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Crédito: Reprodução da Internet
Após a Ressurreição, o Cristo glorioso se manifesta aos Seus discípulos em diversos momentos, instruindo-os, confortando-os e preparando-os para a missão. Um desses encontros, profundamente simbólico e carregado de significados espirituais, acontece às margens do Mar de Tiberíades, em João 21. Nele, Jesus ressuscitado pergunta por três vezes a Pedro: “Simão, filho de João, tu me amas?” (Jo 21,15-17). Este diálogo, denso e silenciosamente dramático, é um dos mais tocantes do Evangelho e carrega em si uma profundidade teológica e pastoral inigualável. Não é apenas uma cena de reconciliação pessoal, mas também a restauração pública do primado de Pedro, como pedra da Igreja.
A cena se passa após a Páscoa. Os discípulos haviam voltado à Galileia, como o anjo havia instruído (cf. Mc 16,7). Pedro, acompanhado por outros seis, decide pescar – talvez como retorno a uma rotina conhecida, ou porque ainda não compreendiam plenamente o novo tempo que se iniciava. Durante a noite, nada pescam. Ao amanhecer, um Homem à margem (Jesus) os orienta a lançar a rede do lado direito. Obedecem e a rede se enche milagrosamente. João reconhece: “É o Senhor!” (Jo 21,7). Pedro, impetuoso, se lança ao mar para ir ao encontro de Jesus.
A pesca milagrosa evoca o chamado inicial de Pedro (cf. Lc 5,1-11), enquanto o número dos peixes (153) é lido por muitos Padres da Igreja como o número completo das nações conhecidas, indicando a missão universal da Igreja. Ao chegarem à margem, Jesus já havia preparado um fogo com peixe e pão – sinal eucarístico e imagem da providência divina.
João menciona que o fogo na margem era um “fogo de brasas” (anthrakia, em grego) – mesma palavra usada em João 18,18, onde Pedro negara Jesus por três vezes junto a outro fogo de brasas, no pátio do sumo sacerdote. Trata-se, pois, de uma ambientação intencional, litúrgica e pedagógica: assim como a queda de Pedro aconteceu ao lado de um fogo, também sua restauração se dá à mesma luz, agora não de medo, mas de amor.
Jesus chama Pedro pelo seu nome antigo: “Simão, filho de João”. Ele não o chama de “Pedro” (nome dado por Cristo) até que o discípulo reponha sua fidelidade. Isso indica que o Senhor está retornando à raiz, reiniciando o caminho. As três perguntas “Tu me amas?” correspondem às três negações de Pedro na noite da Paixão. Cada resposta afirmativa é um ato de reparação, de reconciliação e de confiança.
No original grego, há uma variação nas palavras usadas para “amor”:
Esse jogo de palavras revela que Jesus respeita a fraqueza de Pedro, mas também o chama a crescer no amor. Pedro, que agora já não promete morrer por Cristo como antes, mas responde com humildade, demonstra uma fé purificada pela dor da queda.
Os Padres da Igreja, como Santo Agostinho, São João Crisóstomo e São Gregório Magno, veem nesse episódio a reafirmação do primado petrino. O apóstolo é restaurado não apenas para sua dignidade pessoal, mas para o pastoreio da Igreja universal. As três respostas de Pedro são seguidas por três missões:
Cada uma destas expressões indica uma profundidade distinta:
Jesus, o Bom Pastor, transfere simbolicamente sua função pastoral a Pedro. Aqui se funda, segundo a Tradição católica, o exercício visível do primado de jurisdição de Pedro – que é perpetuado no ministério do Papa.
No pensamento judaico, a repetição tem valor ritual e pedagógico. Uma ação feita três vezes é juridicamente vinculante (cf. Gn 41,32). Além disso, o número três indica completude e firmeza. No contexto da teshuvá (arrependimento), há a necessidade de reparar não só em palavras, mas em gestos e atos. A tríplice pergunta, portanto, insere-se nesse horizonte de reconciliação plena: o coração que negou três vezes deve agora proclamar o amor três vezes.
Também o uso do nome completo, “Simão, filho de João”, evoca o modo como Deus chamava os profetas no Antigo Testamento, para estabelecer um novo momento da missão.
Pedro não afirma amar com o amor divino (ágape), mas responde com o amor que tem: sincero, embora limitado. Isso é o que o Senhor espera de cada fiel: não uma perfeição imediata, mas um amor real, ainda que frágil. A humildade de Pedro, que se entristece na terceira pergunta (cf. Jo 21,17), mostra que agora ele entende a gravidade de sua negação e a grandeza da misericórdia divina.
Ao final do diálogo, Jesus profetiza: “Quando eras jovem, tu mesmo te vestias e ias para onde querias. Mas quando fores velho, estenderás as mãos e outro te cingirá e te levará para onde não queres ir” (Jo 21,18). O evangelista comenta: “Jesus disse isso para indicar com que morte Pedro iria glorificar a Deus”. Trata-se de uma alusão ao martírio de Pedro, que segundo a Tradição ocorreu em Roma, crucificado de cabeça para baixo, por sua própria escolha, por não se considerar digno de morrer como seu Senhor.
Assim, o amor confessado leva ao sacrifício consumado. Pedro, que uma vez fugira do sofrimento, agora é capaz de abraçá-lo com fidelidade total.
Liturgicamente, este episódio é lido no Tempo Pascal, após a oitava da Páscoa, para mostrar que a Ressurreição não apenas venceu a morte, mas também cura as feridas da traição humana. Espiritualmente, é um modelo de como o arrependimento sincero e a graça divina podem restaurar até o mais caído dos apóstolos.
Eclesiologicamente, é o fundamento da autoridade pastoral da Igreja, que é pastoral por amor, não por domínio. O Papa, sucessor de Pedro, é aquele que, tendo sido perdoado, perdoa; tendo amado Cristo, cuida dos seus.
Neste breve diálogo à beira do mar, vemos condensada toda a pedagogia de Jesus: Ele não desiste dos que ama. Ele reconstrói com misericórdia aquilo que o pecado destruiu. E a partir do amor humilde, Ele ergue uma missão universal. A tríplice pergunta não é uma acusação, mas um convite ao amor mais profundo, aquele que transforma pastores frágeis em colunas da Igreja.
Pedro, restaurado, se tornará o primeiro Papa, não por ser o melhor, mas por ter amado – e por ter sido o primeiro a experimentar, no mais profundo da alma, o poder redentor da Misericórdia.