitou a morte pela salvação do mundo, e com ele se conforma na efusão do sangue, é considerado pela Igreja como dom excepcional e prova suprema de amor.” Não há romantização aqui. O martírio não é busca voluntarista da morte, mas aceitação firme da fidelidade a Cristo, mesmo quando o preço é o mais alto. Zeno e seus filhos entraram nessa escola da fortaleza cristã.
Algumas tradições populares apontam que Zeno teria sido soldado, ou que seu martírio se deu sob o imperador Juliano, o Apóstata, décadas depois de Diocleciano. Não faltam versões que falam em ossos quebrados, em escárnios diante dos ídolos, em suplícios dolorosos. Mas, diante dessas divergências, o Magistério mantém-se sóbrio: a verdade permanente é que houve um testemunho até a morte em Nicomédia, e a Igreja reconhece sua autenticidade. O que não se pode perder de vista é a essência: eles escolheram Cristo acima de tudo.
Celebrar São Zeno e seus filhos em 02 de setembro é confrontar a mentalidade moderna que reduz a fé a um acessório privado. Essa memória grita: a fé é questão de vida ou morte, e deve ser transmitida de geração em geração, não apenas com palavras, mas com a coragem de viver segundo Cristo, mesmo quando isso custa. Hoje, o martírio vermelho (de sangue) é menos comum em nossas regiões, mas o martírio branco (de perseverança, de renúncia, de fidelidade cotidiana) continua sendo exigido das famílias católicas.
Como se vive, então, a devoção a São Zeno? Com simplicidade. Não há grandes novenas registradas, nem tradições locais espalhadas pelo mundo. O que existe é a lembrança litúrgica, suficiente para alimentar a fé. Um pai com seus filhos, firmes até o fim. No fundo, trata-se de uma chamada à oração familiar, à catequese no lar, à coragem de não ceder à idolatria moderna: relativismo, consumismo, culto ao eu. Zeno, Concordio e Teodoro lembram que a fé é o bem maior — e que vale mais perder a vida que perder Cristo.
Em um mundo que busca biografias longas, dados precisos, reconstruções históricas, a Igreja nos oferece, neste 02 de setembro, um exemplo conciso, mas imenso. São Zeno e seus filhos Concordio e Teodoro não precisam de muitos adornos para falar ao coração dos fiéis: são mártires. No fim, é isso que basta para que seus nomes estejam inscritos não apenas no Martirológio, mas no livro da vida. Celebrá-los é deixar-se interpelar: e nós, o que estamos dispostos a perder por Cristo?