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Crédito: Reprodução da Internet
Desde que o homem existe, a pergunta “Por que Deus permite o sofrimento?” ecoa pelos séculos. Não é apenas questão filosófica; é ferida aberta na alma humana. Para a fé católica, a chave inicial para compreender o sofrimento está no mistério do pecado original. Santo Agostinho ensina que “Deus criou tudo bom, mas o mal entrou no mundo pelo mau uso da liberdade criada” (De Civitate Dei, XI, 17). Ou seja, Deus não criou o mal, mas permite o mal físico e moral como consequência da liberdade humana.
A tradição patrística insiste: não existia sofrimento antes da queda. “Por inveja do diabo, a morte entrou no mundo” (Sb 2,24). O Catecismo da Igreja Católica (CIC, n. 400) é claríssimo: “as harmonias, nas quais o homem foi criado, foram destruídas”. O sofrimento humano, então, não é obra direta de Deus, mas consequência de um mundo ferido pelo pecado.
A Igreja distingue duas vontades em Deus: a vontade ativa (o que Ele quer positivamente) e a vontade permissiva (o que Ele permite, embora não queira diretamente). São Tomás de Aquino explica: “Nada acontece sem Deus o permitir. Mas não quer dizer que Ele queira o mal, mas que permite o mal para daí tirar um bem maior” (cf. Suma Teológica, I, q.19, a.9).
Deus, em sua sabedoria, pode extrair do sofrimento frutos de conversão, purificação, caridade e união mais profunda com Ele. São João Paulo II, na encíclica Salvifici Doloris, afirma: “O sofrimento humano suscitou a compaixão de Cristo; Ele tomou sobre si o nosso sofrimento. Nele, todo sofrimento humano adquire um novo sentido, torna-se participação na obra salvífica do mundo” (n. 30).
Nenhuma religião encara o problema do sofrimento como o cristianismo. O escândalo supremo é o sofrimento do inocente, mas é exatamente isso que a Cruz nos mostra. O Filho de Deus, sem pecado, sofre, é humilhado, torturado e morre. Deus não responde ao problema do sofrimento com uma explicação, mas com a Sua presença sofredora. Como disse Bento XVI: “O cristianismo não é apenas boa notícia, mas também consolação para o sofrimento, porque Deus mesmo entrou nele” (Spe Salvi, n. 38).
O sofrimento redentor de Cristo confere novo valor ao sofrimento humano. Não há dor que não possa ser associada à Cruz. São Paulo foi taxativo: “Completo na minha carne o que falta às tribulações de Cristo, em favor do seu Corpo, que é a Igreja” (Cl 1,24). O que “falta” não é valor ou eficácia à Paixão de Cristo, mas apenas a nossa participação pessoal nesse mistério.
Na história da Igreja, houve momentos de grande aprofundamento sobre o valor do sofrimento. Os Padres do Deserto viam na dor física e moral um meio de purificação e desprendimento. Místicos como Santa Teresa d’Ávila e São João da Cruz consideravam o sofrimento como “noite escura”, preparação para a união com Deus. Santo Afonso de Ligório aconselhava a aceitar serenamente as contrariedades, repetindo: “Assim Deus quer, assim seja feito.”
Entretanto, a Igreja também defende ardorosamente o uso dos meios legítimos para aliviar a dor. É moralmente lícito buscar remédios, cirurgias, conforto psicológico. Não há glória em sofrer por sofrer. O Concílio Vaticano II ensina que o homem deve “lutar contra as aflições com coragem e prudência” (Gaudium et Spes, n. 37). O sofrimento cristão não é masoquismo, mas entrega amorosa à vontade de Deus.
A Igreja sempre associou o sofrimento à misericórdia. Jesus curava doentes não apenas para mostrar poder, mas porque Se compadecia da dor. O Papa Francisco recorda: “Cristo toca a carne sofredora do homem para revelar o amor do Pai” (Misericordiae Vultus, n. 16). A dor pode se tornar lugar de encontro com a misericórdia de Deus e oportunidade de amar os outros mais profundamente.
Por isso, obras de misericórdia corporais (dar de comer, visitar enfermos) têm importância fundamental na tradição católica. Aliviar o sofrimento alheio é servir ao próprio Cristo (cf. Mt 25,40).
Nenhum discurso católico sobre o sofrimento estaria completo sem mencionar a esperança do Céu. A fé cristã vê o sofrimento sob a ótica da eternidade. São Paulo consola os cristãos: “Os sofrimentos do tempo presente não têm proporção com a glória que se há de revelar em nós” (Rm 8,18).
Santo Irineu dizia: “A glória de Deus é o homem vivo” – não apenas vivo nesta terra, mas participante da vida eterna. O sofrimento, ainda que doloroso, é transitório. A vitória de Cristo sobre a morte garante que a última palavra não pertence à dor, mas à ressurreição.
Na vida concreta, como transformar o sofrimento em caminho de fé? Alguns conselhos perenes da espiritualidade católica:
O mistério do sofrimento não se resolve plenamente nesta vida. Mas o cristianismo ousa afirmar: há sentido, mesmo no absurdo aparente. São João Paulo II escreveu: “Na Cruz de Cristo não apenas se revela o sentido redentor do sofrimento, mas também se manifesta a preocupação salvífica de Deus para com o homem” (Salvifici Doloris, n. 13).
Deus não é indiferente à nossa dor. Ele chora conosco, como chorou diante do túmulo de Lázaro. Mas também nos promete que “enxugará toda lágrima dos seus olhos” (Ap 21,4). No fim, o sofrimento terá cumprido seu papel, e a alegria será sem limites.
Essa é a resposta da fé católica. Não uma explicação matemática, mas a certeza de que Deus caminha conosco mesmo no vale escuro — e que, além desse vale, está a glória.