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Crédito: Ricardo Stuckert / PR
O Sul do Brasil, especialmente o estado do Rio Grande do Sul, volta a viver dias de angústia, medo e incerteza diante de uma nova sequência de temporais e enchentes que castigam a região. Apenas oito meses após as históricas inundações de abril e maio de 2024 — as maiores da história recente gaúcha —, os moradores enfrentam novamente o drama de perder casas, bens, e, em muitos casos, a própria segurança de vida.
Desde a última sexta-feira (20), uma combinação de frentes frias, alta umidade e a atuação de um ciclone extratropical trouxe chuvas torrenciais que atingiram especialmente o Vale do Taquari, a Serra Gaúcha e a Região Metropolitana de Porto Alegre. Somente nas últimas 72 horas, algumas localidades registraram acumulados superiores a 180 milímetros de precipitação, com picos de 350 mm em pontos isolados, segundo dados do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet).
O impacto foi imediato: transbordamento de rios, deslizamentos de terra, destruição de pontes e bloqueio de rodovias. Cidades como Candelária, Encantado, Muçum, Roca Sales e Lajeado estão entre as mais afetadas. Os serviços de Defesa Civil não param de emitir alertas de risco de novos deslizamentos e inundações.
Até o momento, pelo menos duas mortes foram confirmadas: uma mulher de 54 anos em Candelária, vítima de um soterramento, e outra no Vale do Taquari. Há também registro de um desaparecido.
O drama humanitário se repete com números que crescem a cada hora. De acordo com o último boletim da Defesa Civil estadual, mais de 2.600 pessoas precisaram deixar suas casas apenas neste novo episódio. Entre elas, cerca de 1.200 estão desalojadas (acolhidas por familiares ou amigos) e aproximadamente 1.000 encontram-se em abrigos públicos improvisados em ginásios e escolas.
As imagens que circulam nas redes sociais e nos principais noticiários mostram famílias inteiras carregando o pouco que conseguiram salvar, caminhando pelas águas lamacentas, e enfrentando frio e escassez de alimentos e itens básicos de higiene.
O novo desastre natural atinge um estado que ainda luta para cicatrizar as profundas feridas deixadas pelas enchentes de abril e maio de 2024, consideradas por muitos especialistas como a pior catástrofe climática da história do Rio Grande do Sul.
Naquele período, 478 dos 497 municípios gaúchos foram afetados. Mais de 2,4 milhões de pessoas sofreram os impactos diretos ou indiretos das enchentes. Segundo balanço oficial, ao menos 184 pessoas perderam a vida, mais de 68 mil ficaram em abrigos e cerca de 580 mil ficaram desalojadas.
Além das perdas humanas, os prejuízos materiais foram bilionários. Estimativas da Confederação Nacional dos Municípios (CNM) apontam danos superiores a R$ 4,6 bilhões. O setor de seguros desembolsou até maio de 2024 mais de R$ 1,6 bilhão em indenizações, um recorde histórico.
O governador Eduardo Leite (PSDB) tem reforçado o discurso de que o Estado está mais preparado para lidar com as emergências, com reforço de equipes de resgate, dragagem de rios e ampliação dos sistemas de alerta. No entanto, a realidade em campo mostra que a infraestrutura ainda é frágil.
Estradas continuam sendo bloqueadas por deslizamentos. As redes de água e energia, já debilitadas, falham novamente nas regiões mais críticas. Comunidades ribeirinhas e de periferia seguem sendo as primeiras a sofrer os impactos, evidenciando um padrão de vulnerabilidade estrutural que se repete a cada evento climático extremo.
O Exército Brasileiro foi mobilizado e está atuando em sete cidades para auxiliar em resgates e logística humanitária. Helicópteros, caminhões e embarcações fazem parte da força-tarefa.
Meteorologistas atribuem o aumento da frequência e da intensidade desses eventos ao impacto combinado do fenômeno El Niño, que altera os padrões de chuva na América do Sul, e de fatores locais como desmatamento, impermeabilização do solo e ocupação desordenada de áreas de risco.
Estudos do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) indicam que as chuvas extremas de 2024 foram até 9% mais intensas por conta das mudanças climáticas globais, com uma probabilidade duas vezes maior de ocorrerem.
O professor Paulo Artaxo, membro do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC), foi categórico em recente entrevista: “Eventos como os que vimos no RS não podem mais ser tratados como exceção. Eles são parte da nova realidade climática brasileira, agravada por décadas de gestão ineficiente do uso do solo.”
O drama humanitário não afeta a todos da mesma forma. Relatório da Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), divulgado após as enchentes de 2024, apontou que comunidades indígenas, quilombolas, moradores de periferias e pessoas em situação de rua foram os mais prejudicados, tanto no impacto direto quanto na lenta resposta do poder público.
A CIDH solicitou que o Brasil implemente um sistema de monitoramento permanente sobre a recuperação social e econômica do estado, com processos de escuta ativa e inclusão das populações mais vulneráveis na tomada de decisões.
Apesar dos esforços de reconstrução iniciados em 2024, muitas cidades ainda convivem com estruturas provisórias, falta de habitação digna para os desabrigados permanentes e lentidão na liberação de verbas federais. A burocracia, segundo relatos de prefeitos da região, tem sido um dos principais entraves.
O governo federal prometeu, já em 2024, cerca de R$ 1,2 bilhão em recursos emergenciais e linhas de crédito especiais. Contudo, apenas uma fração desses valores chegou efetivamente às prefeituras.
Uma das iniciativas mais elogiadas no pós-tragédia foi a criação da plataforma “Alerta.Aí”, um sistema de monitoramento de rios com sensores de nível d’água em tempo real, que já ajudou a emitir avisos preventivos nas últimas semanas.
No entanto, especialistas reforçam que, sem uma reforma urbana profunda, investimentos em infraestrutura de drenagem e proteção ambiental, o sistema continuará sendo apenas um paliativo frente a fenômenos de grande magnitude.
As enchentes que hoje voltam a assolar o Rio Grande do Sul são mais um alerta brutal de que a vulnerabilidade climática do Brasil está se tornando estrutural. A cada evento, o ciclo se repete: chuva, devastação, resgate, luto, promessas de reconstrução — e o esquecimento.
Enquanto isso, milhares de famílias permanecem em situação de risco, esperando por uma resposta mais eficiente, planejada e justa. O Sul do Brasil não precisa apenas de reconstrução emergencial: precisa de uma revisão profunda de seu modelo de ocupação do solo, gestão ambiental e planejamento urbano.
A história cobrará o preço da inércia. E, infelizmente, quem pagará essa conta, como sempre, será a população mais pobre.