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Crédito: Reprodução da Internet
Desde o Antigo Testamento, a expressão “temor de Deus” aparece como algo desejável, elevado e próprio dos justos. “O temor do Senhor é o princípio da sabedoria” (Provérbios 1,7) — essa frase não nasce de uma mentalidade servil ou de pavor irracional, mas de uma experiência de reverência que brota da alma que contempla a grandeza divina. Já o medo, tal como o mundo o conhece, está mais ligado à punição e à perda, como afirma São João: “No amor não há temor; ao contrário, o perfeito amor lança fora o temor, porque o temor envolve castigo” (1Jo 4,18).
Essa distinção é fundamental. O temor de Deus, como ensina a Tradição da Igreja, não é o mesmo que o medo de um carrasco. É o temor reverencial de quem ama profundamente e sabe que ofender a Deus é o pior dos males — não apenas por causa do inferno, mas porque rompe a união com Aquele que é Amor.
O Catecismo da Igreja Católica é claro ao tratar desse dom: “O temor de Deus é o respeito filial e amoroso por Deus. Não é o temor de um escravo, mas o temor de um filho que não quer desagradar ao seu pai” (CIC 1831). Ele é o sétimo dos dons do Espírito Santo (Isaías 11,2) e se manifesta em almas humildes, conscientes de sua pequenez diante da majestade divina.
Santo Tomás de Aquino ensina que o temor de O temor de Deus é o princípio da sabedoria porque nos afasta do pecado e nos conduz ao amor de DeusDeus é o início da sabedoria justamente porque nos coloca em nosso devido lugar diante do Criador. Ele escreve na Suma Teológica (II-II, q.19): “O temor de Deus é o princípio da sabedoria porque nos afasta do pecado e nos conduz ao amor de Deus”. Assim, não se trata de temer a Deus como se Ele fosse imprevisível ou cruel, mas de reconhecer Sua justiça e santidade com humildade e confiança filial.
Existe, porém, um tipo de medo que pode ter utilidade pedagógica nas primeiras etapas da conversão: o chamado timor servilis, ou medo servil, que teme a punição. Esse tipo de temor, segundo Santo Tomás, pode ser um ponto de partida, mas nunca deve ser o fim. A alma que permanece apenas nesse medo ainda não conheceu verdadeiramente o coração de Deus.
São João da Cruz fala da transição do medo servil para o temor filial como parte essencial da purificação da alma. Nas “Subidas do Monte Carmelo”, ele descreve como a alma deve passar da servidão do medo para a liberdade do amor. Quando alguém teme mais o inferno do que ofender a Deus, ainda não ama plenamente. O verdadeiro temor cristão é o que nasce do amor — um temor de causar dor ao Amado.
Santo Afonso de Ligório é contundente ao dizer: “O temor de Deus é o freio que impede o pecador de cair no abismo”. Mas ele distingue bem esse temor saudável do medo desordenado: “Não devemos temer a Deus como a um tirano, mas como a um pai, severo, sim, mas infinitamente justo e infinitamente misericordioso”.
Santa Teresinha do Menino Jesus, doutora da Igreja, expressou com clareza a maturidade espiritual do temor de Deus: “Não posso temer um Deus que por mim se fez tão pequenino… eu O amo! Pois Ele é amor e misericórdia”. Teresinha não rejeitava o temor, mas compreendia que, em sua alma, ele já havia sido purificado de todo resquício de medo servil. O temor permanecia, mas como reverência e desejo de nunca decepcionar Aquele que a amava infinitamente.
O temor de Deus é a força que leva o cristão a buscar a perfeição evangélica, a fugir das ocasiões de pecado, a amar os mandamentos, a desejar o Céu. Ele é uma expressão da maturidade espiritual: o santo teme mais a própria infidelidade do que o inferno, porque compreende que o maior mal é ofender a Deus.
Já o medo — pânico, desespero, neurose espiritual — não provém de Deus. Ele é muitas vezes fomentado pelo demônio para paralisar, afligir, ou até induzir à perda da confiança na misericórdia divina. Aqui está o perigo do escrúpulo: uma forma de medo que disfarça a falta de fé no amor de Deus. Santo Inácio de Loyola alerta contra esse tipo de medo: “O demônio, sob aparência de zelo, move a alma ao excesso e à inquietação, para que, esgotada, abandone o bem que fazia”.
A Santíssima Virgem Maria é o exemplo perfeito do temor de Deus. O Magnificat proclama: “Sua misericórdia se estende de geração em geração sobre os que o temem” (Lc 1,50). A Virgem não temia castigos — era Imaculada —, mas vivia em reverente adoração, em perfeita obediência, em profundo temor filial. Seu coração puro compreendia o peso de cada palavra de Deus, e por isso foi obediente até o fim.
Quem quer crescer no dom do temor deve olhar para Maria. Ela não tremia de medo, mas curvava-se com humildade diante da vontade do Pai. O temor de Maria é o modelo do temor dos santos.
Temer a Deus, no sentido cristão, é amar tanto, tão profundamente, tão intensamente, que a alma treme diante da possibilidade de afastar-se d’Ele. É um temor que não paralisa, mas impulsiona. Não humilha, mas eleva. Não escraviza, mas liberta. Não é temor de servos, mas de filhos.
Quem teme a Deus dessa forma pode andar em paz, porque sua alma está ancorada no verdadeiro amor. E quem ama assim, não teme mais nada neste mundo.