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Crédito: Reprodução da Internet
A Praça de São Pedro em Roma ergue-se não apenas como uma obra-prima arquitetônica, mas como uma poderosa catequese visual, encarnando em pedra e espaço a missão acolhedora e salvífica da Igreja. Idealizada por Gian Lorenzo Bernini no século XVII, a praça não é apenas o átrio monumental da Basílica de São Pedro, mas uma representação profunda da maternidade da Igreja, que estende seus braços ao mundo inteiro, convidando todos à salvação em Cristo. Seu formato oval não é um capricho estético barroco — é um gesto teológico.
O projeto da Praça de São Pedro foi encomendado ao escultor e arquiteto Gian Lorenzo Bernini pelo Papa Alexandre VII, no contexto da Contra-Reforma, período em que a Igreja Católica respondia com vigor espiritual e intelectual às heresias protestantes. A construção da praça ocorreu entre 1656 e 1667, com o objetivo de criar um espaço que fosse, ao mesmo tempo, funcional para a liturgia e profundamente simbólico.
Bernini, um homem de fé e gênio artístico, concebeu a praça como dois semicírculos unidos, formando um grande elipse. Este formato não foi arbitrário. O próprio Bernini explicou que a colunata de duzentas e oitenta e quatro colunas dóricas deveria simbolizar “os braços maternos da Igreja”, acolhendo os fiéis de todas as nações e culturas, mesmo aqueles afastados da fé.
A linguagem simbólica da praça é, portanto, catequética: uma evangelização por meio da arte, como bem expressou São João Paulo II na Carta aos Artistas (1999), onde reiterou que a beleza pode ser um caminho que leva a Deus. Bernini compreendeu isso séculos antes, e o aplicou com maestria.
A colunata que abraça a praça é composta por quatro fileiras de colunas em cada braço, formando um total de 284 colunas e 88 pilastras. Seu estilo dórico remete à simplicidade e solidez — virtudes da fé cristã bem vivida.
No alto das colunas, 140 estátuas de santos olham silenciosamente para os peregrinos. Essas estátuas não são meros adornos: elas representam a Comunhão dos Santos, uma verdade de fé professada no Credo. Estão ali como intercessores e testemunhas, lembrando que a Igreja é ao mesmo tempo visível e invisível, militante na terra, padecente no purgatório e triunfante no céu.
As colunas não apenas delimitam o espaço; elas o definem espiritualmente. A Igreja é mãe e mestra (Mater et Magistra, como afirmou São João XXIII), que acolhe, ensina, corrige e conduz. O gesto arquitetônico da praça é o mesmo da Virgem Maria quando, no ícone da Salus Populi Romani, abre seus braços para proteger o povo. A colunata é, portanto, uma extensão do amor de Cristo e da maternidade da Igreja.
Ao centro da praça está o obelisco egípcio, que data do século XIII a.C. e foi trazido a Roma pelo imperador Calígula. Em 1586, por ordem do Papa Sisto V, foi transferido para o centro da Praça de São Pedro. No topo do obelisco, há uma cruz que contém, segundo a tradição, um fragmento da verdadeira Cruz de Cristo, tornando o monumento um testemunho visível da vitória de Cristo sobre o paganismo.
A disposição da praça, com o obelisco ao centro, as duas fontes laterais e a basílica ao fundo, possui ainda um significado eucarístico e escatológico. Tudo converge para Cristo, presente na Eucaristia celebrada no altar da Basílica, cujo baldaquino também é obra de Bernini. A praça conduz ao templo, e o templo ao Sacrifício do Cordeiro — é uma pedagogia do espaço.
O formato de abraço da Praça de São Pedro não é um sinal de relativismo ou de mero acolhimento humano. É um convite à conversão. Como explica o Catecismo da Igreja Católica (§845), a Igreja é “o lugar onde a humanidade deve reencontrar a sua unidade e a sua salvação”. O gesto de Bernini é, assim, expressão visível da verdade que a Igreja professa desde os Apóstolos: “Extra Ecclesiam nulla salus” — fora da Igreja não há salvação (Dominus Iesus, n. 20).
O acolhimento que a Praça simboliza é um acolhimento com exigência. Os braços da Igreja não apenas abraçam, mas também conduzem ao interior da fé, ao mistério pascal, à vida nova em Cristo. Esse é o abraço que salva, que purifica, que santifica.
A Praça de São Pedro nunca foi um simples espaço urbano. Ela é palco de celebrações litúrgicas, de bênçãos apostólicas, de canonizações e da oração do Ângelus dominical. Ali ecoam, com frequência, os clamores da humanidade e as respostas da Igreja.
Durante o Concílio Vaticano II, a praça tornou-se símbolo da abertura da Igreja ao mundo, não para se diluir nele, mas para evangelizá-lo. O Papa Bento XVI, em diversas ocasiões, relembrou que a tradição não é um peso morto, mas uma fonte viva que fecunda o presente.
Na encíclica Ecclesia de Eucharistia (2003), São João Paulo II recorda que “a Igreja vive da Eucaristia“. É exatamente isso que a praça aponta: o caminho que conduz ao altar, à presença real de Cristo. Não há ambiguidade na arquitetura da fé — tudo converge para Ele.
A Praça de São Pedro continua sendo, hoje, uma das mais belas expressões do que a Igreja é: casa dos filhos de Deus. O espaço aberto simboliza a missão universal da Igreja, mas suas colunas remetem ao dogma, à doutrina e à firmeza da fé. O equilíbrio entre abertura e solidez é a arte de Bernini, mas é também a essência do catolicismo: veritas in caritate, verdade na caridade (Ef 4,15).
Como afirmou o Papa Francisco em uma de suas homilias na praça: “a Igreja tem sempre os braços abertos para acolher todos, sem excluir ninguém”. Mas esse acolhimento é um convite à santidade, não um mero gesto social.