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Crédito: Getty Images/iStockphoto
O setor agroexportador brasileiro amanheceu em estado de alerta. Com a aproximação do prazo final para a imposição de tarifas de 50% por parte dos Estados Unidos sobre produtos brasileiros, a indústria da carne teme perdas superiores a US$ 1 bilhão em exportações. A medida, prevista para entrar em vigor já nesta sexta-feira, 1º de agosto, atinge diretamente um dos pilares do agronegócio nacional: as vendas de carne bovina ao mercado norte-americano.
A informação foi confirmada nesta terça-feira por fontes ligadas ao Ministério das Relações Exteriores, que revelaram que o Brasil solicitou formalmente ao governo norte-americano que isente produtos alimentícios, especialmente carnes, além de aviões da Embraer, das novas tarifas. A expectativa é que a Casa Branca, sob a gestão do presidente Donald Trump, ainda reavalie a medida nos próximos dias, embora o clima entre os diplomatas seja de ceticismo.
Segundo a Abiec (Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carne), o prejuízo estimado pode ultrapassar US$ 1 bilhão ao ano, caso a tarifa seja de fato aplicada. Hoje, os Estados Unidos são o segundo maior destino das carnes brasileiras, atrás apenas da China. A nova barreira poderia desorganizar contratos firmados, comprometer empregos e elevar os custos operacionais de frigoríficos como JBS, Marfrig e Minerva.
“Essa tarifa atinge diretamente a competitividade da proteína brasileira. O impacto será generalizado, da indústria ao produtor rural”, afirmou um representante da Abiec, sob condição de anonimato, diante da sensibilidade das negociações em curso.
O alerta não veio apenas do setor produtivo. Nesta manhã, o Fundo Monetário Internacional (FMI) publicou projeções revisadas para o Brasil caso as tarifas sejam mantidas. Segundo o organismo, o crescimento previsto do PIB, que hoje gira em torno de 2,3% para 2025, poderia sofrer uma redução de até 1,4 pontos percentuais, atingindo diretamente o desempenho econômico nacional.
Além da carne bovina, os setores de frango, suínos, derivados alimentícios e até mesmo aeronaves da Embraer estão na mira da nova política tarifária dos Estados Unidos, que vêm escalando medidas protecionistas desde o retorno de Trump ao poder. O Brasil, tradicional parceiro comercial dos americanos, virou alvo após o endurecimento das relações bilaterais em temas como meio ambiente, tecnologia e comércio agrícola.
O Itamaraty, com apoio direto do Ministério da Agricultura e da Casa Civil, busca convencer os EUA de que as medidas seriam prejudiciais não apenas para o Brasil, mas para cadeias de suprimento e o próprio consumidor norte-americano, que se beneficia da importação de alimentos a preços competitivos.
No entanto, internamente, o clima é de tensão. Fontes próximas ao Planalto relatam que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva vem acompanhando o caso de perto, mas tem evitado declarações públicas sobre o tema, para não agravar ainda mais a relação com Washington.
Frigoríficos e tradings têm pressionado Brasília por uma solução emergencial. As empresas querem, no mínimo, um prazo de transição, para realocar contratos ou renegociar entregas. Algumas já suspenderam temporariamente novos embarques com destino aos EUA, temendo prejuízos logísticos e fiscais.
A resposta definitiva do governo americano é esperada até quinta-feira (31), na véspera da entrada em vigor da tarifa. Caso não haja recuo, o Brasil poderá acionar mecanismos multilaterais na Organização Mundial do Comércio (OMC), embora esse caminho seja mais lento e incerto.
O movimento tarifário do governo Trump é parte de uma estratégia mais ampla de proteção à indústria americana, especialmente no setor agropecuário. Pressionado por produtores locais e buscando mostrar força eleitoral às vésperas da convenção republicana, o presidente intensificou as restrições comerciais a países que, segundo ele, “desvalorizam artificialmente seus produtos” ou “não respeitam os interesses nacionais dos EUA”.
No caso brasileiro, pesam ainda divergências sobre questões ambientais, políticas de subsídio e acesso a mercados tecnológicos. A nova tarifa não foi precedida de diálogo público — um sinal de que a decisão já vinha sendo articulada internamente há meses.
Caso se confirme, a medida será um dos maiores choques comerciais enfrentados pelo agronegócio brasileiro nos últimos anos. Além das perdas financeiras, o episódio pode reacender discussões sobre diversificação de mercados, dependência dos EUA e a necessidade de políticas comerciais mais agressivas por parte do Brasil.
Para o consumidor brasileiro, o impacto poderá aparecer nos próximos meses — com possível redirecionamento de carnes ao mercado interno, flutuação de preços e desaceleração de investimentos em novas plantas frigoríficas.