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Crédito: Reprodução da Internet
Em Roma, sob o olhar eterno da cúpula de São Pedro, há uma história que corre pelas pedras silenciosas, uma história que poucos veem, mas que fala aos que creem com a força simbólica de séculos de fidelidade. Com a chegada do Jubileu Extraordinário, um dos gestos mais carregados de tradição, mistério e espiritualidade retorna discretamente: a abertura da passagem secreta entre o Vaticano e o Castelo de Santo Ângelo — o Passetto di Borgo. Mais do que um caminho oculto de tijolos e sombras, essa passagem é um vestígio vivo da história do papado, uma veia secreta de sobrevivência que pulsa com o sangue dos mártires, dos santos e dos pastores que guiaram a barca de Pedro sob as tempestades dos séculos.
O Passetto di Borgo, com seus 800 metros de extensão, foi construído no século XIII, durante o pontificado do Papa Nicolau III (1277–1280), como um corredor elevado e fortificado que conecta diretamente os Jardins Vaticanos ao Castelo de Santo Ângelo. Embora pareça apenas uma relíquia arquitetônica, ele é, de fato, uma metáfora concreta da missão petrina: proteger o depósito da fé e a integridade da Igreja até o fim dos tempos.
Este corredor, escondido entre os telhados e muralhas da cidade eterna, foi utilizado em momentos críticos. O mais famoso ocorreu em 1527, durante o Saque de Roma, quando o Papa Clemente VII escapou por ele enquanto milhares de soldados invadiam a cidade, massacrando a população e profanando igrejas. O sangue dos Guardas Suíços, que tombaram em defesa do Pontífice naquele dia, ainda ecoa nas paredes frias do Passetto. Cada tijolo ali parece murmurar: Non praevalebunt — “As portas do inferno não prevalecerão”.
A reabertura do Passetto no contexto do Ano Santo não é um mero ato turístico. É um gesto litúrgico, teológico e profundamente simbólico. O Jubileu, instituído por Bonifácio VIII em 1300, é um tempo de graça, conversão e reconciliação. Em sua estrutura espiritual, a Igreja propõe aos fiéis a vivência mais intensa da misericórdia divina, o retorno ao coração do Evangelho e a passagem — sim, passagem — do pecado para a vida nova em Cristo.
Reabrir o Passetto é recordar à humanidade que, mesmo nos tempos mais sombrios, Deus sempre oferece um caminho de fuga, de refúgio, de salvação. Aquele caminho que outrora salvou o Vigário de Cristo da morte, hoje se torna um sinal visível de que a Igreja continua sendo o esconderijo do Altíssimo, a tenda do encontro, o porto seguro no meio do caos.
Durante a cerimônia de reabertura do Passetto — geralmente discreta, mas profundamente carregada de espiritualidade —, o Papa ou um representante da Santa Sé percorre parte da passagem em silêncio orante. Cada passo ecoa como um salmo: é o retorno ao essencial, o chamado à vigilância, à sobriedade, à entrega total a Cristo. A presença de religiosos, guardas e fiéis em oração transforma esse simples ato em uma procissão penitencial invisível aos olhos do mundo, mas gloriosa diante do Céu.
Ao longo do Passetto, são colocados símbolos: a Cruz, velas acesas, ícones dos mártires e da Virgem Maria — a Mãe que sempre protegeu o Papa com seu manto. As paredes que um dia esconderam a fragilidade humana agora testemunham a fortaleza sobrenatural da Igreja.
Na Tradição da Igreja, o Papa é servo dos servos de Deus, mas também o pastor que não abandona o rebanho. A passagem secreta não é símbolo de fuga, mas de fidelidade: é o reflexo de que, mesmo quando tudo desmorona, a missão de Pedro deve continuar. É também um espelho da vida cristã: cada fiel é chamado a percorrer, em tempos de prova, seu próprio “Passetto espiritual”, sua travessia silenciosa, entre o mundo que ruge e o castelo da graça divina.
Na doutrina católica, a Igreja é ao mesmo tempo humana e divina, visível e invisível, perseguida e triunfante. O Passetto exprime essa dualidade: escondido e firme, frágil e invencível, como a própria Barca de Pedro. A sua abertura durante o Jubileu reitera aquilo que o Magistério sempre ensinou: Cristo é o nosso refúgio, a Igreja é nossa fortaleza, e a fidelidade ao Papa é fidelidade à vontade de Deus.
Ver o Passetto ser reaberto é como escutar a história sussurrar ao presente: “a esperança não morre”. Cada fiel que visita esse espaço, ora em silêncio, toca as paredes e contempla a luz filtrada pelas fendas compreende, sem palavras, que a história da Igreja é feita de cruzes escondidas, mas gloriosas. O Jubileu é, por excelência, esse tempo em que os muros caem e os caminhos se abrem. E o mais invisível dos caminhos, o mais escondido de todos, torna-se — por um breve tempo — visível para recordar o invisível.
O Passetto é, portanto, um sacramental da história, um lembrete concreto de que Deus salva através da história, dos gestos, das estruturas humanas tocadas pela graça. Seu reaparecimento em um Ano Santo é como uma ferida antiga que se abre não para sangrar, mas para curar — porque ali está inscrita a dor, a fidelidade, a esperança e a glória da Esposa de Cristo.
Que ao atravessar essa passagem — com os olhos ou com o coração —, cada fiel possa ouvir ecoar nas entranhas da alma a voz do Senhor:
“Não temas, pequeno rebanho. Eu estarei convosco até o fim dos tempos.”