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O maior congresso de oncologia do mundo, promovido anualmente pela Sociedade Americana de Oncologia Clínica (ASCO), apresentou na edição de 2025 uma série de descobertas que podem transformar a maneira como o câncer é diagnosticado e tratado. Com milhares de especialistas reunidos em Chicago, o evento mostrou que a medicina personalizada está deixando de ser uma promessa para se tornar uma realidade concreta, acessível e com impacto direto na vida dos pacientes.
Um dos principais temas discutidos foi a personalização dos tratamentos oncológicos. Ou seja, em vez de aplicar o mesmo tipo de terapia para todos os pacientes com o mesmo tipo de câncer, os médicos agora conseguem adaptar o tratamento de acordo com as características genéticas do tumor e a resposta do próprio organismo. Isso significa mais chances de cura, menos efeitos colaterais e melhor qualidade de vida.
Até pouco tempo, a chamada terapia CAR-T — que utiliza células do sistema imunológico do próprio paciente modificadas em laboratório para atacar o câncer — só era eficaz em casos de leucemia e linfoma. Mas, este ano, pesquisadores apresentaram resultados animadores em pacientes com câncer gástrico avançado e glioblastoma (um tipo grave de tumor cerebral). A taxa de sobrevida aumentou em até 40% em relação aos tratamentos convencionais.
Esse é um avanço significativo, já que os tumores sólidos sempre foram um grande desafio para esse tipo de terapia. Apesar de ainda haver limitações, como custo elevado e possíveis efeitos colaterais, os resultados apresentados são considerados um marco na luta contra o câncer.
Outro destaque foi a consolidação dos chamados “anticorpos conjugados a drogas” (ADCs), que funcionam como “cavalos de Troia”. Eles são capazes de levar medicamentos diretamente até as células do câncer, sem afetar as células saudáveis. Na prática, isso significa tratamentos mais eficazes e com menos efeitos adversos.
Dois estudos internacionais, chamados DESTINY-Breast09 e ASCENT-04, mostraram que esse tipo de terapia reduziu em até 44% o risco de a doença voltar a evoluir em mulheres com câncer de mama do tipo HER2-positivo. E os resultados também são animadores em outros tipos de tumor, como pulmão, ovário e bexiga.
O câncer de pulmão de pequenas células, conhecido por ser muito agressivo e de difícil tratamento, também teve avanços. Um estudo chamado IMforte testou a combinação de dois medicamentos — lurbinectedina e atezolizumabe — e mostrou que os pacientes conseguiram viver mais: a média subiu de 10,6 para 13,2 meses. Pode parecer pouco, mas para oncologistas, esse é um ganho significativo num tipo de câncer que quase não teve novidades nos últimos anos.
No campo do diagnóstico, as novidades também são animadoras. A chamada biópsia líquida — um exame de sangue que detecta fragmentos do DNA do câncer circulando no corpo — está sendo aprimorada e deve se tornar mais comum nos próximos anos. Ela permite identificar alterações no tumor de forma precoce e adaptar o tratamento rapidamente, antes mesmo que a doença avance.
Aliada a essa tecnologia está a inteligência artificial. Sistemas de IA foram apresentados como ferramentas capazes de detectar tipos específicos de câncer com mais precisão do que muitos especialistas humanos. Um dos exemplos mais comentados foi o de um sistema desenvolvido em parceria com o Google Cloud, que ajuda a identificar mutações em pacientes com câncer de próstata resistente ao tratamento hormonal.
Um dos momentos mais emocionantes do congresso foi a apresentação dos primeiros resultados de uma vacina experimental contra o glioblastoma, um dos tumores cerebrais mais letais. Pacientes que responderam bem à vacina viveram, em média, o dobro do tempo em relação aos que receberam o tratamento padrão. Ainda são dados iniciais, mas eles mostram que o sistema imunológico pode ser um poderoso aliado na luta contra o câncer.
Além disso, pesquisadores estão investindo na chamada “imunoprofilia”, que analisa como o organismo de cada pessoa reage ao câncer. Isso ajuda os médicos a prever quem vai se beneficiar de determinados tipos de tratamento e quem não vai, permitindo decisões mais acertadas desde o início.
Nem só de medicamentos foi feito o congresso. Um estudo de longo prazo apresentado no evento revelou que pessoas com câncer que praticam atividades físicas regularmente têm 37% menos chance de morrer e 28% menos risco de a doença voltar. E o benefício se mantém mesmo durante a quimioterapia.
Outro estudo mostrou que uma simples avaliação geriátrica em pacientes mais velhos ajudou a melhorar a compreensão deles sobre a própria saúde, o que resultou em decisões mais conscientes sobre o tratamento e uma melhor qualidade de vida no fim da vida.
A ASCO 2025 deixou claro que a oncologia vive um momento de transformação. Os avanços científicos estão cada vez mais rápidos, mas o foco principal é um só: o paciente. A ideia de tratar a doença de forma genérica está sendo substituída por uma abordagem mais humana, que leva em conta as particularidades de cada indivíduo e oferece tratamentos mais eficazes, com menos sofrimento.
Por outro lado, os desafios continuam: muitos desses tratamentos ainda são caros e não estão disponíveis em todos os países. O acesso à medicina de precisão ainda é limitado fora dos grandes centros. Por isso, será fundamental que governos, sistemas de saúde e a indústria farmacêutica trabalhem juntos para garantir que essas descobertas beneficiem o maior número possível de pessoas.
O que ficou evidente após uma semana intensa de debates e descobertas é que a esperança, quando guiada pela ciência, pode sim se tornar realidade — e já está transformando a vida de milhares de pacientes ao redor do mundo.