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Ônibus

Crédito: Reprodução da Internet

Traficantes sequestram 12 ônibus e incendeiam 1 após operação da PM na Ilha do Governador

A ação paralisou o transporte público, desviou 19 linhas de ônibus, suspendeu serviços municipais e deixou moradores sob clima de medo e tensão

Uma manhã de tensão marcou a rotina de milhares de moradores da Ilha do Governador, na Zona Norte do Rio de Janeiro. Após uma operação da Polícia Militar no Morro do Dendê, criminosos reagiram com violência: sequestraram 12 ônibus, incendiaram um deles e ergueram barricadas em vias de grande circulação, como a Avenida Paranapuã e a Estrada do Cacuia. A ação criminosa obrigou motoristas a mudar rotas, interrompeu serviços públicos e trouxe à tona um problema que tem se tornado cada vez mais recorrente na cidade: o uso de coletivos como armas políticas e estratégicas do tráfico.

O início da operação no dendê

A ação policial começou nas primeiras horas da manhã, liderada pelo 17º BPM (Ilha do Governador) com reforço do 22º BPM (Maré) e do 3º BPM (Méier). O objetivo era retirar barricadas instaladas por traficantes no acesso ao Morro do Dendê e prender criminosos armados. Ao entrar na comunidade, os policiais foram recebidos a tiros e até uma granada foi lançada contra a tropa, sem causar feridos. Durante o confronto, quatro homens foram presos e quatro fuzis apreendidos, além de granadas, rádios comunicadores, drogas e munições.

Retaliação criminosa com ônibus sequestrados

A resposta veio rápida. Pouco depois da ação da PM, criminosos começaram a interceptar ônibus que circulavam pela região, obrigando motoristas e passageiros a descer. Em seguida, os coletivos foram atravessados em vias estratégicas, funcionando como barreiras para impedir a circulação de viaturas. Um dos veículos, da linha 921 (Ribeira x Bancários), foi incendiado na altura do número 2031 da Avenida Paranapuã. O Corpo de Bombeiros foi acionado e controlou as chamas. Ao todo, 12 ônibus foram sequestrados e usados como barricadas, de acordo com balanço de autoridades e do sindicato Rio Ônibus.

Impacto direto no transporte público

A violência repercutiu imediatamente na mobilidade da Ilha do Governador. Pelo menos 19 linhas tiveram de alterar seus itinerários. Linhas que ligam bairros da Ilha ao Centro, à Zona Norte e até à Zona Sul ficaram comprometidas. A 323 (Bananal x Castelo), a 326 (Bancários x Candelária) e a 328 (Bananal x Candelária) estão entre as mais impactadas, assim como a 696 (Praia do Dendê x Méier) e a 910 (Bananal x Irajá — via Fundão). O sindicato informou ainda que já foram registrados 99 casos de sequestro de ônibus apenas em 2025, e três deles terminaram incendiados.

A morte no querosene e os primeiros sinais de escalada

Paralelamente, na comunidade do Querosene, também na Ilha, policiais do 17º BPM se depararam com suspeitos armados em um veículo. Segundo a corporação, os criminosos desobedeceram à ordem de parada e atiraram contra a guarnição. Houve confronto, e um dos suspeitos foi baleado, socorrido e levado ao hospital, mas não resistiu. Com ele, a polícia afirma ter encontrado duas granadas e drogas. O episódio, ocorrido ainda de madrugada, já prenunciava o clima de instabilidade que marcaria o dia.

Serviços públicos e cotidiano sob pressão

O caos não ficou restrito ao transporte. A Comlurb suspendeu temporariamente a atuação de garis na região do Dendê e arredores, alegando risco para as equipes. Na área da saúde, pelo menos duas Clínicas da Família interromperam atividades externas, como visitas domiciliares, embora o atendimento interno tenha sido mantido. Em algumas reportagens, esse número sobe para quatro unidades de saúde impactadas, evidenciando dificuldades para garantir serviços básicos em áreas dominadas por facções. Já as escolas municipais e estaduais seguiram funcionando normalmente, segundo comunicados oficiais, em mais um exemplo da resiliência forçada dos moradores da Ilha.

Quem manda no dendê e por que a reação é tão violenta

O Morro do Dendê é apontado como uma das principais áreas controladas pelo Terceiro Comando Puro (TCP), facção que rivaliza com outras organizações criminosas pelo domínio de pontos de venda de drogas. A prática de sequestrar ônibus não é nova: trata-se de um método de pressão contra o poder público, de demonstração de força e, sobretudo, de criação de caos para dificultar a atuação policial. O sequestro e incêndio de coletivos, além de impactar diretamente os moradores, tem efeito simbólico: transformar o transporte público em um campo de batalha e expor a fragilidade do Estado em garantir a circulação livre.

Medo cotidiano e normalização da violência

Para quem vive na Ilha do Governador, a cena de ônibus atravessados, fumaça preta subindo e o comércio fechado não é inédita. Moradores relatam que, ao perceber a movimentação criminosa, muitos estabelecimentos baixaram as portas por ordem dos traficantes. O medo generalizado faz parte do cotidiano: trabalhadores atrasados, crianças retidas em casa, profissionais de saúde impedidos de circular. A população sente-se refém de um conflito que se repete, quase como um roteiro já conhecido. O transporte, que deveria ser símbolo de mobilidade e integração da cidade, é usado como instrumento de guerra urbana.

A estratégia do caos e os números que preocupam

O número de sequestros de ônibus este ano mostra uma curva preocupante. São quase cem episódios em pouco mais de oito meses, o que dá uma média superior a um caso a cada três dias. Não se trata de fatos isolados, mas de um padrão de atuação. A cada grande operação policial em territórios dominados por facções, a resposta vem rápida e altamente visível: coletivos atravessados, incêndios, vias interditadas. É um modo de paralisar a cidade, atrair atenção da mídia e mostrar poder. O problema não se limita à Ilha do Governador, mas atinge diferentes áreas do Rio, tornando-se uma tática de “contra-ataque urbano”.

O desafio para o poder público

A reação criminosa à operação no Dendê evidencia o dilema enfrentado pelas forças de segurança: a necessidade de agir contra quadrilhas fortemente armadas versus a capacidade desses grupos de retaliar atingindo a vida cotidiana da população. A cada incursão, surge o risco de um efeito colateral em larga escala. Para especialistas, a solução passa por inteligência policial, combate ao armamento pesado e políticas de longo prazo, que evitem que os criminosos encontrem no transporte público e na população civil uma ferramenta de barganha.

Um retrato da cidade partida

O episódio desta segunda-feira é mais do que uma ocorrência policial: é um retrato da cidade partida, em que moradores vivem entre dois poderes — o oficial e o paralelo. Enquanto o Estado busca retomar o controle de áreas dominadas, facções exibem seu poder de mobilização. No fim, quem paga o preço é o cidadão comum, preso no trânsito, obrigado a descer de um ônibus, impedido de ir ao trabalho ou viver sua rotina com tranquilidade.

A Ilha do Governador viveu mais um capítulo da longa disputa entre o Estado e o crime organizado no Rio de Janeiro. O saldo é expressivo: quatro presos, quatro fuzis apreendidos, um suspeito morto, 12 ônibus sequestrados, um incendiado, dezenas de linhas desviadas, serviços interrompidos e milhares de moradores sob tensão. Mas o impacto real vai além dos números: ele está no sentimento de medo, na rotina interrompida e na certeza de que, enquanto a guerra pelo território seguir sendo travada dessa forma, o transporte público e a população continuarão no centro da linha de fogo.

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